Sexta-feira, 02 de Outubro de 2026
ELEIÇÕES

Goiás está entre 19 estados brasileiros que nunca elegeram uma mulher governadora

Levantamento do Mais Goiás mostra que, além de nunca eleger uma mulher para o Palácio das Esmeraldas, estado também nunca teve vice-governadora nem uma mulher no comando interino do Executivo

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Palácio das Esmeraldas, sede do Governo de Goiás, nunca teve uma mulher como governadora titular desde o início da República (Divulgação/Governo de Goiás)

Nenhuma mulher aparece na relação oficial das pessoas que exerceram o comando do Governo de Goiás desde o início da República, em 1889. Levantamento documental feito pelo Mais Goiás, a partir dos registros da Casa Civil, da Vice-Governadoria e da Justiça Eleitoral, mostra que o estado nunca elegeu uma governadora, não registra mulher entre os vice-governadores e também não apresenta nome feminino nos períodos interinos relacionados oficialmente. 

No cenário nacional, dois números precisam ser separados. Goiás integra o grupo de 14 estados que nunca tiveram uma governadora titular — considerada, neste levantamento, a mulher que assume definitivamente o Executivo, seja após vencer uma eleição para governadora, seja por sucessão do titular. Quando o critério considera exclusivamente mulheres eleitas diretamente para governadora, o número sobe para 19 dos 26 estados brasileiros. 

Essa distinção evita uma conclusão incorreta. Uma vice-governadora pode assumir temporariamente um estado sem se tornar titular definitiva. Santa Catarina, por exemplo, permanece no grupo dos estados sem governadora titular, embora Marilisa Boehm exerça atualmente o governo durante licença de Jorginho Mello, entre 29 de agosto e 5 de outubro de 2026.

Goiás está no grupo de 14 estados

Palácio das Esmeraldas, sede do Governo de Goiás, em registro histórico; levantamento do Mais Goiás não identifica mulher no comando do Executivo estadual desde o início da República (Arquivo Nacional)
Palácio das Esmeraldas, sede do Governo de Goiás, em registro histórico; levantamento do Mais Goiás não identifica mulher no comando do Executivo estadual desde o início da República (Arquivo Nacional)

Além de Goiás, Alagoas, Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins não tiveram mulher como governadora titular. O levantamento nacional já apontava esse grupo após a eleição de Raquel Lyra, primeira mulher eleita governadora de Pernambuco, em 2022. 

A atualização até setembro de 2026 não retira nenhum desses estados da relação. Neste ano, 11 governadores deixam seus cargos para disputar as eleições; mulheres assumem definitivamente, entre outros casos, Acre e Pará. Os dois estados, porém, já haviam sido governados anteriormente por mulheres e, portanto, não faziam parte do grupo dos 14. 

No Acre, Iolanda Fleming assume definitivamente o governo em 1986 após a saída de Nabor Júnior. Ela se torna a primeira mulher a governar efetivamente um estado brasileiro. Em 2026, Mailza Assis volta a colocar uma mulher no comando acreano após a renúncia de Gladson Cameli. 

A diferença entre os números 14 e 19 está justamente nessas sucessões. A Câmara dos Deputados registra que apenas sete estados elegem diretamente mulheres para governadora até 2022: Maranhão, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Pará, Rio Grande do Sul, Roraima e Pernambuco. Como são 26 estados, outros 19 nunca fizeram essa escolha diretamente nas urnas. 

Lista goiana registra até governo de 12 horas

A relação da Casa Civil de Goiás permite ampliar a apuração para além dos governadores eleitos. O documento, atualizado em julho de 2026, registra interventores federais, governadores interinos, vice-governadores que exercem o Executivo, presidentes provisórios e integrantes de juntas governativas desde 1889. Nenhum dos nomes relacionados é de mulher. 

O nível de detalhamento chega a um mandato de apenas 12 horas. José de Souza Porto aparece na relação oficial como responsável pelo “exercício interino da Governadoria” durante esse período. Mesmo entre substituições tão curtas registradas pela Casa Civil, o levantamento do Mais Goiás não encontra uma mulher. 

Outros casos mostram como vices e autoridades assumem o governo durante ausências ou mudanças de comando. Jonas Ferreira Alves Duarte aparece em diferentes períodos no exercício do Executivo na década de 1950; Almir Turisco de Araújo consta como governador interino entre abril e maio de 1963; e José Luiz Bittencourt governa entre 5 e 15 de janeiro de 1979. 

A formulação mais precisa, portanto, é documental: a relação oficial da Casa Civil não registra mulher no exercício do Governo de Goiás desde 1889, inclusive entre os períodos interinos que constam na série histórica. A constatação evita afirmar além do que os registros oficiais permitem demonstrar.

Estado também não registra vice-governadora

A Vice-Governadoria repete o cenário. A galeria oficial do Governo de Goiás apresenta os ocupantes do cargo a partir de 1947 e não registra nenhuma mulher. A série começa com Hosanah de Campos Guimarães e segue com nomes como Jonas Ferreira Alves Duarte, Bernardo Sayão, João d’Abreu, Osires Teixeira, Ursulino Leão, José Luiz Bittencourt, Onofre Quinan, Maguito Vilela, Alcides Rodrigues, José Eliton e Lincoln Tejota.

Os registros da Casa Civil ampliam esse recorte para períodos anteriores, quando aparecem cargos como vice-presidente e vice-governador. Também nesse conjunto documental não consta mulher. 

Daniel Vilela ocupa a Vice-Governadoria entre 2023 e março de 2026. Ele assume definitivamente o governo em 1º de abril, após a saída de Ronaldo Caiado. Atualmente, o cadastro oficial do governo informa vacância no cargo de vice-governador. 

Assim, os registros pesquisados pelo Mais Goiás sustentam três constatações distintas: nenhuma mulher é eleita governadora de Goiás; não há mulher na série histórica consultada de vice-governadores; e a lista oficial de pessoas que exercem o governo durante a República não apresenta nome feminino.

Mulheres são 53% do eleitorado

Mulher Votando em Cabina Eleitoral
Mulher utiliza urna eletrônica em seção eleitoral; em Goiás, elas representam 53% do eleitorado em 2026 ( Foto: Pexels)

A composição do eleitorado oferece um comparativo para o levantamento. Goiás tem 5.080.755 pessoas aptas a votar nas Eleições 2026, segundo dado atualizado divulgado pelo TRE-GO em setembro. As mulheres representam 53% dos eleitores do estado.

Na disputa pelo governo, uma das seis candidaturas é feminina. Luciana Amorim (UP) concorre com Daniel Vilela (MDB), Danilo da Silva (PCO), Luís Cesar Bueno (PT), Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL). 

A maioria feminina no eleitorado e a proporção de candidaturas servem para dimensionar a representação política, mas não demonstram a causa de Goiás nunca ter tido uma governadora. O levantamento documental não permite atribuir esse resultado histórico a um fator isolado, como comportamento do eleitor, partidos, financiamento eleitoral ou oferta de candidaturas. Para estabelecer essas relações, seriam necessários dados específicos sobre cada variável e sobre diferentes eleições.

O que os registros permitem afirmar é mais objetivo: mulheres são maioria entre os eleitores goianos em 2026, mas permanecem ausentes da relação histórica de governantes do estado. A eleição deste ano ocorre em 4 de outubro e tem uma mulher entre os seis candidatos ao Palácio das Esmeraldas.

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