POLÍTICA MUNICIPAL

Mabel veta apoio da prefeitura aos Legendários em Goiânia

O prefeito manteve a criação da data comemorativa, mas retirou da lei a autorização para que o município promovesse, divulgasse ou participasse de ações ligadas ao movimento.

ChatGPT Image 9 de jul. de 2026, 14_58_24
Participantes do movimento Legendários durante atividade de imersão ao ar livre. Foto: Banco de imagens/Canva (uso ilustrativo).

Os Legendários em Goiânia voltaram ao centro do debate político após o prefeito Sandro Mabel (União Brasil) sancionar parcialmente a lei que cria o Dia Municipal dos Legendários e vetar justamente o dispositivo que autorizava a prefeitura de Goiânia a promover, apoiar e divulgar atividades relacionadas ao movimento. A decisão reacendeu uma discussão que começou ainda durante a tramitação da proposta na Câmara Municipal e envolve temas como liberdade religiosa, laicidade do Estado, interesse público e os limites da atuação do poder público diante de organizações privadas de inspiração cristã.

A lei, de autoria do vereador Thialu Guiotti (Avante), mantém o Dia dos Legendários no calendário oficial do município, a ser celebrado anualmente em 7 de dezembro. O veto atingiu apenas o artigo que autorizava a administração municipal a participar institucionalmente das atividades relacionadas à data. Ao contrário do que pode parecer em um primeiro momento, o veto não trata exclusivamente de dinheiro público.

O texto barrado era mais amplo. Ele permitia que a prefeitura promovesse, apoiasse e divulgasse atividades ligadas aos Legendários. Na prática, isso poderia envolver cessão de espaços públicos, apoio logístico, divulgação nos canais oficiais do município, participação de secretarias municipais em eventos, realização de campanhas em parceria e outras formas de apoio institucional. O prefeito entendeu que esse tipo de autorização extrapolava os limites da atuação do poder público.

Na mensagem enviada à Câmara Municipal, Sandro Mabel argumenta que a Constituição garante a liberdade religiosa, mas estabelece que o Estado brasileiro é laico. Isso significa que o poder público não possui religião oficial e deve manter neutralidade em relação às diferentes crenças, sem favorecer ou promover institucionalmente uma organização religiosa específica.

A justificativa do veto destaca que, embora os Legendários estejam registrados com atividade econômica ligada ao treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial, a própria organização se apresenta como um “movimento cristocêntrico interdenominacional que serve à Igreja”. Para o Executivo, essa característica aproxima o movimento de uma atuação confessional e impede que a Prefeitura utilize sua estrutura para promovê-lo sem que haja fundamento jurídico de interesse público claramente demonstrado.

O prefeito também observa que a Constituição admite colaboração entre o Estado e organizações religiosas apenas em situações específicas de interesse público, circunstância que, segundo o parecer utilizado pela Prefeitura, não ficou demonstrada no caso dos Legendários.

Outro fundamento do veto diz respeito à competência administrativa. Segundo o Executivo, cabe exclusivamente ao prefeito definir como a administração municipal executará programas, campanhas e políticas públicas. Uma lei de iniciativa parlamentar, portanto, não poderia impor obrigações aos órgãos municipais nem determinar que a Prefeitura desenvolvesse ações em favor de um grupo específico.

Com isso, Sandro Mabel manteve apenas a criação da data comemorativa. Os Legendários continuam livres para realizar retiros, encontros e demais atividades em Goiânia, mas a Prefeitura deixa de possuir autorização legal para promover, apoiar ou divulgar institucionalmente essas iniciativas.

LEIA TAMBÉM:

Cesta básica fica mais cara em Goiânia e outras 16 capitais em junho; veja ranking

Debate sobre Legendários em Goiânia começou durante a tramitação na Câmara

Muito antes da decisão do prefeito, o projeto já havia provocado intenso debate entre os vereadores de Goiânia. Autor da proposta, Thialu Guiotti defendeu que o reconhecimento oficial valorizaria um movimento que, segundo ele, promove transformação pessoal, fortalecimento familiar e desenvolvimento de lideranças masculinas. Para o vereador, os Legendários ultrapassam o aspecto religioso ao incentivar homens a assumirem maior responsabilidade dentro da família, da comunidade e da sociedade.

Durante a discussão nas comissões e em plenário, Thialu afirmou que milhares de homens relatam mudanças em suas vidas após participarem dos retiros promovidos pelo movimento. Na avaliação dele, reconhecer oficialmente a data não significaria privilegiar uma religião, mas valorizar uma iniciativa que desenvolve ações sociais e estimula princípios como disciplina, responsabilidade e convivência familiar.

Do outro lado, a vereadora Aava Santiago tornou-se uma das principais vozes contrárias ao projeto. A parlamentar sustentou que o Estado brasileiro deve preservar sua neutralidade religiosa e que o poder público precisa agir com cautela ao reconhecer institucionalmente organizações de caráter confessional. Para ela, existe diferença entre respeitar a liberdade religiosa — direito assegurado pela Constituição — e utilizar a estrutura administrativa para promover iniciativas vinculadas a um movimento de inspiração cristã.

Durante os debates, Aava também levantou preocupação com os precedentes que poderiam ser criados. Segundo a vereadora, caso a Prefeitura passasse a apoiar oficialmente um movimento dessa natureza, outras organizações religiosas poderiam reivindicar tratamento semelhante, colocando o município diante de uma situação de difícil equilíbrio entre as diferentes manifestações de fé existentes na sociedade.

A discussão ganhou contornos ainda mais amplos porque envolvia não apenas questões religiosas, mas também princípios constitucionais da administração pública, como impessoalidade, legalidade e interesse coletivo.

O parecer elaborado pela Procuradoria-Geral da Câmara acabou reforçando parte desses questionamentos e serviu posteriormente como um dos fundamentos utilizados pelo Executivo para justificar o veto parcial. Na avaliação do órgão jurídico, além da natureza religiosa do movimento, também deveria ser considerada a forma como suas atividades são organizadas e financiadas.

Quem são os Legendários e por que o movimento cresceu tanto no Brasil

Entender a decisão da Prefeitura de Goiânia passa, necessariamente, por compreender o que é o movimento Legendários, como ele surgiu e por que se tornou um dos grupos cristãos masculinos que mais cresceram na América Latina na última década.

Os Legendários nasceram em 2015, na Guatemala, idealizados pelo pastor guatemalteco José “Chepe” Putzu. A proposta surgiu após anos de trabalho com ministérios voltados para homens dentro de igrejas evangélicas. O objetivo declarado era criar um movimento capaz de levar homens a uma transformação espiritual, emocional e familiar por meio de desafios físicos, experiências de superação e fortalecimento da fé cristã.

Na própria definição oficial, os Legendários se apresentam como um “movimento cristocêntrico interdenominacional”. Na prática, isso significa que não pertencem a uma única igreja ou denominação específica, mas reúnem participantes de diferentes segmentos do cristianismo, especialmente do meio evangélico.

Embora católicos também participem dos retiros em algumas regiões, a expansão do movimento ocorreu principalmente por meio de igrejas evangélicas, que passaram a organizar grupos locais, incentivar inscrições e divulgar os eventos entre seus fiéis.

Nos últimos anos, o crescimento foi acelerado.

Segundo dados divulgados pela própria organização, o movimento está presente em dezenas de países e afirma ter alcançado centenas de milhares de homens por meio de seus retiros, encontros e ações de discipulado. No Brasil, a expansão ganhou força especialmente após a pandemia de Covid-19, acompanhando um movimento maior de fortalecimento de grupos voltados ao desenvolvimento masculino, espiritualidade e liderança.

Em Goiás, os Legendários também ampliaram significativamente sua atuação.

Os retiros costumam reunir participantes de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis, Rio Verde e diversas cidades do interior. Nas redes sociais, imagens de homens atravessando trilhas, enfrentando desafios físicos, carregando troncos, escalando montanhas e participando de momentos de oração passaram a viralizar, despertando curiosidade de quem nunca havia ouvido falar da organização.

Como funcionam os retiros

O principal evento promovido pelos Legendários é conhecido como TOP — sigla para Track Outdoor de Potencial.

O retiro normalmente ocorre durante quatro dias em áreas de natureza, onde os participantes enfrentam caminhadas longas, desafios físicos, provas de resistência e momentos de reflexão espiritual.

A programação também inclui palestras, estudos bíblicos, atividades em grupo e experiências que buscam estimular responsabilidade, disciplina, liderança, autocontrole e fortalecimento dos vínculos familiares.

Uma das características mais conhecidas do movimento é a orientação para que os participantes não revelem detalhes das atividades realizadas durante o retiro. Segundo os organizadores, essa reserva existe para preservar a experiência daqueles que participarão futuramente.

Esse aspecto, entretanto, também alimenta críticas.

Especialistas e observadores apontam que o sigilo sobre parte da metodologia desperta questionamentos de familiares e de pessoas que buscam compreender melhor a dinâmica interna dos encontros.

Ainda assim, os organizadores afirmam que não existe qualquer prática secreta ou incompatível com a fé cristã, sustentando que a proposta é apenas preservar o impacto emocional da experiência.

Os custos dos retiros dos Legendários em Goiânia também entraram no debate

Outro ponto citado tanto pela Procuradoria-Geral da Câmara quanto pela justificativa do prefeito diz respeito ao modelo de funcionamento financeiro do movimento. Diferentemente de ações desenvolvidas exclusivamente por igrejas ou entidades filantrópicas, os retiros dos Legendários possuem cobrança de inscrição.

Os valores variam conforme a edição, a estrutura oferecida, o estado onde ocorre o evento e o tipo de acomodação disponibilizada aos participantes. Na justificativa do veto, o Executivo observa que a cobrança por eventos pagos reforça a necessidade de cautela na utilização da estrutura pública para apoiar institucionalmente o movimento.

O parecer jurídico da Procuradoria da Câmara também chama atenção para esse aspecto ao afirmar que os Legendários possuem organização privada e realizam atividades mediante pagamento, circunstância que afasta, por si só, a presunção de atuação exclusivamente filantrópica.

O documento menciona ainda informações segundo as quais determinados eventos poderiam alcançar valores elevados de inscrição. A referência aparece como parte da fundamentação jurídica utilizada na análise do projeto, sem representar conclusão definitiva sobre o funcionamento financeiro da organização.

Para o Executivo, o ponto central não é a existência da cobrança em si, mas o fato de que o município passaria a utilizar sua estrutura institucional em benefício de uma organização privada que realiza atividades remuneradas. Essa interpretação foi um dos fatores que pesaram na decisão de vetar o artigo que autorizava apoio oficial da Prefeitura. Além do crescimento numérico, os Legendários passaram a ganhar notoriedade pela presença de empresários, atletas, influenciadores digitais, profissionais liberais e lideranças políticas entre seus participantes.