Estratégia

Redução da maioridade penal vira aposta bolsonarista para conter desgaste de Flávio

Oposição aposta em pauta com forte apelo popular para tentar frear crise causada por vazamento de áudio de Flávio com Vorcaro

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A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da maioridade penal voltou ao centro do debate no Congresso Nacional, impulsionada por parlamentares ligados ao presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). A menos de cinco meses da eleição de 2026, a avaliação nos bastidores é de que a defesa da medida pode ajudar a recuperar a popularidade do senador em meio à crise provocada pelo vazamento de áudios que revelaram proximidade entre o pré-candidato e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Na visão de governistas, a movimentação tem como pano de fundo a tentativa de desviar o foco da negociação de R$ 134 milhões com Vorcaro. O dinheiro, conforme revelado com exclusividade pela reportagem do The Intercept Brasil, seria direcionado para o financiamento do filme ‘Dark Horse’, longa focado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Parte do valor, um montante de aproximadamente R$ 61 milhões, já teria sido enviado aos Estados Unidos.

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De volta ao Congresso, o texto em tramitação prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. A partir dessa idade, o jovem passaria a ser considerado adulto para fins criminais, podendo responder judicialmente por seus atos e, inclusive, ser preso. O documento também estabelece o voto obrigatório aos 16 anos, que hoje é facultativo antes dos 18.

A pauta apresenta forte apelo popular. Pesquisa divulgada em março pela Real Time Big Data aponta que 90% da população brasileira é favorável à medida. Do total entrevistado, 8% manifestaram posição contrária e 2% não souberam responder.

Relatório assinado por deputado do PL começou a ser lido em encontro da CCJ na última terça (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Nos bastidores, o comentário é que a oposição tem visto no assunto uma oportunidade de reverter o prejuízo registrado após o vazamento das conversas entre Flávio e Vorcaro. Ao Mais Goiás, o professor e cientista político Guilherme Carvalho avaliou que a estratégia “até faz sentido”, mas pode não ser suficiente para estancar a crise.

“Pode funcionar momentaneamente. A imprensa vem mostrando que existe a possibilidade de novos vazamentos, de mais conversas. Se isso acontecer, a coisa vai continuar se alastrando. Então vejo que o principal inimigo do Flávio neste momento é o fator tempo. O cronograma do Congresso daqui a pouco acaba e não será possível fazer mais nada do ponto de vista Legislativo, especialmente se surgir um desdobramento desse escândalo depois”, observou.

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Para ele, a tentativa de pautar a proposta agora tem objetivo claro. “A pauta tem um interesse significativo por parte da população brasileira. E é um assunto que os governistas votam contra, então isso deixaria o governo acuado. Mas, como disse, pode funcionar a curto prazo. Agora, não restam dúvidas de que pautar isso neste momento passa pela tentativa de eclipsar o assunto da vez, trocar a manchete dos jornais”.

Impacto em números

A crise na direita foi refletida em levantamento da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, divulgado na última terça-feira (19/5). Em eventual segundo turno, o presidente Lula aparece com 48,9% das intenções de voto, enquanto Flávio soma 41,8%. Pesquisas anteriores demonstraram um cenário mais estreito entre as lideranças. A ampliação da diferença já era considerada pela oposição após a divulgação da reportagem do The Intercept Brasil há uma semana. O registro da pesquisa é TSE:BR-06939/2026.