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Regra milenar faz com que Páscoa mude de data todo ano; entenda

Definição da Igreja envolve lua cheia, equinócio e decisão histórica da Igreja para separar celebração do calendário judaico

Imagem mostra representação da crucificação de Jesus
Para os cristãos, a data celebra a ressurreição de Cristo. Já para os judeus, o período coincide com o Pesach (Foto: Marcelo Casal Jr. Abr)

(AGÊNCIA O GLOBO) A Páscoa não tem data fixa e pode cair em qualquer domingo entre 22 de março e 25 de abril. A explicação está em uma regra antiga, definida após séculos de debate dentro do cristianismo.

Para os cristãos, a data celebra a ressurreição de Jesus. Já para os judeus, o período coincide com o Pesach, que relembra a libertação do povo hebreu do Egito. Apesar da relação histórica entre as duas tradições, elas não acontecem necessariamente no mesmo dia. Mas isso nem sempre foi assim.

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Nos primeiros séculos, muitos cristãos celebravam a Páscoa junto com o calendário judaico, no dia 14 de Nisan. Com o tempo, parte da Igreja passou a defender uma data própria, sempre em um domingo, para marcar a ressurreição de Cristo como um evento distinto.

A regra que define a data até hoje

A solução adotada foi combinar dois elementos: o Sol e a Lua. Ficou estabelecido que a Páscoa seria celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera no Hemisfério Norte, tendo como referência o equinócio.

A decisão foi oficializada no Concílio de Niceia, em 325 d.C., convocado pelo imperador Constantino. A partir dali, a Igreja buscou unificar a celebração e desvinculá-la do calendário judaico.

O dia definido também influencia outras celebrações. A Terça-feira de carnaval, por exemplo, ocorre exatamente 47 dias antes do Domingo de Páscoa.

Cálculo não é tão simples

Na prática, porém, determinar essa data não é tão direto quanto parece. Isso porque o cálculo depende do ciclo lunar — e, na Antiguidade, a precisão astronômica era limitada.

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Para resolver o problema, a Igreja criou o conceito de “lua eclesiástica”, uma forma padronizada de simular as fases da Lua no calendário. Assim, caso a lua cheia ocorra durante o equinócio (20 ou 21 de março), os cálculos eclesiásticos tendem a usar a próxima lua cheia para determinar a data da Páscoa.

Ou seja, nem sempre a data corresponde exatamente à lua cheia real, mas sim a uma convenção que permite manter a regra funcionando ano após ano.

Calendários diferentes explicam datas distintas

Outro fator que influencia a data é o tipo de calendário usado. Até o século 16, a Europa seguia o calendário juliano, que tinha um pequeno erro acumulado ao longo dos séculos.

O calendário juliano, no entanto, superestimava o ano solar em três dias, por quatro séculos, o que acabou deslocando datas importantes, como a própria Páscoa.

A correção veio em 1582, com o calendário gregoriano. A mudança foi tão brusca que “quem dormiu em 4 de outubro de 1582 acordou em 15 de outubro”, segundo reportagem da rede BBC.

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Nem todas as igrejas adotaram essa atualização. Por isso, até hoje, católicos e protestantes seguem um calendário, enquanto igrejas ortodoxas utilizam outro — o que faz com que a Páscoa seja celebrada em datas diferentes ao redor do mundo.