Metade das vendas do atacado da região da 44 já acontecem na internet; lojas disputam cliente com Shein e Shopee
WhatsApp e redes sociais já concentram parte das vendas da Região da 44, enquanto lojistas e fabricantes goianos ampliam presença digital para disputar consumidores com plataformas internacionais.
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Metade das vendas do atacado da Região da 44 já começa ou termina no celular. A estimativa da Associação Empresarial da Região da 44 (AER-44) revela uma transformação que muda o debate sobre a concorrência com Shein, Shopee e AliExpress: o comerciante goiano não disputa mais o consumidor internacional apenas no balcão, porque também vende pelo WhatsApp, redes sociais e outros canais digitais.
O polo movimenta cerca de R$ 15 bilhões por ano e reúne aproximadamente 13 mil pontos de venda e 2,6 mil feirantes, segundo estimativas da entidade. Seis representantes do comércio e da indústria ouvidos pelo Mais Goiás mostram que a nova fronteira dessa disputa está na tela do celular — e que digitalizar a venda não elimina as diferenças de escala, tributação e custos entre uma empresa instalada no Brasil e uma plataforma global.
A dimensão econômica ultrapassa as lojas. Dados divulgados pelo Governo de Goiás apontam comercialização de aproximadamente 280 milhões de peças produzidas em 30 municípios goianos e 50 mil empregos diretos ligados ao polo, além de 160 mil indiretos. O fluxo supera 260 mil visitantes por semana e abastece compradores de todas as regiões brasileiras.
WhatsApp virou balcão de atacado
No atacado da 44, cerca de 50% das vendas são originadas ou concluídas por relacionamento digital direto, principalmente aplicativos de mensagens, segundo a AER-44. Outros 5% passam por marketplaces e aproximadamente 45% permanecem presenciais, sobretudo nas compras realizadas por caravanas e clientes que viajam até Goiânia. No varejo, a dinâmica muda: mais de 80% das vendas ainda ocorrem presencialmente.

Para Sérgio Naves, presidente da AER-44, WhatsApp e outros canais de relacionamento se transformaram em “verdadeiros balcões digitais”. A associação trabalha, inclusive, na construção de um marketplace próprio para o polo, ainda em fase embrionária. O projeto pretende integrar marcas, compradores, logística, pagamentos e relacionamento comercial em uma mesma estrutura.
A digitalização, entretanto, não impediu a pressão sobre preços. Levantamentos internos da AER-44 realizados em maio, junho e julho indicam que empresários reduziram entre 3% e 10% os valores finais em diferentes segmentos para preservar competitividade, segundo a entidade. Naves afirma que o primeiro efeito pode aparecer menos no faturamento e mais na margem de lucro.
Venda digital avança, mas produção goiana mantém peso no polo

A digitalização também avança dentro dos centros comerciais da Região da 44. No Shopping Gallo, que reúne 300 lojas e recebe aproximadamente 290 mil pessoas por mês, 60% das vendas ainda ocorrem nas lojas físicas e 40% pelos canais digitais, segundo o superintendente Chrystiano Câmara. Em algumas operações, a divisão já chega a 50% para cada modalidade. O dado mostra que a concorrência com as plataformas internacionais ocorre cada vez mais no mesmo ambiente em que os comerciantes goianos passaram a buscar seus clientes.
A transformação do canal de venda, porém, não retirou o peso da produção local. Câmara estima que cerca de 80% das operações do Gallo comercializem produtos fabricados em Goiás. “A roupa tem uma experiência com o comprador. Ele toca no tecido, vê o nível da costura, prova a peça”, afirma. Segundo ele, os lojistas têm investido em qualidade e preço para disputar mercado com os importados.
O mesmo movimento aparece no Mega Moda, que informa reunir mais de 1.200 lojistas e cerca de mil fabricantes, além de receber aproximadamente 10 milhões de clientes por ano. O complexo ainda não possui um percentual consolidado das vendas realizadas fora das lojas, mas registra crescimento do WhatsApp e das redes sociais como canais de relacionamento e comercialização.

Paula Sepúlveda, gerente de Marketing do Mega Moda, cita ainda o Telemoda, serviço que conecta compradores diretamente aos lojistas dos três empreendimentos do grupo. Na avaliação dela, moda feminina, acessórios, fitness, peças básicas e fast fashion estão entre os segmentos mais expostos às plataformas internacionais, principalmente pela facilidade de comparação de preços, tendências e variedade.
“O consumidor deve ter acesso a preços competitivos e variedade, mas é fundamental que exista isonomia nas regras”, afirma Sepúlveda. Para ela, o caminho da produção goiana passa por combinar preço com qualidade, inovação e capacidade de entrega, enquanto os lojistas ampliam a presença nos mesmos canais digitais utilizados pelos concorrentes internacionais.
Atrás da tela há uma indústria

A mercadoria vendida pela internet na Região da 44 também sustenta uma cadeia industrial. Edilson Borges, presidente da Câmara Setorial da Moda da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Casmoda/Fieg), representa o elo entre o comércio e as confecções. A própria Casmoda reúne associações, sindicatos, universidades e outras instituições relacionadas ao segmento, segundo a Agência Sebrae de Notícias.
Para Borges, a discussão sobre competitividade precisa alcançar toda a cadeia que antecede a venda. A indústria goiana tenta reduzir custos, aumentar produtividade e acompanhar tendências enquanto disputa mercado com produtos fabricados em escala global. O setor tem buscado tecnologia, qualificação e integração entre indústria e comércio como resposta à mudança do consumo.
Disputa ultrapassa a moda

A presidente do Sindilojas-GO, Marisa Carneiro, amplia a discussão para outros segmentos. Segundo ela, associados relatam perda de vendas e a concorrência das plataformas internacionais já alcança roupas, acessórios, calçados, eletroeletrônicos, ferramentas, utilidades domésticas, brinquedos e artigos de armarinho.
O Sindilojas ainda não dispõe de levantamento que compare, produto a produto, os custos de uma mercadoria vendida por uma empresa goiana e os de outra adquirida diretamente do exterior. Marisa considera, neste momento, mais provável que empresas adiem a criação de vagas do que promovam uma redução imediata generalizada dos quadros. “Existe o risco de fechamento de postos de trabalho, mas o mais provável neste momento é o adiamento da abertura de possíveis novas vagas de emprego”, afirma.
A entidade defende que o debate não seja limitado ao imposto de importação. Segundo Marisa, aluguel, energia, água, IPTU, folha de pagamento e tributos sobre as operações compõem a estrutura de custos das empresas instaladas no Estado.
Custo da loja também chega ao preço

O presidente da Fecomércio-GO, Marcelo Baiocchi Carneiro, segue a mesma linha. Para ele, comparar apenas a tributação de uma encomenda internacional com a de uma mercadoria brasileira não revela todo o custo necessário para manter uma empresa funcionando.
“Não é simplesmente um imposto de 20%, é todo o valor agregado no custo de um comércio estabelecido para poder operar”, afirma. Baiocchi cita aluguel, funcionários, encargos da folha, água, energia, IPTU e licenças entre as despesas incorporadas à atividade.
A posição das entidades empresariais, porém, exige uma ressalva: Mega Moda, Sindilojas e Fecomércio informaram não possuir, até o momento, levantamento capaz de isolar quanto das vendas ou do faturamento do comércio goiano foi perdido especificamente em razão da retirada do imposto. A AER-44 apresentou estimativas próprias sobre redução de preços e margens, enquanto os demais entrevistados relataram percepções e efeitos observados no setor.