Hospital que fez 1º transplante de coração em Goiás vai a leilão; veja o valor mínimo
O Hospital Santa Genoveva recebeu o primeiro transplante de coração realizado em Goiás e chegou a manter 150 leitos. Fechado após uma crise financeira, o complexo entra novamente em leilão judicial
Ir direto pra matéria
O hospital que recebeu o primeiro transplante de coração realizado em Goiás entra em leilão judicial nesta quinta-feira (1º), em Goiânia. Avaliado em R$ 28,27 milhões, o antigo Santa Genoveva ocupa um terreno de 53,3 mil metros quadrados na Avenida Concórdia, na região Norte da capital.
O transplante ocorreu em 1992 e colocou a unidade na história da medicina goiana. Antes disso, o hospital já havia realizado a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea do estado e implantado um dos primeiros serviços de hemodinâmica de Goiás.
A estrutura, que começou com apenas cinco médicos e 20 apartamentos, chegou a reunir mais de 200 médicos, cerca de 300 funcionários e 150 leitos. Depois de enfrentar uma crise financeira, o Santa Genoveva deixa de atender pacientes entre 2016 e 2017. A falência é decretada em 2019.
A primeira chamada do novo leilão começa às 15h30 desta quinta-feira e termina no dia 5 de outubro. Se não houver comprador, o preço mínimo cai para R$ 14,135 milhões na segunda etapa. A terceira aceita o maior lance apresentado.
Hospital começa longe do Centro de Goiânia

A história do Santa Genoveva começa em 1964. O médico Francisco Ludovico de Almeida Neto queria construir um hospital ligado ao ensino e à pesquisa, com capacidade para receber pacientes de diferentes condições financeiras.
O projeto inicial previa um hospital de clínicas mantido por uma fundação. Francisco procurou apoio do governo federal, mas não conseguiu os recursos necessários. A solução foi reduzir a proposta e criar a Clínica Santa Genoveva.
O nome veio do bairro escolhido para receber o empreendimento. Francisco comprou do médico e pecuarista Altamiro de Moura Pacheco uma área de 123 mil metros quadrados no Setor Santa Genoveva.
Na época, a região ficava distante da parte mais movimentada de Goiânia. O asfalto terminava nas proximidades do Hospital Adauto Botelho e não chegava ao terreno.
Francisco defendia que um hospital afastado do Centro teria espaço para crescer, estacionamento, menos barulho e acesso mais fácil para ambulâncias. Por isso, a estrutura foi projetada em módulos que poderiam receber novas alas conforme o aumento da procura.
Por que o nome é Santa Genoveva?

O hospital recebe o nome do bairro onde foi construído. Já a origem do nome do Setor Santa Genoveva está ligada à família de Altamiro de Moura Pacheco.
Altamiro ajudou a destinar terras para a formação do loteamento e para a construção do aeroporto de Goiânia. O nome Santa Genoveva homenageia a mãe dele, Maria Genoveva de Moura Pacheco.
A mesma história explica por que o bairro, o antigo hospital e o aeroporto da capital carregam o nome Santa Genoveva. Francisco também vende um armazém, contrai empréstimos e recebe ajuda do pai, o ex-governador José Ludovico de Almeida, conhecido como Juca Ludovico. Duas fazendas da família são negociadas para pagar dívidas e comprar equipamentos.
Os atendimentos hospitalares começam em março de 1970. Naquele momento, o Santa Genoveva possui 20 apartamentos e cinco médicos nas áreas de clínica geral, cirurgia, cardiologia, ginecologia e obstetrícia.
Santa Genoveva entra para a história da cardiologia

Em 1970, o hospital realiza a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea de Goiás. Nesse tipo de procedimento, uma máquina assume temporariamente parte das funções do coração e dos pulmões.
Quatro anos depois, o Santa Genoveva implanta o serviço de hemodinâmica. A área permite examinar o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos, além de realizar procedimentos como o cateterismo.
O hospital também instala um equipamento de cineangiocoronariografia apresentado, na época, como o primeiro modelo moderno em funcionamento na América Latina. O aparelho permitia registrar imagens das artérias do coração.
O principal marco ocorre em 1992. A equipe comandada pelo médico Aleksander Dobrianskyj realiza no Santa Genoveva o primeiro transplante de coração registrado em Goiás.
O procedimento mostra o tamanho alcançado por uma unidade que começou com apenas cinco médicos, em uma região onde o asfalto ainda não havia chegado.
Hospital chegou a manter 150 leitos
Durante o período de maior funcionamento, o Santa Genoveva oferece atendimento em cardiologia, cirurgia geral, neurologia, ortopedia e transplantes.
A estrutura reúne 150 leitos, unidades de terapia intensiva, centro cirúrgico, pronto-socorro, banco de sangue, radiologia, fisioterapia, laboratórios e consultórios.
Mais de 200 médicos e cerca de 300 funcionários trabalham no complexo. O hospital mantém atendimento durante 24 horas.
Os números preservados no processo de venda apontam aproximadamente 19 mil atendimentos anuais no pronto-socorro, 52 mil consultas ambulatoriais, 6,1 mil internações, 2,1 mil cirurgias e 4,5 mil exames.
Leia mais:
Como o Santa Genoveva entrou em crise

Os sinais da crise aparecem antes do fechamento. Em 2015, o hospital reduz quase pela metade a média mensal de internações. O número passa de cerca de 350 para aproximadamente 175 pacientes internados por mês.
Naquele período, a direção atribui parte das dificuldades à diferença entre os custos dos procedimentos e os valores pagos pelo Sistema Único de Saúde e pelos planos de saúde.
A manutenção da estrutura também pesava no orçamento. Um hospital com funcionamento durante 24 horas precisa manter equipes, energia, medicamentos, equipamentos, centro cirúrgico, pronto-socorro e UTI disponíveis mesmo quando o número de pacientes diminui.
O grupo responsável pelo Santa Genoveva entra em recuperação judicial em dezembro de 2016. Segundo a administração judicial, a empresa não consegue recompor o capital de giro nem retomar o faturamento necessário para pagar as despesas.
Os registros consultados apresentam datas diferentes para o fim dos atendimentos. Documentos do processo situam a paralisação a partir de 2016, enquanto outras fontes apontam o encerramento definitivo em 2017.
Em 2019, o grupo pede a própria falência. A Justiça aceita o pedido porque não identifica condições financeiras para a retomada das atividades. A dívida supera R$ 40 milhões.
Leia mais:
Prédio quase volta a receber pacientes na pandemia

Em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19, a Justiça disponibiliza o prédio ao Governo de Goiás. A ideia era avaliar se a estrutura poderia receber pacientes infectados pelo coronavírus.
O hospital não volta a funcionar. A Secretaria de Estado da Saúde informa que o complexo precisaria passar por reformas e adequações.
O tempo necessário para concluir os serviços não atendia à urgência da pandemia. Os corredores, quartos, salas cirúrgicas e antigas UTIs continuam fechados.
O que existe dentro do antigo hospital
O imóvel colocado à venda possui 53.321 metros quadrados de terreno e 11.784 metros quadrados de área construída.
A descrição do leilão aponta mais de 80 espaços entre apartamentos e áreas de internação. O complexo também possui cinco salas de operação, áreas de recuperação pós-operatória, duas salas destinadas a UTIs, radiologia, banco de sangue, consultórios e central de oxigênio.
A estrutura inclui cozinha industrial, lavanderia hospitalar, capela, alojamentos para médicos e profissionais de enfermagem, salas de fisioterapia e piscina.
O tamanho do prédio ajuda a entender os custos necessários para manter a unidade em funcionamento. O comprador receberá o imóvel no estado atual de conservação. O edital não determina que o local volte a funcionar como hospital.
Leia mais:
Moradores denunciam problemas no terreno

Em janeiro de 2026, moradores da região denunciam mato alto, aparecimento de cobras e escorpiões e risco de proliferação do mosquito da dengue no terreno.
A Secretaria Municipal de Saúde informa que realizou três inspeções no imóvel em 2025 e aplicou duas autuações à empresa responsável pela massa falida.
A administradora judicial contesta a afirmação de que o imóvel está abandonado. Segundo a empresa, o terreno possui vigilância e recebe serviços de limpeza e conservação.
Como será o novo leilão
O leilão será realizado pela internet e dividido em três etapas. Na primeira, entre 1º e 5 de outubro, o lance mínimo será de R$ 28,27 milhões.
Se ninguém comprar o imóvel, a segunda chamada começa no dia 5 e termina em 20 de outubro. Nessa fase, o valor mínimo cai para R$ 14,135 milhões, metade da avaliação.
A terceira etapa será realizada entre 20 de outubro e 5 de novembro. O complexo poderá ser vendido pelo maior lance apresentado, sem um preço mínimo previamente fixado.
O edital permite o pagamento à vista ou parcelado. Na segunda modalidade, o comprador precisa apresentar uma entrada mínima de 25% e pagar o restante em até 30 prestações.
O resultado do leilão deve definir o próximo capítulo do endereço que já recebeu milhares de pacientes. A venda, porém, não apaga o lugar ocupado pelo Santa Genoveva na história da medicina em Goiás.