Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026
MEMÓRIA DA SAÚDE

Hospital que fez 1º transplante de coração em Goiás vai a leilão; veja o valor mínimo

O Hospital Santa Genoveva recebeu o primeiro transplante de coração realizado em Goiás e chegou a manter 150 leitos. Fechado após uma crise financeira, o complexo entra novamente em leilão judicial

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Entrada do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia, unidade que marcou a história da medicina goiana com a realização do primeiro transplante de coração do estado (Foto: Divulgação/Hospital Santa Genoveva)

O hospital que recebeu o primeiro transplante de coração realizado em Goiás entra em leilão judicial nesta quinta-feira (1º), em Goiânia. Avaliado em R$ 28,27 milhões, o antigo Santa Genoveva ocupa um terreno de 53,3 mil metros quadrados na Avenida Concórdia, na região Norte da capital.

O transplante ocorreu em 1992 e colocou a unidade na história da medicina goiana. Antes disso, o hospital já havia realizado a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea do estado e implantado um dos primeiros serviços de hemodinâmica de Goiás.

A estrutura, que começou com apenas cinco médicos e 20 apartamentos, chegou a reunir mais de 200 médicos, cerca de 300 funcionários e 150 leitos. Depois de enfrentar uma crise financeira, o Santa Genoveva deixa de atender pacientes entre 2016 e 2017. A falência é decretada em 2019.

A primeira chamada do novo leilão começa às 15h30 desta quinta-feira e termina no dia 5 de outubro. Se não houver comprador, o preço mínimo cai para R$ 14,135 milhões na segunda etapa. A terceira aceita o maior lance apresentado.

Hospital começa longe do Centro de Goiânia

Francisco Ludovico, médico e fundador do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia (Foto: Reprodução/UFG)
Francisco Ludovico, médico e fundador do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia (Foto: Reprodução/UFG)

A história do Santa Genoveva começa em 1964. O médico Francisco Ludovico de Almeida Neto queria construir um hospital ligado ao ensino e à pesquisa, com capacidade para receber pacientes de diferentes condições financeiras.

O projeto inicial previa um hospital de clínicas mantido por uma fundação. Francisco procurou apoio do governo federal, mas não conseguiu os recursos necessários. A solução foi reduzir a proposta e criar a Clínica Santa Genoveva.

O nome veio do bairro escolhido para receber o empreendimento. Francisco comprou do médico e pecuarista Altamiro de Moura Pacheco uma área de 123 mil metros quadrados no Setor Santa Genoveva.

Na época, a região ficava distante da parte mais movimentada de Goiânia. O asfalto terminava nas proximidades do Hospital Adauto Botelho e não chegava ao terreno.

Francisco defendia que um hospital afastado do Centro teria espaço para crescer, estacionamento, menos barulho e acesso mais fácil para ambulâncias. Por isso, a estrutura foi projetada em módulos que poderiam receber novas alas conforme o aumento da procura.

Por que o nome é Santa Genoveva?

Fachada do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia, unidade que encerrou os atendimentos em 2017 (Foto: Reprodução/Wikipedia)
Fachada do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia, unidade que encerrou os atendimentos em 2017 (Foto: Reprodução/Wikipedia)

O hospital recebe o nome do bairro onde foi construído. Já a origem do nome do Setor Santa Genoveva está ligada à família de Altamiro de Moura Pacheco.

Altamiro ajudou a destinar terras para a formação do loteamento e para a construção do aeroporto de Goiânia. O nome Santa Genoveva homenageia a mãe dele, Maria Genoveva de Moura Pacheco.

A mesma história explica por que o bairro, o antigo hospital e o aeroporto da capital carregam o nome Santa Genoveva. Francisco também vende um armazém, contrai empréstimos e recebe ajuda do pai, o ex-governador José Ludovico de Almeida, conhecido como Juca Ludovico. Duas fazendas da família são negociadas para pagar dívidas e comprar equipamentos.

Os atendimentos hospitalares começam em março de 1970. Naquele momento, o Santa Genoveva possui 20 apartamentos e cinco médicos nas áreas de clínica geral, cirurgia, cardiologia, ginecologia e obstetrícia.

Santa Genoveva entra para a história da cardiologia

Em processo de leilão, Hospital Santa Genoveva contava com mais de 200 médicos 24h por dia
Em processo de leilão, Hospital Santa Genoveva contava com mais de 200 médicos 24h por dia

Em 1970, o hospital realiza a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea de Goiás. Nesse tipo de procedimento, uma máquina assume temporariamente parte das funções do coração e dos pulmões.

Quatro anos depois, o Santa Genoveva implanta o serviço de hemodinâmica. A área permite examinar o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos, além de realizar procedimentos como o cateterismo.

O hospital também instala um equipamento de cineangiocoronariografia apresentado, na época, como o primeiro modelo moderno em funcionamento na América Latina. O aparelho permitia registrar imagens das artérias do coração.

O principal marco ocorre em 1992. A equipe comandada pelo médico Aleksander Dobrianskyj realiza no Santa Genoveva o primeiro transplante de coração registrado em Goiás.

O procedimento mostra o tamanho alcançado por uma unidade que começou com apenas cinco médicos, em uma região onde o asfalto ainda não havia chegado.

Hospital chegou a manter 150 leitos

Durante o período de maior funcionamento, o Santa Genoveva oferece atendimento em cardiologia, cirurgia geral, neurologia, ortopedia e transplantes.

A estrutura reúne 150 leitos, unidades de terapia intensiva, centro cirúrgico, pronto-socorro, banco de sangue, radiologia, fisioterapia, laboratórios e consultórios.

Mais de 200 médicos e cerca de 300 funcionários trabalham no complexo. O hospital mantém atendimento durante 24 horas.

Os números preservados no processo de venda apontam aproximadamente 19 mil atendimentos anuais no pronto-socorro, 52 mil consultas ambulatoriais, 6,1 mil internações, 2,1 mil cirurgias e 4,5 mil exames.

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Como o Santa Genoveva entrou em crise

Entrada do Hospital Santa Genoveva em Preto e Branco
Registro histórico da entrada do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia, unidade que marcou a história da medicina em Goiás e realizou o primeiro transplante de coração do estado, em 1992 (Reprodução YouTube)

Os sinais da crise aparecem antes do fechamento. Em 2015, o hospital reduz quase pela metade a média mensal de internações. O número passa de cerca de 350 para aproximadamente 175 pacientes internados por mês.

Naquele período, a direção atribui parte das dificuldades à diferença entre os custos dos procedimentos e os valores pagos pelo Sistema Único de Saúde e pelos planos de saúde.

A manutenção da estrutura também pesava no orçamento. Um hospital com funcionamento durante 24 horas precisa manter equipes, energia, medicamentos, equipamentos, centro cirúrgico, pronto-socorro e UTI disponíveis mesmo quando o número de pacientes diminui.

O grupo responsável pelo Santa Genoveva entra em recuperação judicial em dezembro de 2016. Segundo a administração judicial, a empresa não consegue recompor o capital de giro nem retomar o faturamento necessário para pagar as despesas.

Os registros consultados apresentam datas diferentes para o fim dos atendimentos. Documentos do processo situam a paralisação a partir de 2016, enquanto outras fontes apontam o encerramento definitivo em 2017.

Em 2019, o grupo pede a própria falência. A Justiça aceita o pedido porque não identifica condições financeiras para a retomada das atividades. A dívida supera R$ 40 milhões.

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Prédio quase volta a receber pacientes na pandemia

Pátio Modernista em Preto e Branco
Área externa do antigo Hospital Santa Genoveva, em Goiânia, com destaque para a arquitetura e os jardins da unidade, que se tornou referência na medicina goiana (Acervo IPH/Coleção IPH)

Em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19, a Justiça disponibiliza o prédio ao Governo de Goiás. A ideia era avaliar se a estrutura poderia receber pacientes infectados pelo coronavírus.

O hospital não volta a funcionar. A Secretaria de Estado da Saúde informa que o complexo precisaria passar por reformas e adequações.

O tempo necessário para concluir os serviços não atendia à urgência da pandemia. Os corredores, quartos, salas cirúrgicas e antigas UTIs continuam fechados.

O que existe dentro do antigo hospital

O imóvel colocado à venda possui 53.321 metros quadrados de terreno e 11.784 metros quadrados de área construída.

A descrição do leilão aponta mais de 80 espaços entre apartamentos e áreas de internação. O complexo também possui cinco salas de operação, áreas de recuperação pós-operatória, duas salas destinadas a UTIs, radiologia, banco de sangue, consultórios e central de oxigênio.

A estrutura inclui cozinha industrial, lavanderia hospitalar, capela, alojamentos para médicos e profissionais de enfermagem, salas de fisioterapia e piscina.

O tamanho do prédio ajuda a entender os custos necessários para manter a unidade em funcionamento. O comprador receberá o imóvel no estado atual de conservação. O edital não determina que o local volte a funcionar como hospital.

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Moradores denunciam problemas no terreno

Sede do Hospital Santa Genoveva vai a leilão
Sede do Hospital Santa Genoveva vai a leilão

Em janeiro de 2026, moradores da região denunciam mato alto, aparecimento de cobras e escorpiões e risco de proliferação do mosquito da dengue no terreno.

A Secretaria Municipal de Saúde informa que realizou três inspeções no imóvel em 2025 e aplicou duas autuações à empresa responsável pela massa falida.

A administradora judicial contesta a afirmação de que o imóvel está abandonado. Segundo a empresa, o terreno possui vigilância e recebe serviços de limpeza e conservação.

Como será o novo leilão

O leilão será realizado pela internet e dividido em três etapas. Na primeira, entre 1º e 5 de outubro, o lance mínimo será de R$ 28,27 milhões.

Se ninguém comprar o imóvel, a segunda chamada começa no dia 5 e termina em 20 de outubro. Nessa fase, o valor mínimo cai para R$ 14,135 milhões, metade da avaliação.

A terceira etapa será realizada entre 20 de outubro e 5 de novembro. O complexo poderá ser vendido pelo maior lance apresentado, sem um preço mínimo previamente fixado.

O edital permite o pagamento à vista ou parcelado. Na segunda modalidade, o comprador precisa apresentar uma entrada mínima de 25% e pagar o restante em até 30 prestações.

O resultado do leilão deve definir o próximo capítulo do endereço que já recebeu milhares de pacientes. A venda, porém, não apaga o lugar ocupado pelo Santa Genoveva na história da medicina em Goiás.

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