Por que o resultado das eleições americanas interessa à economia de Goiás? Entenda
EUA são 2º maior comprador de produtos de Goiás; resultado das eleições de meio de mandato pode influenciar debate sobre tarifas e comércio exterior
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As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), podem ter consequências para empresas e trabalhadores de Goiás. O estado vende carne bovina, produtos siderúrgicos e outros bens ao mercado americano, que foi o segundo principal destino das exportações goianas em 2025. O resultado das urnas definirá a composição do Congresso responsável por votar leis e fiscalizar as medidas comerciais do governo Donald Trump.
Os americanos escolherão os 435 integrantes da Câmara dos Representantes e 35 senadores. Também haverá eleições para governador em 36 estados. O pleito ocorre na metade do segundo mandato de Trump e pode alterar o controle partidário de uma ou das duas casas do Congresso.
Para Goiás, um dos principais pontos de interesse é a política tarifária americana. O aumento de impostos sobre produtos importados, adotado pelo governo Trump, afetou as relações comerciais com o Brasil e provocou mudanças nas condições de acesso de mercadorias brasileiras ao mercado dos Estados Unidos.
Estados Unidos compraram quase 5% das exportações de Goiás
Em 2025, os Estados Unidos receberam 4,78% de tudo o que Goiás exportou, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), divulgados pelo governo estadual. O país ficou atrás apenas da China, responsável por 43,36% das vendas externas goianas.
A carne bovina tem participação importante nessa relação comercial. Levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), com dados de 2024, aponta que carnes e miudezas comestíveis renderam US$ 150,7 milhões em exportações goianas para os Estados Unidos naquele ano, aproximadamente 40% do total vendido ao país.
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O segundo principal grupo de produtos era o de ferro fundido e aço, com US$ 91,3 milhões em vendas. A pauta também inclui outros produtos industriais e agropecuários.
Na prática, mudanças nas tarifas americanas podem afetar o preço final desses produtos nos Estados Unidos. Quanto maior o imposto cobrado na entrada da mercadoria, maior tende a ser a dificuldade de competir com fornecedores que enfrentam condições comerciais diferentes.
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O efeito sobre cada empresa depende do produto exportado, das tarifas aplicáveis, dos contratos comerciais e da possibilidade de vender para outros mercados.
Tarifaço já provocou preocupação na indústria goiana
A Fieg e o Instituto Mauro Borges (IMB) produziram estudos sobre os efeitos das medidas tarifárias americanas na economia estadual.
Em nota técnica divulgada em 2025, a Fieg estimou, com base em estudo do IMB, que o tarifaço poderia reduzir as exportações goianas em R$ 553,8 milhões naquele ano. A maior parcela da perda projetada estava associada ao setor de abate e produtos de carne, com R$ 301,7 milhões.

A fabricação e o refino de açúcar apareciam em seguida, com impacto estimado em R$ 142,7 milhões. Também foram identificados riscos para os setores de calçados, couro, agricultura e mineração.
Esses valores eram projeções de impacto, não perdas efetivamente comprovadas.
Desde então, a política comercial americana passou por novas alterações. Em julho de 2026, os Estados Unidos anunciaram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre determinados produtos brasileiros, com fundamento na Seção 301 da legislação comercial americana.
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Segundo o MDIC, as medidas atingem, isoladamente ou em conjunto, o equivalente a 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, considerando a pauta de 2024.
Entre os produtos afetados estão açúcar, máquinas, equipamentos, gorduras e óleos. Carnes, aeronaves e ferro fundido estão entre os produtos que não são alcançados por essas novas sobretaxas específicas, embora possam estar sujeitos a outras regras tarifárias.
O Congresso pode acabar com o tarifaço?
A Constituição dos Estados Unidos atribui ao Congresso poderes para regular o comércio exterior e estabelecer impostos sobre importações. Ao longo dos anos, porém, leis americanas concederam ao presidente a possibilidade de aplicar ou modificar tarifas em determinadas circunstâncias.
É com base nessas autorizações que diferentes governos adotaram medidas comerciais sem precisar submeter cada alteração de alíquota a uma nova votação no Congresso.
A nova composição da Câmara e do Senado poderá discutir mudanças nessas leis, realizar audiências, convocar autoridades e fiscalizar as decisões do Executivo.

A aprovação de alterações legislativas dependerá, contudo, das maiorias necessárias no Congresso e das regras de sanção ou veto presidencial.
Por isso, mesmo que o partido de Trump perca o controle de uma das casas, as tarifas existentes não serão automaticamente revogadas.
Como a eleição pode afetar os empregos em Goiás?
Os efeitos sobre o emprego dependem principalmente das condições enfrentadas pelas empresas que exportam para os Estados Unidos.
Uma eventual redução de encomendas americanas pode afetar o volume de produção de frigoríficos e indústrias voltadas ao mercado externo. As consequências para contratações, jornadas de trabalho e investimentos dependerão da situação de cada empresa.
O contrário também é possível: melhores condições de acesso ao mercado americano podem favorecer novos contratos de exportação e investimentos na produção.

Em Goiás, os impactos potenciais não se restringem aos frigoríficos. A cadeia da carne envolve pecuaristas, transportadoras, fornecedores de embalagens e prestadores de serviços.
Na indústria, alterações nas condições de comércio podem atingir fabricantes de produtos siderúrgicos e outros bens destinados aos Estados Unidos.
Não é possível, entretanto, estabelecer uma quantidade de empregos que será criada ou perdida em Goiás apenas com base no resultado eleitoral americano.
Dólar e juros também entram na conta
Outro ponto de interesse para o Brasil é a política econômica americana.
O Congresso participa da definição do orçamento federal e de decisões sobre gastos e tributos. Mudanças nessas políticas podem influenciar as expectativas de investidores e as condições dos mercados financeiros.

Para empresas goianas que exportam, a cotação do dólar interfere no valor em reais recebido pelas vendas internacionais. Para as que importam máquinas, insumos e equipamentos, a moeda americana também afeta os custos.
O câmbio, porém, não depende exclusivamente do resultado das eleições. Juros americanos, inflação, decisões do Federal Reserve — o banco central dos Estados Unidos — e condições econômicas internacionais também influenciam a cotação.
O Federal Reserve não tem suas decisões de juros submetidas à aprovação do Congresso, embora seus dirigentes prestem contas aos parlamentares.
O que será decidido nesta terça-feira?
As eleições americanas renovarão integralmente a Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado, incluindo duas disputas especiais.
Atualmente, o Partido Republicano controla as duas casas. O resultado determinará a composição do Congresso a partir de janeiro de 2027, durante os dois últimos anos do mandato de Donald Trump.
Além de aprovar leis e o orçamento, o Congresso tem atribuições de fiscalização do governo. O Senado também participa da confirmação de autoridades indicadas pelo presidente.
Para o Brasil e Goiás, o principal efeito a acompanhar depois da votação será a atuação dos novos parlamentares em temas como tarifas comerciais, relações internacionais, orçamento e política econômica.
As regras de importação em vigor, no entanto, continuarão dependendo das decisões das autoridades americanas competentes e de eventuais mudanças na legislação.