Três atrizes de Hollywood, uma delas vencedora do Oscar, já viveram em Anápolis; conheça história
Joan Lowell, Janet Gaynor e Mary Martin tiveram propriedades e mantiveram vínculos com a cidade entre as décadas de 1930 e 1970
Ir direto pra matéria
Joan Lowell, Janet Gaynor e Mary Martin, três nomes ligados ao cinema e ao teatro norte-americanos, moraram em Anápolis em diferentes períodos do século 20. Lowell participou de um filme de Charles Chaplin, Gaynor venceu a categoria de melhor atriz na primeira cerimônia do Oscar e Martin conquistou a Broadway interpretando Peter Pan. Documentos de época, arquivos das premiações e registros oficiais permitem reconstruir a passagem das três pelo interior de Goiás. A própria Prefeitura de Anápolis registra as atrizes entre os norte-americanos que fizeram da cidade seu refúgio.
A história começa em uma Anápolis bastante diferente da atual, mas que já ampliava sua importância econômica no Centro-Oeste. O município havia se formado a partir das rotas utilizadas por tropeiros e viajantes e chegaria ao século 20 como um dos principais centros comerciais de Goiás, trajetória recuperada pelo Mais Goiás ao contar a história da formação de Anápolis. A chegada da ferrovia em 1935 acelera a circulação de pessoas, produtos e investimentos e insere a cidade em uma nova etapa de crescimento. Esse ambiente ajuda a explicar por que estrangeiros interessados em propriedades rurais passam a olhar para a região.
Joan Lowell: de um filme de Chaplin para Anápolis
A primeira ligação direta dessa história com Hollywood passa por Joan Lowell. O arquivo oficial de Charles Chaplin inclui a atriz no elenco de The Gold Rush, de 1925, ao lado de Charles Chaplin, Georgia Hale, Mack Swain e outros integrantes da produção. Lowell interpreta uma das amigas da personagem Georgia, em participação secundária no filme dirigido, produzido e protagonizado pelo cineasta. A informação permite afirmar que uma atriz que trabalhou em uma produção de Chaplin posteriormente passou a viver em Anápolis, sem atribuir ao próprio Chaplin uma residência que não existiu.

A mudança de Lowell para Goiás ocorre depois de sua trajetória no entretenimento norte-americano. Em Anápolis, ela se estabelece com o marido, Leek Bowen, e passa a integrar a vida rural e econômica da região, além de participar de negócios envolvendo propriedades. O registro da Prefeitura de Anápolis coloca o casal entre os personagens da história da presença norte-americana no município. A chegada dos dois antecede a de outras figuras conhecidas e ajuda a formar a rede que posteriormente aproxima Janet Gaynor e Mary Martin da cidade.
O período coincide com uma transformação importante na infraestrutura local. A Estrada de Ferro Goyaz chega a Anápolis em 7 de setembro de 1935, depois de uma expansão iniciada ainda nas primeiras décadas do século. A ferrovia amplia conexões comerciais e contribui para reforçar a posição regional do município, conforme mostra reportagem histórica do Mais Goiás sobre a chegada dos trilhos à cidade. O crescimento facilita a circulação em uma região que até então dependia de deslocamentos mais demorados pelo interior do país.
Janet Gaynor comprou 150 hectares em Goiás
A passagem de Janet Gaynor por Anápolis possui um dos registros mais claros dessa história. Uma publicação de fevereiro de 1955 preservada pela Biblioteca Nacional traz o título “A caminho de Anápolis” e informa que Gaynor e o marido, Gilbert Adrian, haviam comprado 150 hectares de terra em Goiás. O texto registra ainda que os dois estudaram português nos Estados Unidos antes da viagem ao Brasil. O documento original pode ser consultado na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
O nome de Janet Gaynor acrescenta uma dimensão histórica particular ao episódio. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas registra Gaynor como vencedora de melhor atriz na primeira cerimônia do Oscar, realizada em 16 de maio de 1929. Ela recebe a premiação por trabalhos em 7th Heaven, Street Angel e Sunrise e torna-se a primeira mulher a vencer a categoria. Mais de duas décadas depois, a atriz troca temporariamente o ambiente de Hollywood por uma propriedade rural no interior goiano.

A escolha ocorre antes mesmo da inauguração de Brasília, em 1960. Durante a década de 1950, Anápolis passa a ocupar posição estratégica também no processo de implantação da nova capital, principalmente por sua estrutura aérea e localização entre o futuro Distrito Federal e Goiânia. Um dos símbolos desse período é a Casa JK, instalada na área do antigo aeroporto e vinculada à passagem de Juscelino Kubitschek pelo município. A história e os problemas de preservação do imóvel foram mostrados pelo Mais Goiás em reportagem sobre o patrimônio ligado à construção de Brasília.
Mary Martin levou Peter Pan para o Cerrado

Mary Martin é a terceira personagem central dessa conexão. Atriz e cantora, ela se torna um dos principais nomes do teatro musical norte-americano e alcança um de seus maiores sucessos interpretando Peter Pan na Broadway. O arquivo oficial do Tony Awards confirma que Martin vence em 1955 o prêmio de melhor atriz em musical por Peter Pan. No mesmo período, sua trajetória passa a incluir também Anápolis.
Martin mora no município com o marido, o produtor Richard Halliday, segundo o levantamento histórico divulgado pela Prefeitura de Anápolis. O casal mantém vínculo com uma propriedade na região e passa a integrar o mesmo círculo de estrangeiros relacionado a Joan Lowell e Janet Gaynor. Dessa forma, a presença norte-americana deixa de representar apenas a passagem isolada de uma estrela e passa a formar uma sequência de relações pessoais e patrimoniais. A história conecta no mesmo município uma integrante do elenco de Chaplin, uma vencedora do Oscar e uma vencedora do Tony.

Por que Anápolis entrou nessa rota
A presença dessas mulheres ocorre em um período de expansão das conexões de Anápolis com outras regiões. Além da ferrovia, a cidade desenvolve atividades aéreas e posteriormente ocupa posição central entre Goiânia e Brasília, estrutura que contribui para transformar o município em polo econômico. Décadas mais tarde, essa localização ajuda também a consolidar o Distrito Agroindustrial de Anápolis e a ampliar a presença da cidade na economia goiana. A mudança de escala urbana não apaga, entretanto, a fase em que propriedades rurais da região atraem estrangeiros ligados ao entretenimento norte-americano.
O desenvolvimento da aviação tem papel específico nessa aproximação. A exposição organizada pela Prefeitura em 2024 destaca que a Aerovias Brasil mantinha voos regulares entre Brasil e Estados Unidos com escalas em Anápolis, reforçando a conexão da cidade com o exterior. No mesmo período, o Centro-Oeste passa a receber investimentos e moradores atraídos pela expansão da fronteira agrícola e pela futura construção de Brasília. A combinação entre terras, acessibilidade e relações pessoais cria as condições para que esse pequeno grupo de norte-americanos permaneça na região.
Documentos separam história de lenda
A documentação disponível é importante porque a história de Hollywood em Anápolis acumula, ao longo das décadas, relatos sobre diferentes celebridades. No caso de Joan Lowell, Janet Gaynor e Mary Martin, entretanto, existem fontes que permitem ir além da tradição oral: o arquivo de Chaplin comprova a participação de Lowell em The Gold Rush, a publicação de 1955 registra Gaynor como proprietária de terras na região e o Tony Awards documenta a carreira de Martin em Peter Pan. A Prefeitura de Anápolis reúne as três trajetórias ao afirmar que elas moraram no município. A convergência entre fontes produzidas em instituições e períodos diferentes sustenta o núcleo da história.
Esse cuidado também impede um erro comum ao recontar o episódio: afirmar que Charles Chaplin morou em Anápolis. Não há documentação consultada nesta apuração que sustente essa versão. A conexão de Chaplin com a cidade ocorre por meio de Joan Lowell, integrante do elenco de The Gold Rush, enquanto o elo com o Oscar passa por Janet Gaynor e o vínculo com Peter Pan vem de Mary Martin. A história comprovada já reúne elementos suficientes para transformar Anápolis em uma das conexões mais inesperadas entre Goiás e a indústria cultural dos Estados Unidos.
Do passado de Hollywood ao audiovisual atual
A ligação de Anápolis com o cinema ganha novos capítulos décadas depois. O município passa a sediar festivais, mostras e projetos de formação, além de receber uma sala voltada à programação gratuita, iniciativa detalhada pelo Mais Goiás em reportagem sobre a estrutura audiovisual da cidade. Em 2026, Anápolis também integra a programação do DIGO, Festival Internacional de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás, com obras locais entre as selecionadas. A relação contemporânea com o audiovisual assume outra forma, agora baseada na produção e na circulação de filmes.
A edição de 2026 do festival reúne produções nacionais e internacionais e inclui Anápolis entre os locais de exibição, conforme noticiado pelo Mais Goiás na divulgação dos filmes selecionados. O cenário é diferente daquele encontrado pelas três norte-americanas no século passado, mas preserva uma coincidência histórica. Antes de a cidade construir sua própria agenda cinematográfica, nomes relacionados a Hollywood e à Broadway já haviam colocado Anápolis em suas biografias. Os registros sobreviventes mostram que essa conexão não pertence apenas às lendas locais.
Quase um século depois de The Gold Rush chegar aos cinemas, a sequência ainda chama atenção pela improbabilidade. Joan Lowell deixa Hollywood e passa a viver em Anápolis; Janet Gaynor, primeira vencedora do Oscar de melhor atriz, compra terras na região; e Mary Martin, premiada por Peter Pan, também faz do município parte de sua vida. Não é preciso atribuir a Charles Chaplin uma passagem pela cidade nem acrescentar celebridades sem comprovação para tornar o episódio relevante. A documentação existente já revela um capítulo da história de Goiás que parece roteiro de cinema.