Domingo, 23 de Agosto de 2026
Profissões

Goianiense resiste à era do descartável restaurando sapatos há 34 anos 

Wilson de Sousa Neto aprendeu o ofício com o pai aos 12 anos e mantém pequena oficina no Centro de Goiânia

Warlem Sabino
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Wilson Sapateiro

Em uma sala de apenas 10 metros quadrados, no Centro de Goiânia, o cheiro de couro, cola e tinta denuncia uma profissão que resiste ao tempo. É ali que Wilson de Sousa Neto, de 46 anos, passa boa parte dos dias consertando aquilo que muita gente já teria jogado fora. 

Ele é um sapateiro de mão cheia, como se diz em Goiás. Wilson cresceu entre couros, solados, linhas e ferramentas. Começou a trabalhar como sapateiro aos 12 anos e aprendeu o ofício com o pai, que também era sapateiro e fabricava botinas dentro de casa. “Aprendi com meu pai fazendo botina dentro de casa. Depois aprendi a fazer bolsa e sandálias femininas”, revela. 

O que começou ainda na infância acabou se transformando em profissão. São 34 anos trabalhando com sapatos e artigos de couro, grande parte desse tempo utilizando as próprias mãos para recuperar peças que pareciam ter chegado ao fim da vida útil. 

Enquanto a indústria produz cada vez mais rápido e o consumo estimula a substituição de produtos, Wilson segue em outra velocidade. Desmonta, limpa, cola, costura, pinta e reforma. No final, devolve ao cliente um objeto que poderá ser usado novamente. 

Uma profissão que se recusa a desaparecer 

Wilson sabe que o trabalho de sapateiro já foi mais presente nos bairros e centros comerciais. Também conhece a ideia de que profissões como a dele estariam condenadas a desaparecer diante de produtos cada vez mais baratos e facilmente substituíveis. 

A experiência de quem está no ramo desde criança, porém, mostra a ele outra realidade. “As pessoas acham que a profissão é descartável, que não ganha bem. Mas eu tenho meu próprio negócio, ganho razoavelmente bem, melhor do que muitas profissões que conheço”, afirma. 

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Wilson é sapateiro desde os 12 anos, ofício que aprendeu com os pais. (Foto: Divulgação)

Parte dessa sobrevivência está justamente no valor dos objetos que chegam à pequena oficina. Há clientes que levam sapatos e bolsas caros e preferem investir na recuperação em vez de comprar uma peça nova.  

Para eles, segundo Wilson, o preço do serviço muitas vezes fica em segundo plano. “Tem os calçados e bolsas muito caros. As pessoas nem se importam com o valor do conserto, pois querem dar vida nova.” 

Quando um sapato vale mais do que custa 

Mas nem sempre é o preço que determina se alguma coisa merece ser salva. Depois de tantos anos no ofício, Wilson percebeu que alguns dos objetos mais importantes que passam por suas mãos podem nem ter grande valor financeiro. O que possuem é algo impossível de encontrar em uma loja: história. 

“As pessoas têm muito apego sentimental aos objetos, principalmente quando ganham de algum parente falecido”, explica. 

É nesses casos que o trabalho do sapateiro deixa de ser apenas trocar um solado, refazer uma costura ou recuperar o couro. Para o cliente, conservar aquele objeto significa também preservar uma lembrança. 

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