Quinta-feira, 30 de Julho de 2026
SAÚDE PÚBLICA

Sorotipo mais agressivo domina casos de dengue em Goiás; Estado já soma 75 mortes

DENV-3 já representa mais da metade das amostras analisadas no estado e preocupa especialistas pelo maior potencial de provocar formas graves da doença; casos cresceram quase 15% em relação ao ano passado

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:
Mosquito Aedes aegypti próximo a recipiente com água parada em área urbana

Goiás registrou 93.548 casos prováveis de dengue entre janeiro e julho de 2026, aumento de 14,8% em comparação com os 81.487 contabilizados no mesmo período de 2025. A diferença representa 12.061 registros adicionais. O Estado também confirmou 75 mortes pela doença.

Os dados constam no Painel de Arboviroses da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO). Além do crescimento geral, a mudança do sorotipo predominante amplia o alerta. O DENV-3 responde por 53,2% dos registros nos quais houve identificação do sorotipo.

Mais Goiás entrou em contato com a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás para solicitar esclarecimentos sobre o avanço do DENV-3, as internações, os casos graves e a cobertura vacinal contra a dengue. A pasta não respondeu até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.

Responsável técnico pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e infectologista do Einstein em Goiânia, o médico Murilo Calabria afirma que o crescimento preocupa porque ocorre sobre um número de casos que já era elevado. “Não preocupa apenas pelo percentual isoladamente, mas porque se trata de um crescimento sobre uma base que já era bastante elevada. São mais de 12 mil casos prováveis adicionais em relação ao mesmo período do ano anterior, acompanhados de 75 mortes e da mudança do sorotipo predominante”, afirmou o infectologista ao Mais Goiás.

Pico semanal supera marca de 2025 em cerca de 46%

O pico de transmissão ocorre entre os dias 2 e 8 de março, quando Goiás ultrapassa 7 mil registros em uma única semana. Na semana correspondente de 2025, o Estado contabiliza cerca de 4,8 mil casos. A diferença fica próxima de 46%.

Para Calabria, o avanço exige uma análise que vá além do total acumulado. “É necessário acompanhar, por semana epidemiológica, a incidência por 100 mil habitantes, a proporção de testes positivos, os casos com sinais de alarme, os casos graves, as hospitalizações, os óbitos e a distribuição geográfica. Também devem ser considerados possíveis atrasos de notificação e investigação”, explicou.

Em fevereiro, o Mais Goiás mostrou que Goiânia já havia confirmado mais de 4,1 mil casos de dengue nas oito primeiras semanas de 2026. Em abril, levantamento da Secretaria Municipal de Saúde também identificou os dez bairros da capital com mais casos da doença.

Os números estaduais podem mudar conforme os municípios encerram investigações, confirmam casos e revisam notificações.

DENV-3 encontra população com pouca imunidade

A dengue possui quatro sorotipos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Uma pessoa infectada desenvolve proteção duradoura contra o sorotipo que provocou a doença, mas não fica permanentemente protegida contra os outros três.

O DENV-3 permaneceu com circulação reduzida no Brasil por mais de uma década. Nesse intervalo, parte da população nunca teve contato com o sorotipo, enquanto outras pessoas contraíram dengue causada principalmente pelos tipos 1 e 2.

Em janeiro de 2025, o Mais Goiás informou que o sorotipo 3 voltava a ser identificado no Estado. Na ocasião, o registro ocorreu em Anápolis, em um paciente residente em Mato Grosso. Em 2026, o DENV-3 passa a predominar entre as identificações realizadas em Goiás.

Segundo Calabria, o retorno encontra uma população com baixa imunidade específica. “A principal explicação é uma combinação de baixa imunidade populacional contra o DENV-3 e a reintrodução ou expansão de uma nova linhagem viral. Milhões de pessoas nunca tiveram contato com esse sorotipo”, explicou.

O médico destaca que a mobilidade populacional, a presença do Aedes aegypti, a urbanização, as condições climáticas e o armazenamento inadequado de água favorecem a disseminação.

“Isso não significa necessariamente que o vírus tenha sofrido uma mutação e ficado mais forte. Trata-se principalmente de uma vantagem epidemiológica em uma população com pouca imunidade contra ele”, afirmou.

Estudo identifica nova linhagem do vírus

Estudos genômicos identificam no Brasil a circulação da linhagem 3III_B.3.2 do DENV-3. Pesquisa publicada em 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas aponta múltiplas introduções da linhagem no país e sua disseminação por diferentes regiões.

A análise encontra maior chance estatística de dengue grave nas infecções por DENV-3 quando comparadas ao DENV-1. As razões de chances ajustadas variam entre 1,47 e 1,94 nos diferentes modelos. O estudo recomenda cautela na interpretação dos resultados.

Parte da associação pode decorrer da ocorrência de uma segunda infecção por um sorotipo diferente, e não necessariamente de uma capacidade própria do DENV-3 de provocar quadros mais graves.

“A gravidade resulta da interação entre o sorotipo e a linhagem viral, o histórico imunológico do paciente, a idade, as comorbidades, o acesso aos serviços de saúde e o momento em que o tratamento começa”, explicou Calabria.

Segunda infecção pode elevar risco de forma grave

Quem já teve dengue causada por outro sorotipo pode contrair novamente a doença. Epidemiologicamente, uma segunda infecção por um tipo diferente está associada a maior risco de dengue com sinais de alarme ou dengue grave.

Em algumas situações, os anticorpos produzidos na primeira infecção reconhecem o novo sorotipo, mas não conseguem neutralizá-lo. Esse processo pode facilitar a entrada do vírus em determinadas células. O fenômeno recebe o nome de amplificação dependente de anticorpos, ou ADE.

“Isso não significa que toda segunda dengue será grave. A maioria das reinfecções ainda evolui sem gravidade. O risco é probabilístico e depende da sequência dos sorotipos, do intervalo entre as infecções, da idade, das comorbidades e da rapidez com que o paciente recebe hidratação, monitoramento e assistência”, ressaltou o médico.

Estiagem não elimina risco de transmissão

O período de maior transmissão da dengue no Brasil costuma ocorrer entre outubro e maio. Como o pico de Goiás aparece em março e o Estado atravessa a estiagem, Calabria avalia que os registros podem permanecer abaixo do maior patamar nas próximas semanas.

A redução sazonal não representa o fim da circulação. Os ovos do Aedes aegypti podem permanecer viáveis por mais de um ano em superfícies secas e eclodir quando voltam a ter contato com a água. O armazenamento em caixas, tonéis e recipientes sem vedação também mantém criadouros durante a seca.

O risco já aparece em levantamentos anteriores. Em 2025, Goiânia encerrou o ano com 28.427 casos de dengue, 67 ocorrências graves e 34 mortes. Apesar da redução de quase 47% na comparação com 2024, os números mantiveram a necessidade de ações permanentes contra o mosquito.

“Com a predominância do DENV-3 e a elevada suscetibilidade populacional, existe risco de nova aceleração com o retorno das chuvas e das temperaturas mais favoráveis, especialmente na primavera e no verão”, alertou Calabria.

Segundo o especialista, uma projeção precisa depende do acompanhamento semanal dos casos, das internações, da positividade dos exames, dos índices de infestação, das chuvas e da ocupação hospitalar.

Queda da febre pode marcar início da fase de risco

Infectologista Murilo Calabria, do Einstein em Goiânia
Murilo Calabria, responsável técnico da UTI e infectologista do Einstein em Goiânia, analisa o avanço da dengue em Goiás. (Crédito: Divulgação/Einstein)

O infectologista alerta que a diminuição da febre não significa necessariamente que o paciente está recuperado. A fase de maior risco pode começar entre o terceiro e o sétimo dia da doença, justamente quando a temperatura corporal cai.

Dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, desmaio, queda da pressão, dificuldade para respirar, fraqueza intensa, sonolência, confusão, irritabilidade, pele fria ou pegajosa, redução da quantidade de urina e dificuldade para ingerir líquidos indicam a necessidade de atendimento imediato.

“A melhora da febre não significa necessariamente que o paciente esteja curado. O retorno ao serviço de saúde deve ocorrer imediatamente quando surgem sinais de alarme”, orientou Calabria.

Gestantes, crianças pequenas, idosos e pessoas com doenças renais, cardíacas, diabetes, obesidade, doenças hematológicas ou imunossupressão precisam de avaliação precoce.

O infectologista também orienta que pessoas com suspeita de dengue não usem medicamentos com ácido acetilsalicílico nem anti-inflamatórios como ibuprofeno, diclofenaco e nimesulida, devido ao risco de sangramento e outras complicações. A utilização de medicamentos deve seguir avaliação profissional.

Vacinação não substitui combate ao mosquito

Em 2026, o Ministério da Saúde amplia a vacinação com a Qdenga para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos em todos os municípios brasileiros. O esquema possui duas doses, com intervalo de três meses.

Em Goiás, cerca de 118 mil crianças e adolescentes ainda não haviam recebido a segunda dose da vacina contra a dengue, conforme levantamento divulgado anteriormente pela SES-GO.

A aplicação da Qdenga para o público entre 10 e 14 anos continua disponível. Em junho, o Mais Goiás explicou que a vacinação de crianças e adolescentes permanece mesmo após a suspensão preventiva de outro imunizante.

“A vacinação é uma ferramenta importante para reduzir casos sintomáticos e, principalmente, hospitalizações e formas graves”, afirmou Calabria.

O médico pondera que a estratégia atual não interrompe sozinha a transmissão porque contempla uma faixa etária específica e depende da conclusão do esquema.

“A vacina deve ser vista como parte de uma estratégia integrada, e não como substituta do combate ao mosquito, da vigilância epidemiológica e da assistência precoce”, ressaltou.

Fumacê tem efeito temporário

Entre os erros mais comuns da população, Calabria aponta a concentração das ações de prevenção apenas no período chuvoso e a procura exclusiva por grandes depósitos de água.

Pratos de plantas, calhas, ralos, bandejas de geladeira, bebedouros de animais, lonas, tampinhas, garrafas, entulho e materiais de construção também podem funcionar como criadouros. O mosquito não se reproduz somente em água considerada suja.

O infectologista alerta ainda para a confiança excessiva no fumacê. A aplicação reduz mosquitos adultos em situações específicas, mas não elimina ovos, larvas ou recipientes com água. O Mais Goiás já mostrou a discussão sobre a eficácia e a contratação do serviço de fumacê em Goiânia.

“Sem a retirada dos criadouros, o efeito é temporário. Como grande parte dos focos está dentro das residências ou em seu entorno, o controle depende da participação de cada família, associada às ações governamentais de saneamento, coleta de resíduos, vigilância e controle vetorial”, explicou.

Para Calabria, as 75 mortes registradas em Goiás mostram que a doença não pode ser tratada como uma virose sem risco.

“O principal recado é que dengue não é uma virose banal e não termina necessariamente quando a febre melhora. Grande parte das complicações e dos óbitos pode ser evitada quando o paciente reconhece os sinais de alarme, procura atendimento no momento adequado e recebe hidratação e acompanhamento clínico compatíveis com a fase da doença”, concluiu.

Categorias:
Cidades