instabilidade atmosférica

El Niño ou anomalia? Cimehgo explica motivo do temporal histórico em Goiânia

Amorim, explica que o Pacífico atuou como "combustível" para frentes frias romperem bloqueio do Cerrado, mas alerta Super El Niño trará calor

Imagem da tempestade de domingo
Chuva de domingo passou dos 60 mm em Goiânia, mas Cimehgo pondera que o El Niño não agiu sozinho (Foto: reprodução)

A tempestade que surpreendeu os goianienses em pleno mês de junho levantou dúvidas sobre o real impacto do clima global em Goiás. Embora a associação ao “Super El Niño” seja imediata para muitos, meteorologistas explicam que o temporal histórico foi o resultado de uma combinação rara de fatores atmosféricos, que conseguiu romper a tradicional estiagem do Cerrado.

Ao Mais Goiás, o gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, ponderou que não é possível culpar o fenômeno de forma isolada. “A princípio não. Não podemos apontar diretamente para a questão do El Niño”, revelou o meteorologista.

Segundo ele, o estado atravessou uma engrenagem climática atípica nas primeiras semanas do mês. “O que ocorreu em Goiás na primeira quinzena de junho de 2026 é um evento meteorologicamente raro e climaticamente significativo: múltiplas frentes frias com penetração continental, rompimento do bloqueio do Cerrado e recrutamento de umidade amazônica”, detalhou Amorim.

Na prática, esses três fatores atuaram juntos. O aquecimento das águas do Oceano Pacífico funciona como um motor que altera a circulação em larga escala, mas de forma indireta. Embora o El Niño não fabrique a chuva do Cerrado sozinho neste período, ele serviu como um combustível de fundo.

“Tudo isso [foi] potencializado por um El Niño ainda jovem, mas já modulando a circulação geral da atmosfera. Não é possível atribuir o evento diretamente ao El Niño, mas o contexto de aquecimento do Pacífico certamente contribuiu para tornar as frentes mais úmidas e com maior capacidade de penetração continental do que o esperado para a estação seca”, explicou o gerente do Cimehgo.

Essa força extra permitiu que os sistemas frontais avançassem pelo interior do continente e trouxessem temporais que passaram dos 60 milímetros em bairros de Goiânia no domingo (14/6), contrariando o histórico de seca para o mês.

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Foto ilustrativa
Probabilidade de El Niño entre junho e agosto é de 80% consequências em Goiás (Imagem: Agência Brasil)

O alerta do “Super El Niño”

Se o cenário recente trouxe alívio e queda nas temperaturas, o horizonte ainda exige cautela máxima de autoridades e produtores rurais. Isso porque os modelos de previsão apontam para a consolidação de um Super El Niño — quando o aquecimento do Pacífico atinge patamares extremos e perigosos.

Amorim adverte que os efeitos mais severos do fenômeno global devem ser sentidos justamente na segunda metade do ano. A tendência é que a atmosfera crie bloqueios ainda mais rígidos sobre o Brasil Central, impedindo a chegada de frentes frias e abrindo caminho para períodos prolongados de calor opressivo e baixa umidade.

A avaliação do Cimehgo é que as chuvas deste início de junho foram uma linha fora da curva. Com o Super El Niño consolidado nos próximos meses, o padrão climático de Goiás deve enfrentar extremos. Há risco real de atraso no retorno das chuvas regulares de primavera e uma frequência inédita de ondas de calor históricas até o fim do ano.

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