“Não preciso escolher entre fé e meus direitos”, diz estudante que usará beca branca na formatura por respeito ao Candomblé
Estudante afirma que não queria uma cerimônia alternativa, mas participar da formatura presencialmente sem abrir mão da fé
Ir direto pra matéria
“Uma sociedade verdadeiramente democrática não exige que as pessoas escolham entre sua fé e seus direitos. Ela cria condições para que ambas possam coexistir com respeito.” É assim que a estudante de Relações Internacionais Lethícia Lima, de 22 anos, resume a decisão do Tribunal de Justiça (TJGO), declarada por meio da 4ª Vara Cível de Valparaíso de Goiás, que garantiu seu direito de usar uma beca branca na formatura do Centro Universitário IESB, em Brasília. Adepta do Candomblé, ela recorreu à Justiça após não conseguir autorização da instituição. A cerimônia será realizada no dia 28 de julho.
Lethícia tentou resolver a questão por quase dois meses. Em período de resguardo religioso, ela deve usar exclusivamente roupas brancas até maio de 2027. Segundo a estudante, o pedido era apenas uma adaptação no traje, sem alteração no protocolo da solenidade. “Eu nunca imaginei que precisaria acionar o Poder Judiciário para poder participar da minha própria formatura. Sempre acreditei que um diálogo respeitoso e uma adaptação pontual seriam suficientes”, afirma.
Estudante temia ser excluída
Como alternativa, a instituição ofereceu a colação em gabinete ou a participação remota, opções recusadas pela estudante, que queria viver a cerimônia presencialmente com a turma. “O que estava em jogo era o meu pertencimento. Eu nunca tive medo de não receber o diploma. O diploma eu sabia que receberia. O que eu temia era ser excluída justamente do momento coletivo que simboliza a conclusão dessa trajetória”, relata.
Para Lethícia, participar de uma cerimônia separada ou à distância não teria o mesmo significado. “Quando me ofereceram uma cerimônia separada ou remota, senti que a mensagem era: ‘você pode concluir o curso, mas não da mesma forma que os demais'”, afirma.

A estudante defende que inclusão significa permitir que pessoas com diferentes crenças ocupem os mesmos espaços sem abrir mão de suas convicções. “Inclusão não é criar uma cerimônia paralela para quem é diferente. Inclusão é garantir que todos possam participar do mesmo espaço, respeitando suas diferenças”, diz.
Leia mais
Luta pela beca branca
Lethícia afirma que, sem a autorização judicial, teria ficado diante de uma escolha que considerava incompatível com o direito à liberdade religiosa: descumprir um compromisso assumido em sua religião para participar da solenidade ou manter suas convicções e abrir mão de viver a formatura junto à turma.
“Ou eu descumpria um compromisso religioso assumido durante a minha iniciação para participar da cerimônia, ou permanecia fiel ao meu preceito e abria mão de viver a formatura ao lado da minha turma. Nenhuma dessas opções era justa”, diz.
A estudante entende que a liberdade religiosa não se limita ao direito de acreditar ou professar determinada fé. Para ela, também envolve a possibilidade de viver essas convicções enquanto exerce outros direitos e participa da sociedade. “Liberdade religiosa não significa apenas poder acreditar no que se quiser. Significa também não ser obrigado a abandonar essa crença para exercer outros direitos da vida em sociedade.”
A experiência também mudou a forma como Lethícia passou a compreender conceitos como dignidade e identidade, que antes conhecia principalmente a partir dos estudos. “Liberdade religiosa passou a significar poder exercer minha fé sem ser obrigada a escolher entre ela e outros direitos. Dignidade passou a significar ser tratada com o mesmo respeito que qualquer outra estudante, independentemente da minha religião.”

Formatura com reforço de identidade
A estudante afirma que a autorização judicial representa mais do que uma alteração no traje tradicional da cerimônia. “A beca branca nunca representou apenas uma mudança de cor. Ela representa o reconhecimento de que eu não preciso deixar parte da minha identidade do lado de fora para ocupar um espaço acadêmico”, afirma.
Lethícia diz que sua formação e sua religião são partes de uma mesma identidade e não deveriam ser tratadas como aspectos incompatíveis. “Sou estudante, futura internacionalista e também sou uma mulher de religião de matriz africana. Essas identidades coexistem. Uma não anula a outra.”
Para a jovem, a experiência também pode contribuir para ampliar o debate sobre diversidade religiosa e o respeito às diferentes formas de manifestação da fé. “Gostaria que as pessoas compreendessem que o Candomblé é uma religião séria, com fundamentos, liturgias e compromissos tão legítimos quanto os de qualquer outra tradição religiosa”, afirma.
Lethícia ressalta ainda que a garantia da liberdade religiosa não se limita aos praticantes de uma determinada crença. “Hoje foi o meu caso. Amanhã pode ser o de uma estudante muçulmana, de um estudante judeu, de um adventista, de um evangélico ou de qualquer outra pessoa que precise conciliar sua vida acadêmica com suas convicções religiosas.”
Para ela, a decisão representa a possibilidade de conciliar direitos que não deveriam ser colocados em oposição.
Leia também