A rua do Centro de Goiânia onde a capital começou a ganhar forma; veja o que ainda existe 92 anos depois
Rua 20 concentrou algumas das primeiras casas da nova capital, abrigou governo, pioneiros e a origem da UFG; quase 90 anos depois, poucos imóveis preservam esse período
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Antes dos prédios, estacionamentos e do trânsito do Setor Central, uma rua concentra parte das primeiras construções da nova capital de Goiás. É a Rua 20, apontada por pesquisas acadêmicas e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como a primeira rua de Goiânia. A definição, porém, exige uma ressalva: ela é a primeira via construída como conjunto edificado da cidade planejada, já que Campinas possui ruas, casas e comércio muito antes da fundação da capital.
A informação consta na dissertação de mestrado “A paisagem urbana e os seus apagamentos: um olhar sobre a Rua 20”, apresentada à Universidade Federal de Goiás (UFG) pela arquiteta e urbanista Letícia Soares Martins Ribeiro, em 2025. O estudo reconstrói as transformações da via e identifica as camadas históricas que permanecem no local. A pesquisadora analisa a rua como o primeiro conjunto arquitetônico construído da capital.
A Rua 20 também aparece em uma publicação do Iphan como o endereço onde são erguidas as primeiras casas da cidade. Quase um século depois, parte dessa paisagem desaparece, mas alguns imóveis continuam mostrando como era a Goiânia em seus primeiros anos de existência.
Rua 20: a primeira de Goiânia
A Rua 20 faz parte do núcleo pioneiro planejado para a nova capital na década de 1930. Ao redor da região onde hoje estão Praça Cívica, Avenida Goiás, Avenida Araguaia e Avenida Tocantins, o governo instalou repartições, construiu residências e organizou a transferência da administração estadual.
Uma publicação do Iphan apresenta uma imagem da Rua 20 em 1935 e registra que ela é conhecida como a primeira rua de Goiânia porque é ali que as primeiras casas da nova cidade são construídas.

Outra dissertação, apresentada à PUC Goiás por Tattiussa Costa Martins, também registra a Rua 20 como a primeira rua de Goiânia e explica que as chamadas “casas-tipo” funcionam como modelo para as construções que surgem na nova capital.
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Campinas já existia um século antes
A expressão “primeira rua de Goiânia” pode causar uma confusão. A Rua 20 não é a via mais antiga de todo o território que atualmente forma a capital.
Campinas começa a se formar em 1810, enquanto a pedra fundamental de Goiânia é lançada apenas em 1933. São 123 anos de diferença. Antes do projeto da nova capital, a antiga Campininha das Flores já possui casas, igreja, comércio, ruas e estrutura administrativa. O Mais Goiás mostra que o antigo município também forneceu território, comércio, serviços e moradia durante a construção de Goiânia.

Até a casa apontada como a mais antiga ainda existente em Goiânia fica em Campinas. O imóvel é construído em 1925 pelo alemão Karl Bartolomeo Steger, oito anos antes da fundação da nova capital.
Por isso, a formulação historicamente mais precisa é considerar a Rua 20 a primeira rua construída como conjunto edificado da Goiânia planejada.
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Rua 20 recebe casas e estruturas do governo

A Rua 20 não funciona apenas como endereço residencial. A via também participa da instalação da estrutura administrativa necessária para a transferência da capital.
O Centro de Informação, Documentação e Arquivo da UFG (Cidarq) registra que dez prédios são concluídos rapidamente na Rua 20 durante a implantação da nova cidade. A instituição identifica um dos imóveis como sede do Palácio Provisório do Governo de Goiás enquanto o Palácio das Esmeraldas ainda está em construção.
Esse endereço fica no número 19 da Rua 20 e atualmente integra a Casa da Memória da UFG e da Justiça Federal. A documentação do Cidarq associa o prédio às decisões administrativas tomadas durante a construção da capital.
Há, no entanto, uma discussão acadêmica sobre a identificação exata dessa construção. Pesquisa da UFG aponta que o edifício tombado como antiga sede provisória pode não corresponder ao imóvel original utilizado pelo governo e sustenta que a sede efetiva já não existe. A divergência mostra as dificuldades de reconstruir a função de cada imóvel do conjunto quase um século depois.
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O que ainda resta de original
A Rua 20 permanece no Setor Central, mas a paisagem não é mais aquela registrada nas fotografias da década de 1930. Casas dão lugar a edifícios, estacionamentos e imóveis destinados a outras atividades.
O processo de transformação é analisado no artigo científico “A paisagem urbana da Rua 20 em Goiânia: entre memórias, histórias, transformações e disputas”, publicado em 2024 na Revista Jatobá, da UFG. As pesquisadoras Letícia Soares Martins Ribeiro e Christine Ramos Mahler identificam demolições, substituições de construções e mudanças no uso dos imóveis como parte da transformação da paisagem original.
O estudo sustenta que a Rua 20 reúne conteúdos históricos, arquitetônicos e simbólicos relacionados ao núcleo pioneiro da cidade. Ao mesmo tempo, parte dessas referências desaparece conforme novas construções ocupam os lotes.
Mesmo com as alterações, ainda existem imóveis associados aos primeiros anos da capital. Entre eles estão a Casa da Memória e a residência onde viveu Colemar Natal e Silva, primeiro reitor da UFG, que atualmente abriga a Academia Goiana de Letras.
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Casa da Memória guarda parte da história
Um dos pontos que ainda ajudam a reconstruir a história da via fica no número 19. A Casa da Memória mantém exposições, fotografias, documentos e móveis relacionados à Universidade Federal de Goiás e à Justiça Federal.
O imóvel também recebe atenção acadêmica. O artigo “Do Casarão à Casa de Memória: um lugar de memória na Rua 20”, publicado em 2021, analisa a construção como espaço de preservação e difusão da memória da capital e das instituições que passam pelo endereço.

Segundo o Cidarq, após o período inicial da nova capital, a Faculdade de Direito de Goiás ocupou o imóvel. É a partir dessa instituição que se forma parte da história da Universidade Federal de Goiás. Colemar Natal e Silva, então diretor da faculdade, tornou-se posteriormente o primeiro reitor da UFG.
Entre 1969 e 1972, o prédio recebeu o Conservatório de Música da UFG. Em 1973, passou ao Poder Judiciário e se tornou a primeira sede própria da Seção Judiciária de Goiás. O imóvel recebeu tombamento como monumento histórico em 1982.
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O que Goiânia perdeu
Comparar fotografias antigas da Rua 20 com a paisagem atual ajuda a medir uma transformação que ocorre em menos de um século. A via permanece no mesmo traçado, mas parte das casas que compõem o conjunto inicial deixou de existir.
A pesquisa de mestrado da UFG aponta justamente os “apagamentos” da paisagem como um dos elementos centrais dessa transformação. O avanço de novos usos, as demolições e a substituição de imóveis modificaram a leitura do núcleo pioneiro e reduziram os vestígios materiais dos primeiros anos da capital.
Ainda assim, a Rua 20 permite encontrar partes da cidade que começou a surgir na década de 1930. A arquitetura remanescente, a Casa da Memória, a Academia Goiana de Letras e o próprio traçado da via ligam o Centro atual ao período de construção da nova capital.
A resposta para a pergunta sobre a primeira rua de Goiânia, portanto, precisa considerar duas histórias. Campinas possui vias muito anteriores à capital. Já a Rua 20 representa a primeira rua construída como conjunto edificado dentro do projeto urbano de Goiânia — e ainda mantém vestígios do momento em que a cidade começa a ocupar o Cerrado.
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