Sexta-feira, 31 de Julho de 2026
ADOÇÃO RESPONSÁVEL

Vira-latas podem esperar a vida inteira por adoção, diz protetora de Goiânia

Juliana Morais atua há mais de 20 anos na proteção animal e mantém 40 cães e gatos resgatados; adultos, idosos e animais de pelagem preta enfrentam maior rejeição

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Cão vira-lata preto em primeiro plano e cão caramelo ao fundo em abrigo, à espera de adoção

Celebrados nas redes sociais, os cães vira-latas nem sempre recebem a mesma atenção quando precisam de uma família. Alguns passam anos em abrigos ou lares temporários e podem esperar a vida inteira sem conseguir uma adoção. O relato é de Juliana Morais, protetora e ativista pelos animais que atua de forma independente em Goiânia há mais de duas décadas.

Atualmente, Juliana mantém 40 animais resgatados, entre cães e gatos, além de cuidar de outros que permanecem nas ruas. Segundo ela, a falta de espaço, dinheiro, apoio público e adotantes impede novos resgates, mesmo diante dos pedidos frequentes de ajuda. “Alguns esperam até mesmo por toda a vida. Infelizmente, muitos não conhecem a chance de ter um lar”, afirmou a protetora.

Fama na internet nem sempre se transforma em adoção

Vídeos protagonizados por cães sem raça definida acumulam visualizações e comentários nas redes sociais. Em julho, por exemplo, um vira-lata caramelo que invadiu uma arena e “enfrentou” um touro em Rialma ganhou repercussão nacional e acabou adotado pelo locutor responsável pela narração do rodeio.

Outro exemplo da popularidade desses animais é o chamado “fiapo de manga”, apelido dado a um vira-lata que alcançou cerca de 1,9 milhão de visualizações em uma publicação no TikTok. Para Juliana, entretanto, histórias que transformam visibilidade em adoção ainda não representam a realidade enfrentada diariamente por protetores e abrigos.

Na avaliação dela, demonstrar carinho por um animal pela internet exige menos envolvimento do que assumir a responsabilidade de levá-lo para casa. “É mais fácil enaltecê-los na internet ou ter pena dos abandonados e excluídos do que, de fato, abrir as portas de casa para adotá-los ou mesmo ajudá-los nas ruas. É muita conversa para pouca ação na prática”, declarou.

A protetora afirma que, se o interesse demonstrado nas redes fosse convertido em adoções responsáveis, doações ou oferta de lares temporários, haveria menor sobrecarga sobre organizações e voluntários.

Adultos, idosos e cães pretos enfrentam maior rejeição

De acordo com Juliana, os vira-latas adultos e com características mais evidentes de cães sem raça definida costumam enfrentar mais resistência. Enquanto filhotes e animais associados a alguma raça despertam maior procura, os adultos podem permanecer durante anos aguardando uma família.

A dificuldade aumenta entre os cães idosos e os de pelagem preta. Conforme a experiência da ativista, parte dos interessados escolhe os animais principalmente pela aparência e demonstra preferência por filhotes, cães de pelagem clara ou de raça.

“Raramente os idosos são enxergados. Os adotantes preferem cães filhotes, de pelagens claras ou mesmo de raça”, explicou.

A demora relatada por Juliana também aparece na experiência de outras entidades de proteção animal em Goiás. Em 2022, organizações de Anápolis informaram ao Mais Goiás que alguns cães permaneciam por até dez anos em abrigos e que o número de adoções chegava a apenas dois animais por mês.

A idade pode afastar pessoas que acreditam que um cachorro adulto não conseguirá se adaptar a uma nova residência. Juliana contesta essa percepção e afirma que animais resgatados conseguem criar vínculos com os tutores quando recebem cuidados, segurança e atenção.

Preconceito começa pela aparência e pela origem

Além da idade e da pelagem, o fato de o animal ter sido encontrado na rua pode pesar negativamente no momento da adoção. Segundo Juliana, ainda existe a ideia de que cães abandonados seriam menos sensíveis, menos sociáveis ou capazes de suportar qualquer condição.

“Os animais não são da rua. Eles estão nas ruas porque alguém abandonou e outros ignoraram. Todos sentem igualmente, independentemente da aparência ou da raça”, afirmou.

A ativista também destaca que a permanência nas ruas deixa os animais expostos a acidentes, doenças, fome e episódios de violência. Em janeiro, Juliana já havia alertado ao Mais Goiás que cães comunitários continuam vulneráveis mesmo quando recebem alimentação e cuidados de moradores, porque a ausência de uma tutela responsável mantém os animais desprotegidos.

O abandono também pressiona a capacidade de atendimento das organizações. Uma campanha de conscientização lançada pela OAB-GO apontou que os abrigos permanecem lotados e apresentou o lar temporário e o cuidado de animais comunitários como alternativas para quem não consegue assumir uma adoção definitiva.

Falta de recursos limita novos resgates

Com 40 animais sob seus cuidados e outros acompanhados nas ruas, Juliana afirma que precisa arcar com parte das despesas do próprio bolso. Os custos incluem alimentação, medicamentos, atendimento veterinário, vacinação, castração e manutenção dos espaços onde os resgatados permanecem.

“Falta tudo: espaço, recursos, apoio do poder público e adoção. Fazemos o que podemos, tirando do nosso próprio bolso”, relatou.

A situação enfrentada por Juliana se repete em outras instituições. Em julho de 2026, uma feira de adoção realizada em Goiânia apresentou animais mantidos por um abrigo que acolhe mais de 100 resgatados e possui despesas mensais superiores a R$ 20 mil.

A lotação dos abrigos e das casas de protetores cria um ciclo difícil de interromper. Sem adoções, os animais já resgatados continuam ocupando as vagas disponíveis. Ao mesmo tempo, novos casos de abandono surgem e não conseguem ser atendidos pela falta de estrutura.

Uma campanha para encontrar lares temporários para animais vítimas de maus-tratos em Goiânia prevê apoio veterinário e alimentação às famílias participantes. A medida busca ampliar a capacidade de acolhimento sem concentrar todos os animais em abrigos.

Adoção deve ser uma decisão responsável

Iniciativas voltadas à conscientização procuram aumentar a visibilidade dos cães sem raça definida. Goiânia já recebeu o primeiro Encontro de Vira-Latas, criado para valorizar esses animais, divulgar o trabalho dos abrigos e incentivar a adoção responsável.

Juliana afirma que os vira-latas são inteligentes, amorosos e capazes de desenvolver uma relação de lealdade com quem oferece uma oportunidade. A adoção, entretanto, não deve acontecer por impulso ou apenas como resultado da repercussão de uma publicação.

Antes de levar um animal para casa, a família precisa avaliar se possui tempo, espaço e condições financeiras para garantir alimentação, atendimento veterinário, segurança e cuidados durante toda a vida do pet.

“O amor de um animal resgatado ou adotado transcende o entendimento humano. É uma ligação profunda de amizade, lealdade e amor incondicional. As pessoas que adotam também são salvas, porque os animais resgatam em nós a pureza e a criança adormecida”, concluiu Juliana.

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