Eduardo Bilemjian, o fotógrafo armênio ignorado por Pedro Ludovico que registrou o nascimento de Goiânia
Eduardo Bilemjian chegou a Goiás em 1935 e registrou uma Goiânia que poucos conheceram: avenidas vazias, Praça Cívica em obras e os primeiros prédios da nova capital.
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Antes de Goiânia ter prédios altos, trânsito intenso e bairros espalhados por uma extensa área urbana, três grandes avenidas começavam a surgir no meio do Cerrado e convergiam para uma Praça Cívica ainda em construção. Algumas das imagens que permitem enxergar hoje aquele cenário foram feitas por Eduardo Bilemjian, fotógrafo armênio que desembarcou em Goiás em 1935 e transformou os primeiros anos da nova capital em memória visual.
Seu nome original era Yervant Bilemdjian. Refugiado das perseguições sofridas pelos armênios no antigo Império Otomano, passou pelo Líbano, chegou ao Brasil em 1926 e construiu uma nova vida em São Paulo. Anos depois, um anúncio visto por acaso na Estação da Luz mudaria novamente seu destino.
O cartaz oferecia terrenos e oportunidades em uma cidade que ainda estava sendo construída: Goiânia. Bilemjian vendeu o que possuía em São Paulo, inclusive o próprio estúdio fotográfico, e se mudou com a família para Goiás.
Durante apenas cinco anos de atuação profissional na nova capital, entre 1935 e 1940, ele registrou construções, avenidas, acontecimentos políticos e cenas cotidianas. Uma dissertação da Universidade Federal de Goiás dedicada à Coleção Eduardo Bilemjian o identifica como fotógrafo oficial da capital nesse período.
De uma infância de deslocamentos ao Brasil
Eduardo Bilemjian nasceu em 15 de setembro de 1907 em Ayntap, hoje Gaziantep, na Turquia. A infância coincidiu com o período do genocídio armênio, que provocou o deslocamento de sua família e marcou a trajetória de milhares de famílias armênias.
Os Bilemjian acabaram se estabelecendo em Baalbek, no Líbano. Foi ali que Eduardo, aos 15 anos, aprendeu fotografia, ofício que mais tarde se tornaria fundamental para documentar a formação de uma cidade a milhares de quilômetros de distância.
Em 1926, a família mudou-se novamente, desta vez para São Paulo. Eduardo trabalhou como auxiliar em um estúdio fotográfico até abrir o próprio negócio na Avenida São João, chamado Foto Paris.
Parecia que sua vida profissional estava estabelecida. Até que uma passagem pela Estação da Luz colocou Goiás no caminho.
Um cartaz na Estação da Luz mudou a história
Em 1935, Bilemjian e a esposa, Liberta, voltavam de uma viagem quando passaram pela Estação da Luz. Ali, o fotógrafo viu um cartaz anunciando a venda de lotes na nova capital que estava sendo construída no Centro-Oeste.
A propaganda de Goiânia fazia parte de uma estratégia para atrair moradores, investidores e trabalhadores. A cidade era apresentada como moderna, planejada e como oportunidade para quem estivesse disposto a começar uma nova vida no interior do país.
A escolha de uma nova capital também fazia parte de uma transformação política e econômica mais ampla em Goiás. O Mais Goiás já mostrou por que Goiânia foi escolhida para substituir a Cidade de Goiás como capital, processo que envolveu questões políticas, geográficas e sanitárias.
Bilemjian comprou a ideia literalmente. Vendeu o Foto Paris e os bens que possuía em São Paulo e, ainda em 1935, mudou-se com a família para Goiás.
Ele chegou a Goiânia sem querer continuar fotógrafo
Há uma ironia na história: o homem que se tornaria um dos principais responsáveis pela documentação visual da Goiânia nascente não pretendia continuar trabalhando com fotografia.
Ao chegar, Bilemjian queria atuar como comerciante. Encontrou, porém, poucas oportunidades e acabou adquirindo novamente uma câmera, fazendo trabalhos sob encomenda e retomando a antiga profissão.
Ele se estabeleceu em Campinas e abriu o Goiânia Foto, na Avenida 24 de Outubro. O bairro era então fundamental para a implantação da nova capital, pois já possuía população, comércio e infraestrutura enquanto Goiânia ainda saía das plantas.
A história de Campinas é anterior à própria Goiânia. O setor surgiu como povoado em 1810 e, depois de passar pelas categorias de arraial, vila e município, acabou incorporado à nova capital. O Mais Goiás contou como a antiga Campininha se tornou a “mãe” de Goiânia.
Foi de Campinas que Bilemjian passou a circular entre as obras da nova cidade, muitas vezes acompanhado de sua bicicleta, registrando aquilo que crescia diante de seus olhos.
A Goiânia fotografada por Bilemjian ainda estava surgindo

Uma das imagens mais emblemáticas foi feita em 1935, do alto do Palácio das Esmeraldas. Na fotografia aparecem as avenidas Tocantins, Goiás e Araguaia convergindo para a Praça Cívica quando grande parte da área central ainda permanecia praticamente vazia.
É uma Goiânia difícil de reconhecer para quem atravessa hoje o Centro.
O traçado monumental concebido nos primeiros projetos urbanos aparece nas fotografias antes da verticalização, do comércio intenso e da multiplicação dos automóveis. As imagens permitem acompanhar a materialização de uma cidade que, poucos anos antes, existia principalmente nos desenhos dos urbanistas.
O Mais Goiás reuniu fotografias antigas e atuais para mostrar o antes e depois do desenvolvimento urbano de Goiânia. O contraste ajuda a dimensionar a transformação registrada desde os primeiros fotógrafos da cidade.
Palácio, Grande Hotel e Praça Cívica passaram pela lente

Entre 1935 e o início de 1940, Bilemjian fotografou algumas das construções que se tornariam símbolos da capital. Documentos estudados pela UFG associam seu acervo a registros do Grande Hotel, do Lyceu, da Avenida Goiás, da Avenida 24 de Outubro, da Praça Cívica, de edifícios administrativos e de outras áreas em formação.
Boa parte desse cenário permanece incorporada à identidade arquitetônica da cidade. Atualmente, Goiânia possui um conjunto de 22 monumentos e edifícios Art Déco tombados pelo Iphan, concentrados principalmente na Praça Cívica, Avenida Goiás e outros pontos históricos, como mostrou reportagem do Mais Goiás sobre o patrimônio Art Déco da capital.
Um deles é o Grande Hotel, inaugurado em 1937. O prédio foi um dos símbolos da tentativa de apresentar Goiânia como uma cidade moderna e chegou a receber políticos, intelectuais e viajantes. A história completa do Grande Hotel foi reconstituída pelo Mais Goiás.
Bilemjian fotografou o dia em que Goiânia virou oficialmente capital

Em 23 de março de 1937, ocorreu um dos episódios mais importantes da história política da cidade. Pedro Ludovico Teixeira assinou o Decreto nº 1.816, que determinou a transferência definitiva da capital do Estado da Cidade de Goiás para Goiânia.
Bilemjian estava lá.
A fotografia da assinatura tornou-se um dos registros de maior destaque de sua produção. O original integra o acervo do Museu da Imagem e do Som de Goiás (MIS-GO), segundo a pesquisa da UFG.
Ele também produziu uma fotomontagem sobre o episódio, reunindo a Praça Cívica ainda em construção, Pedro Ludovico e a caneta utilizada na assinatura do decreto.
Não era apenas uma fotografia de autoridades. Era o registro do momento em que a cidade que ele havia escolhido dois anos antes passava formalmente a ocupar o lugar de capital de Goiás.
Ele coloria fotografias à mão
A atuação de Bilemjian também chama atenção pelas técnicas utilizadas.
Em uma época em que as imagens eram produzidas em preto e branco, o fotógrafo aplicava colorização manual em alguns trabalhos. Tintas transparentes eram colocadas diretamente sobre as fotografias com pincéis finos, em um processo delicado e demorado.
Bilemjian também experimentou a fotomontagem, combinando fotografias e elementos diferentes em uma única composição. A pesquisa da UFG identifica trabalhos nos quais ele utilizava inclusive autorretratos e construía novas cenas por meio da montagem.
São técnicas que ajudam a explicar por que seu trabalho ultrapassou o registro puramente burocrático das obras.
Ele não apenas documentava a cidade: interferia visualmente nas imagens e construía uma narrativa sobre aquela Goiânia que se apresentava como símbolo de modernidade.
O álbum de Goiânia que Pedro Ludovico não financiou

Bilemjian percebeu cedo que as fotografias feitas durante a construção da cidade poderiam se transformar em um documento histórico organizado.
Por isso, procurou Pedro Ludovico e pediu financiamento para produzir um álbum fotográfico sobre o desenvolvimento de Goiânia. A proposta não recebeu o apoio solicitado.
A negativa, porém, não encerrou o projeto pessoal do fotógrafo. Ele continuou registrando edifícios, eventos sociais, manifestações políticas e diferentes paisagens da capital.
Décadas depois, aquilo que não virou o álbum oficial imaginado por Bilemjian tornou-se fonte de pesquisa acadêmica e material de acervo museológico.
Ele foi mesmo o primeiro fotógrafo de Goiânia?
Eduardo Bilemjian é frequentemente apresentado como “o primeiro fotógrafo de Goiânia”. A documentação disponível, porém, recomenda uma formulação mais cuidadosa.
O projeto Pioneiros da Fotografia, desenvolvido a partir do MIS-GO, reuniu informações e imagens de 12 fotógrafos que registraram Goiânia entre 1933 e 1950. Bilemjian integra esse grupo de profissionais pioneiros, ao lado de outros responsáveis pela formação da memória fotográfica da cidade.
A própria dissertação da UFG o define como fotógrafo oficial da capital entre 1935 e 1940. Assim, em vez de estabelecer uma disputa sobre quem apertou primeiro o disparador de uma câmera em Goiânia, a documentação permite fazer uma afirmação historicamente mais sólida: Bilemjian foi um dos fotógrafos pioneiros e um dos principais responsáveis pelo registro visual dos primeiros anos da capital.
28 imagens estão no acervo público estudado pela UFG
Parte da produção de Eduardo Bilemjian ficou com os descendentes. Outra parte passou para o acervo público do MIS-GO, localizado no Centro Cultural Marieta Telles Machado, na Praça Cívica.
A coleção Bilemjian chegou ao museu no início dos anos 2000, durante o projeto dedicado aos pioneiros da fotografia. A pesquisa acadêmica identificou um conjunto de 28 imagens do fotógrafo dentro da instituição.
Isso significa que a preservação de sua obra hoje depende de duas memórias que se complementam: a familiar e a institucional.
As fotografias conservadas permitem estudar não apenas construções, mas as transformações urbanas, relações sociais e até ausências da narrativa oficial. A pesquisa da UFG observa, por exemplo, que autoridades frequentemente aparecem em destaque, enquanto trabalhadores responsáveis fisicamente pela construção da cidade podem surgir em posições secundárias.
É uma leitura que transforma as fotografias em algo maior do que simples ilustrações antigas.
A fotografia durou cinco anos; a memória atravessou décadas

Apesar da importância histórica que a fotografia lhe daria, Eduardo Bilemjian abandonou profissionalmente o ofício em 1940.
Segundo depoimento de sua esposa utilizado na pesquisa da UFG, o custo pesava. Materiais fotográficos precisavam ser encomendados de São Paulo, o transporte era demorado e as dificuldades logísticas aumentavam o preço do trabalho.
Bilemjian fez, enfim, aquilo que pretendia quando chegou a Goiás: tornou-se comerciante. Passou a trabalhar com produtos odontológicos e fotográficos e permaneceu vivendo em Goiânia.
Morreu em 23 de janeiro de 1991, aos 83 anos, em sua residência na Avenida Araguaia. É justamente uma das avenidas que havia registrado quando a cidade ainda começava a ganhar forma.
Um homem que chegou procurando futuro e acabou fotografando o passado
Há algo singular na trajetória de Eduardo Bilemjian. Ele não nasceu em Goiás, não chegou ao estado contratado para documentar uma capital e nem sequer pretendia continuar fotógrafo.
Era um imigrante que havia atravessado países e recomeços quando viu em São Paulo um anúncio prometendo futuro no Centro-Oeste. Mudou-se para uma cidade que praticamente começava do zero e, pela necessidade de trabalhar, voltou à câmera.
Foi assim que registrou avenidas vazias que depois receberiam milhares de carros, edifícios recém-erguidos que se tornariam patrimônio e uma Praça Cívica que ainda era canteiro de obras.
Hoje, Campinas é o bairro mais antigo da metrópole, o Centro passa por novas discussões de ocupação e preservação e a cidade tenta conservar os marcos daquele período. O Mais Goiás já mostrou como Campinas atravessou mais de dois séculos de transformações e também acompanha o debate atual sobre a requalificação do Centro de Goiânia.
Quase um século depois, as fotografias de Eduardo Bilemjian fazem o caminho inverso daquele anúncio que ele encontrou na Estação da Luz. O cartaz mostrava a ele uma cidade que prometia existir no futuro. Suas fotografias permitem que Goiânia, hoje, enxergue como era o próprio passado.