BRUTUS

Vizinhos contestam bombeiros e dizem que ‘Brutus’, cão morto por bombeiros, não tinha nada de bruto

Animal era considerado dócil e não tinha histórico de ataques, segundo frequentadores da região

Cão morto por bombeiro militar era cuidado por moradores (Foto: arquivo enviado ao Mais Goiás)

Conhecido por alguns moradores como “Brutus” e por outros como “Negão”, o cachorro morto por um bombeiro militar no estacionamento do Estádio Serra Dourada, na tarde de domingo (5), foi descrito como dócil e sociável. Ao Mais Goiás, pessoas que moram próximo ao local relataram que o animal não tinha histórico de ataques, pelo contrário, era querido na região. Eles contestam a versão oficial da corporação, que afirma que o agente agiu após ser atacado por um grupo de cães.

De acordo com o CBMGO, o militar, lotado no Batalhão Especializado de Operações com Produtos Perigosos (BEOPP), realizava atividade física quando foi cercado por cerca de cinco cães “aparentemente abandonados”. Segundo a corporação, ele sofreu múltiplas mordidas e efetuou um disparo em legítima defesa. O animal atingido não resistiu.

Cão era cuidado por moradores

Moradores da região, no entanto, afirmam que o cachorro vivia, desde o fim de 2025, nas imediações do Parque Flamboyant, onde era cuidado por frequentadores e protetores independentes. Segundo relatos, o animal apareceu inicialmente com uma ferida em um dos olhos e outros machucados, mas, ao longo do tempo, recebeu cuidados como alimentação regular, vermifugação e até banhos ocasionais. De grande porte e com hábito de viver solto, o cachorro chegou a despertar interesse de adoção, mas acabou se adaptando ao local, onde dormia com frequência em uma área de apoio e passou a ser acolhido pela comunidade.

“Ele era um cachorro comunitário. Todo mundo cuidava um pouquinho dele. Ele nunca rosnou e nem sequer latiu com ninguém que se aproximasse dele. Ele interagia com todos, adultos, crianças e inclusive outros cachorros de qualquer tamanho”, explicou Alessandra Rezende.

Segundo testemunhas, o animal circulava entre o parque, a Praça das Artes e nas proximidades do estádio, onde interagia com pessoas, crianças e outros cães. “Ele ficava só a paz lá. Brincava, descansava na grama, nunca brigou com ninguém, não rosnava, nada…”

Versão contestada

O advogado João Victor Rodrigues, que mora próximo ao estádio, afirma ser difícil acreditar que o Brutus tenha atacado o militar.

“Ele era muito brincalhão e gostava de seguir as pessoas para fazer companhia. Inclusive, vários policiais passavam do lado dele no parque, de farda, armados, às vezes até de moto ou viatura, e ele nunca seguiu, latiu ou atacou. Então, é difícil demais acreditar que ele tenha escolhido um bombeiro para atacar assim, do nada. Todo mundo que vai ao parque tem fotos e vídeos dele, pois ele se dava bem com todos”.

Moradores dizem ainda que não há confirmação de que outros cães participaram da suposta abordagem. “Não encontramos uma testemunha sequer que tenha visto mais de um cachorro. Todos dizem que era só o Brutus.”

Bombeiro continuou correndo após o suposto ataque, diz moradora

Outra moradora, que presenciou o momento após o disparo, relatou a cena. “Ontem eu estava na academia do prédio, que tem uma janela que dava para o local. Quando ouvimos os disparos e fomos olhar, o cachorro agonizou e o bombeiro, ele não parou a corrida. Ele foi em direção à saída. Só retornou quando os moradores começaram a gritar. Se ele tivesse machucado, ele não conseguiria correr”.

Ainda segundo relatos, o animal era conhecido inclusive por trabalhadores de uma obra próxima e frequentemente visto brincando com outros cães. Dias antes do ocorrido, Brutus teria sido atacado por outro cachorro, mas não reagiu de forma agressiva. “Inclusive foi atacado por um cachorro de coleira na quinta, mas só se defendeu, o dono resolveu a situação e ficou tudo bem”, contou João Victor.

Imagens feitas por moradores após o disparo circularam nas redes sociais e geraram repercussão. O caso dividiu opiniões e levantou questionamentos sobre a conduta do militar.

O CBMGO informou que o bombeiro foi encaminhado para avaliação médica e seguirá protocolos preventivos, incluindo profilaxia contra raiva. A corporação também destacou que há registros de ataques envolvendo cães errantes na região e o caso será apurado conforme os procedimentos legais.

Moradores e protetores independentes afirmam que pretendem buscar responsabilização. “Estamos indignados e vamos lutar até o fim por justiça.”