Sexta-feira, 23 de Outubro de 2026
HISTÓRIA DE GOIÂNIA

Primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas apitava jogos de futebol nas horas vagas

Venerando de Freitas Borges apitou partidas que marcaram o início do futebol na capital, incluindo confrontos entre Atlético e o antigo Corintians Goiano, na década de 1930

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito de Goiânia, durante registro histórico que integra a exposição dedicada à sua trajetória (Divulgação/Acervo da exposição)

O primeiro prefeito de Goiânia também tinha outra função: apitar partidas de futebol. Venerando de Freitas Borges, nomeado por Pedro Ludovico Teixeira em 1935, conciliou a administração da capital em construção com a arbitragem de jogos que reuniam centenas de moradores. Em 1938, chegou a comandar confrontos entre Atlético Goianiense e Corinthians Goiano, equipe que posteriormente passou a se chamar Goiânia Esporte Clube.

A história consta na biografia disponibilizada pela Câmara Municipal e ganha detalhes em uma pesquisa publicada na revista acadêmica Licere, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em dezembro de 2025. O estudo recupera registros dos jornais Correio Oficial e O Popular para reconstruir a formação do futebol goianiense entre 1936 e 1939.

Assinado pelos pesquisadores Jean Carlo Ribeiro, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), e Cleber Dias, da UFMG, o trabalho mostra que Venerando exerce a função de árbitro em um período no qual o futebol ainda passa por um processo de organização em Goiás. As partidas também revelam a rivalidade entre Campinas, antigo município incorporado à capital, e o novo núcleo urbano.

Primeiro prefeito apitou jogo em pista de aeroporto

Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito de Goiânia, também atuou como árbitro de futebol nos primeiros anos da capital (Reprodução/Acervo histórico)
Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito de Goiânia, também atuou como árbitro de futebol nos primeiros anos da capital (Reprodução/Acervo histórico)

Uma das partidas documentadas ocorre em maio de 1936, quando Goiânia ainda não havia recebido oficialmente a transferência da capital estadual. Na ocasião, duas equipes representam os moradores da nova cidade e de Campinas.

A falta de um campo apropriado leva os organizadores a utilizar a pista do aeródromo inaugurado no ano anterior. O terreno plano serve de espaço para o confronto, que tem Venerando de Freitas Borges como árbitro.

Segundo a pesquisa acadêmica, a partida reúne moradores, autoridades e apoiadores das atividades esportivas. A equipe que representa Goiânia vence o confronto, embora o estudo não informe o placar.

O episódio acontece antes da fundação do Atlético Goianiense, em 2 de abril de 1937, e mostra que a rivalidade entre as duas regiões já aparece nas atividades esportivas dos primeiros anos da cidade.

Campinas possuía uma história própria antes da construção da capital. O município já reunia comércio, instituições religiosas, escolas e espaços de convivência. A implantação de Goiânia, cujo núcleo ficava a aproximadamente cinco quilômetros dali, criou outra centralidade urbana e administrativa.

O futebol passou a expressar parte dessa relação. De um lado estavam os moradores de Campinas; de outro, servidores públicos, comerciantes e trabalhadores associados à construção da nova cidade.

Jogo apitado pelo prefeito terminou em confusão

Jogadores do Atlético Clube Goianiense em registro de 1937, período de formação do futebol na nova capital (Reprodução/Teles, 2005, via revista Licere/UFMG)
Jogadores do Atlético Clube Goianiense em registro de 1937, período de formação do futebol na nova capital (Reprodução/Teles, 2005, via revista Licere/UFMG)

Em 1938, o futebol já conta com dois representantes que disputam espaço na capital: o Atlético Clube Goianiense, fundado em Campinas, e o Corinthians Goiano Futebol Clube, criado por um grupo ligado ao novo centro urbano.

O Corinthians possui entre seus presidentes de honra nomes diretamente associados ao poder estadual, como Pedro Ludovico Teixeira, Jerônimo Coimbra Bueno e João Teixeira Álvares Júnior.

No fim de julho daquele ano, as duas equipes se enfrentam em Campinas, com Venerando de Freitas Borges responsável pela arbitragem.

A partida termina com vitória do Corinthians por 1 a 0. Na edição de 4 de agosto de 1938, O Popular registra o resultado e destaca a atuação do prefeito, que recebe elogios pela condução do confronto e pelo controle das jogadas violentas.

O problema aparece depois do apito final.

Ao deixar o campo na carroceria de um caminhão, jogadores da equipe vencedora são atingidos por pedras lançadas durante a passagem pelas ruas de Campinas. A confusão, relatada pela imprensa da época e recuperada pelos pesquisadores, demonstra que a rivalidade já ultrapassava as quatro linhas.

O futebol mobilizava comerciantes, dirigentes, autoridades e moradores dos dois núcleos urbanos. Os jogos passaram a funcionar também como espaços de afirmação das identidades de Campinas e da nova capital.

Prefeito voltou a apitar disputa pelo título da cidade


Registro histórico de abertura de estrada, com homens ao lado de maquinário e automóvel em trecho ainda sem pavimentação (Reprodução/Acervo histórico de Goiania)

Registro histórico de abertura de estrada, com homens ao lado de maquinário e automóvel em trecho ainda sem pavimentação (Reprodução/Acervo histórico de Goiania)

A participação de Venerando não se limita a uma partida isolada. Em dezembro de 1938, Atlético e Corinthians organizam uma série de confrontos para definir o campeão de Goiânia.

O regulamento estabelece três partidas, com possibilidade de uma quarta em caso de necessidade. Também determina regras para inscrição dos jogadores, escolha dos árbitros, recursos e julgamento de contestações.

O primeiro encontro ocorre em 11 de dezembro, no campo da Avenida Paranaíba, e termina com vitória do Corinthians Goiano.

Para o segundo confronto, marcado para 18 de dezembro, o treinador do Corinthians desiste de exercer a função de árbitro, conforme previa o regulamento. Venerando é escolhido para substituí-lo.

Desta vez, o Atlético vence e encerra a invencibilidade do adversário. Com uma vitória para cada equipe, o terceiro jogo fica marcado para 25 de dezembro, dia de Natal.

A rivalidade novamente provoca problemas. O Atlético vence a partida, mas o Corinthians contesta decisões da arbitragem e questiona a participação do goleiro atleticano na função de juiz, já que ele também era inscrito como jogador.

O Tribunal de Penas, comissão prevista no regulamento, analisa o protesto e anula o confronto. Sem acordo posterior entre as diretorias, os dois clubes acabam declarados campeões da cidade.

Em julho de 1939, o Corinthians Goiano passa a utilizar o nome Goiânia Esporte Clube, conforme registro de O Popular recuperado pela pesquisa acadêmica.

A participação de Venerando nesses episódios revela uma fase anterior à estrutura atual do futebol profissional, quando autoridades e integrantes da própria comunidade eram convocados para conduzir competições esportivas.

Quem foi Venerando de Freitas Borges?

Registro histórico de solenidade com autoridades, imagem que integra o acervo da exposição sobre Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito de Goiânia (Divulgação)
Registro histórico de solenidade com autoridades, imagem que integra o acervo da exposição sobre Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito de Goiânia (Divulgação)

Venerando nasce em Anápolis, em 22 de julho de 1907. Estuda em Campinas, quando a região ainda constitui um município independente, e posteriormente se muda para São Paulo, onde realiza estudos de Contabilidade.

De volta a Goiás, trabalha como professor e ingressa no jornalismo. A partir de 1930, escreve crônicas e artigos para periódicos. Também atua como diretor e redator-chefe de O Comércio, jornal que circula na antiga capital em 1934.

A aproximação com a administração pública ocorre durante a transferência da capital para Goiânia. Em novembro de 1935, aos 28 anos, é nomeado prefeito pelo interventor Pedro Ludovico Teixeira.

Permanece no comando municipal até novembro de 1945, período que coincide com a implantação da nova cidade e a estruturação dos primeiros serviços públicos.

A escolha de Venerando ocorre por nomeação, e não por eleição popular. O primeiro prefeito de Goiânia eleito diretamente é Eurico Viana, que assume o cargo em novembro de 1947, conforme a galeria oficial da Prefeitura.

Venerando retorna à administração municipal em janeiro de 1951, dessa vez eleito pelo PSD. Seu segundo mandato segue até janeiro de 1955.

Além da Prefeitura, ocupa a Secretaria Estadual da Fazenda, exerce dois mandatos de deputado estadual, entre 1955 e 1963, e torna-se conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO). Em 1967, chega à presidência da Corte.

Também participa da Associação Goiana de Imprensa, da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Publica os livros Dobras do Tempo, em 1981, e Samburá, em 1986.

Do campo de futebol ao nome do Paço Municipal

Venerando morre em Goiânia, em 16 de janeiro de 1994, aos 86 anos, e é sepultado no Cemitério Santana.

Seu nome permanece associado à sede administrativa da Prefeitura, no Park Lozandes, denominada Palácio das Campinas Venerando de Freitas Borges. Uma estátua de bronze instalada na entrada do Paço Municipal também homenageia o primeiro prefeito.

Em outubro de 2025, uma exposição na antiga Estação Ferroviária reúne mais de 200 peças relacionadas à sua trajetória. Entre os objetos apresentados estão fotografias, documentos pessoais, mapas da antiga Goiânia e móveis utilizados em seu gabinete.

O acervo ajuda a recuperar a atuação política e administrativa de Venerando. Já os registros esportivos revelam outra parte de sua história: enquanto Goiânia construía suas primeiras ruas, edifícios e instituições, o homem responsável pela administração municipal também entrava nos campos de terra para apitar partidas de futebol.

Uma ligação entre política, esporte e formação urbana que permanece documentada nas páginas dos jornais da década de 1930.

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