Terça-feira, 15 de Setembro de 2026
MEMÓRIA DE GOIÂNIA

Fonte inesgotável de conhecimento sobre cultura de Goiás, Bariani Ortêncio foi goleiro do Atlético e dono de loja de discos

Bariani Ortêncio chegou a Goiânia aos 15 anos, virou goleiro do Atlético Goianiense no dia seguinte e construiu uma trajetória que o transformou em escritor, folclorista e uma das referências na preservação da memória e da cultura de Goiás

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Bariani Ortêncio durante momento de leitura, em registro que remete à trajetória dedicada à literatura, à memória e à cultura de Goiás (Foto: Acervo pessoal)

Waldomiro Bariani Ortêncio chegou a Goiânia em 1938, aos 15 anos, depois de uma viagem de caminhão que podia consumir até dez dias. Desembarcou em um sábado. No domingo, ouviu a movimentação de uma partida entre Atlético Goianiense e Anápolis que ainda não havia começado porque faltava o goleiro. O adolescente recém-chegado se aproximou e avisou que sabia jogar na posição. Acabou colocado no gol. 

A cena seria apenas uma boa história dos primeiros anos da capital se o personagem não fosse Bariani Ortêncio. Aquele garoto viria a se tornar um dos principais nomes da cultura goiana, com mais de 50 livros publicados e uma trajetória dedicada à literatura, ao folclore, à música, à culinária e à preservação da memória de Goiás. Morreu em 2023, aos 100 anos, depois de acompanhar praticamente toda a transformação de Goiânia. 

Entre uma coisa e outra, foi goleiro do Atlético, abriu um comércio que marcou Campinas, escreveu obras como A Cozinha GoianaSertões sem Fim e Dicionário do Brasil Central, integrou instituições culturais e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás. A UFG justificou a honraria pela atuação de Bariani na formação cultural e, especialmente, na preservação da cultura popular brasileira. 

Um garoto de 15 anos chega a uma capital ainda em construção

Bariani Ortêncio posa com camisas e publicações históricas do Atlético Goianiense, clube pelo qual atuou como goleiro nos primeiros anos em Goiânia (Foto: Atlético Goianiense)
Bariani Ortêncio posa com camisas e publicações históricas do Atlético Goianiense, clube pelo qual atuou como goleiro nos primeiros anos em Goiânia (Foto: Atlético Goianiense)

Bariani nasceu em Igarapava, no interior de São Paulo, em 1923. A família trabalhava com uma serraria e procurava uma cidade nova onde pudesse instalar o negócio. Segundo o próprio escritor, um jornal de Anápolis chegou às mãos do avô com notícias sobre a construção de Goiânia e uma fotografia de Venerando de Freitas Borges, então um jovem prefeito da capital. A decisão foi tomada: a família seguiria para Goiás. 

Viajar não era simples. Bariani recordava que um caminhão carregado podia levar entre oito e dez dias para completar o percurso. Goiânia ainda não tinha ligação ferroviária e estava em processo de implantação. A família decidiu se estabelecer em Campinas, que já tinha igreja, comércio e vida urbana mais consolidada. 

Ele chegou num sábado.

No dia seguinte, ouviu um “barulho danado”.

Era futebol.

O jogo estava parado porque faltava goleiro

Atlético Goianiense e Anápolis deveriam se enfrentar, mas havia um problema: o goleiro não tinha aparecido e a partida estava atrasada.

Bariani havia sido reserva da posição em São Paulo. Aos 15 anos, aproximou-se e disse que também era goleiro.

O técnico era João Teixeira, o Paratéca. Quem apitava a partida era Venerando de Freitas Borges, então prefeito de Goiânia. Depois de ouvir que aquele adolescente tinha acabado de chegar de São Paulo, Paratéca decidiu colocá-lo em campo e anunciou: “o Paulistinha vai jogar aqui no gol”. 

O apelido ficou.

Bariani continuou ligado ao Atlético e jogou até 1948. Décadas depois, ainda era chamado de Paulistinha pelos moradores antigos de Campinas. 

O apelido do campo virou endereço conhecido de Campinas

Sete anos depois daquela partida, em 1945, Bariani abriu um estabelecimento comercial e escolheu um nome que vinha diretamente daquele primeiro domingo em Goiânia: Bazar Paulistinha. 

A loja de discos funcionou em Campinas e se tornou um ponto conhecido da vida cultural e comercial do bairro. Bariani conciliou o comércio com outras atividades. Foi professor de matemática, jornalista, compositor, fazendeiro, industrial e minerador. 

Mas seria outra atividade que transformaria definitivamente seu lugar na história de Goiás: escrever e registrar aquilo que via ao redor.

Mais de 50 livros para registrar um Goiás que estava mudando

Bariani Ortêncio durante apresentação na Universidade Federal de Goiás (UFG), com obras que ajudam a registrar a cultura, a culinária e a memória de Goiás (Foto: Acervo/UFG)
Bariani Ortêncio durante apresentação na Universidade Federal de Goiás (UFG), com obras que ajudam a registrar a cultura, a culinária e a memória de Goiás (Foto: Acervo/UFG)

Bariani publicou mais de 50 livros. Sua produção passou por contos, folclore, linguagem, culinária, costumes e memória. Entre os títulos estão O que foi pelo sertãoSertões sem FimA Cozinha Goiana e Dicionário do Brasil Central

A Cozinha Goiana, publicada em 1967, tornou-se referência para o registro da formação da culinária do Estado. Bariani pesquisou influências indígenas, africanas e portuguesas sobre os hábitos alimentares de Goiás. 

Também participou da vida cultural de diferentes maneiras. Foi membro da Academia Goiana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e de entidades ligadas ao folclore. A UFG o descreve como escritor, folclorista e compositor e registra que ele recebeu diferentes prêmios literários ao longo da carreira. 

Da partida improvisada ao Doutor Honoris Causa

CBariani Ortêncio durante cerimônia acadêmica em homenagem à trajetória dedicada à cultura e à memória de Goiás (Foto: Reprodução/YouTube)
Bariani Ortêncio durante cerimônia acadêmica em homenagem à trajetória dedicada à cultura e à memória de Goiás (Foto: Reprodução/YouTube)

Em 2013, a Universidade Federal de Goiás entregou a Bariani o título de Doutor Honoris Causa. A justificativa oficial citou sua “atuação decisiva” na formação humana e cultural e na preservação da cultura popular. 

Não era uma homenagem apenas ao escritor.

Era o reconhecimento de um homem que chegou quando Goiânia ainda tentava se tornar cidade e passou décadas registrando o que acontecia à medida que aquela capital crescia.“Eu vi Goiânia nascer, eu vi Goiânia crescer”, era uma das frases associadas a Bariani por quem acompanhava seu trabalho. Em entrevista ao Mais Goiás, ele descreveu a dimensão da transformação de maneira ainda mais simples: “Goiânia era pequena e hoje é um mundo.”

Ele viu Goiânia nascer e decidiu não deixar sua memória desaparecer

Bariani Ortêncio em seu escritório, cercado por livros, documentos e homenagens acumuladas ao longo da trajetória dedicada à cultura e à memória de Goiás (Foto: Reprodução/Facebook)
Bariani Ortêncio em seu escritório, cercado por livros, documentos e homenagens acumuladas ao longo da trajetória dedicada à cultura e à memória de Goiás (Foto: Reprodução/Facebook)

Bariani morreu em dezembro de 2023, aos 100 anos. Deixou seis filhos, dezenas de obras e um acervo construído ao longo de praticamente toda a história de Goiânia. 

Sua vida começou na capital com uma coincidência difícil de inventar.

Um adolescente chega de caminhão a uma cidade ainda em construção. No dia seguinte, encontra um jogo parado. Falta goleiro. Ele levanta a mão, entra em campo e ganha o apelido que carregaria pelo resto da vida.

Mas o que torna essa história importante não é o fato de Bariani ter defendido o gol do Atlético.

É saber quem estava naquele gol.

Era um dos homens que, nas décadas seguintes, ajudaria Goiás a guardar a própria memória.

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