Imperador do Divino mantinha tradição de 100 anos de levar bandeiras aos Pireneus
Segundo a Prefeitura de Pirenópolis, costume familiar foi iniciado pelo bisavô de José Adriano, fundador da Festa do Morro em 1927
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O imperador da Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis em 2026, José Adriano Pompeo de Pina Jayme, mantinha uma tradição familiar centenária de levar bandeiras aos três picos dos Pireneus. Segundo informações da prefeitura de Pirenópolis, o costume começou com o bisavô dele, o comendador Christóvam José de Oliveira, responsável pela criação da Festa do Morro em 1927.
José Adriano, de 56 anos, participava da 100ª edição da Romaria em Louvor à Santíssima Trindade dos Pireneus quando sofreu um acidente e morreu nesta sexta-feira (31). Em nota, a prefeitura informou que ele realizava a colocação das bandeiras como parte da tradição transmitida entre as gerações da família. Conforme relatos atribuídos a testemunhas, ele teria colocado os estandartes nos dois primeiros picos e seguia para o terceiro, quando escorregou e sofreu a queda.
O comunicado não identifica as testemunhas nem informa quem acompanhava o imperador no momento exato do acidente. Até o fechamento desta reportagem, a assessoria de imprensa da prefeitura de Pirenópolis ainda não sabia informar se a programação da Festa do Morro teria continuidade após o acidente.
A origem da Festa do Morro, a atuação do comendador Christóvam José de Oliveira e o simbolismo religioso dos três picos estão documentados em registros oficiais, estudos acadêmicos e fontes culturais de Pirenópolis. A informação de que José Adriano era bisneto do fundador e mantinha especificamente a colocação das bandeiras consta no material preliminar repassado pela prefeitura.
Três picos representam a Santíssima Trindade
A Festa do Morro teve início em 1927, quando Christóvam José de Oliveira e familiares começaram uma celebração religiosa no alto da Serra dos Pireneus. Os três picos passaram a representar o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Segundo o portal de turismo de Pirenópolis, Christóvam era proprietário das terras onde a celebração começou. Os descendentes da família mantêm a realização anual durante a lua cheia de julho.
Os romeiros percorrem mais de 20 quilômetros desde a Igreja do Bonfim, em Pirenópolis, até a base dos picos. A programação inclui missas, terços, novenas, procissões, orações e cantorias. Parte dos participantes chega com antecedência e permanece acampada durante vários dias.
A associação entre os três picos e a Santíssima Trindade transformou a formação natural em parte dos ritos da romaria. A paisagem passou a representar as três pessoas da doutrina cristã: Deus Pai, Deus Filho e Espírito Santo.
Um estudo publicado pela Revista Caminhos, da PUC Goiás, confirma que a Romaria da Santíssima Trindade ocorre anualmente desde 1927. A pesquisa analisa como o ponto mais alto da Serra dos Pireneus adquiriu significado religioso e passou a reunir natureza, devoção e memória coletiva.
Primeira missa ocorreu em altar improvisado
O portal oficial Parques de Goiás informa que a primeira missa no alto da Serra dos Pireneus ocorreu em 1927, em um altar improvisado. A iniciativa de construir uma capela permanente também partiu do comendador Christóvam José de Oliveira.
A primeira estrutura de madeira foi erguida em 1932 e permaneceu no local até 1950, quando foi destruída por uma tempestade. Uma segunda capela, construída em alvenaria, foi consumida por um incêndio em 1983.
A comunidade reconstruiu o templo em 1984. A capela atual permanece no Parque Estadual dos Pireneus e recebe as celebrações ligadas à Santíssima Trindade.
O Pico dos Pireneus possui 1.385 metros de altitude e corresponde ao segundo ponto mais alto de Goiás. A capela fica no topo do principal pico, com acesso por uma trilha de aproximadamente 600 metros.
O acidente com José Adriano, porém, ocorreu em outro ponto. O Corpo de Bombeiros confirmou ao Mais Goiás que ele foi localizado em um dos picos que formam a Santíssima Trindade, em uma área sem acesso à visitação.
Tradição atravessa gerações
A continuidade familiar da Festa do Morro não se limita à colocação das bandeiras. Os descendentes do fundador participam da organização das missas, dos terços, dos acampamentos e das demais atividades da romaria.
Na edição centenária, Duília de Oliveira, neta de Christóvam José de Oliveira, ocupa a função de festeira ao lado do marido, Edmar Carvalho. O ciclo preparatório começou em novembro de 2025, com celebrações mensais na Capela Nossa Senhora da Abadia, e avançou até a programação principal de 2026.
José Adriano estava no Parque Estadual dos Pireneus acompanhado de familiares e outros romeiros. Conforme as informações preliminares da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad), ele teria se afastado sozinho.
A família começou a procurá-lo depois de perceber que ele permanecia ausente. A Semad não informou quanto tempo se passou até que José Adriano fosse encontrado.
Equipes do Corpo de Bombeiros e um helicóptero foram mobilizados para o atendimento, mas o imperador não resistiu. As autoridades ainda não divulgaram a dinâmica completa do acidente.
Festa do Morro é patrimônio cultural de Goiás
A Romaria em Louvor à Santíssima Trindade — Festa do Morro dos Pireneus recebeu, em março de 2024, o reconhecimento de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Goiás. O título foi instituído pela Lei Estadual nº 22.569.
Segundo a Assembleia Legislativa de Goiás, o reconhecimento busca preservar a memória, garantir a continuidade da manifestação e valorizar a importância histórica, cultural e religiosa da romaria.
A Associação dos Romeiros dos Pireneus, criada em 2016, participa da preservação da festa ao lado da paróquia e da administração do parque. A entidade atua na manutenção dos ritos e na conciliação entre a presença dos romeiros e as normas ambientais da unidade de conservação.
José Adriano foi sorteado imperador
José Adriano havia sido sorteado para ocupar o posto de imperador da Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis em 2026. A função coloca o festeiro no centro da preparação dos terços, folias, missas, cortejos e demais atividades da celebração.
Em entrevista concedida ao Mais Goiás em abril, José Adriano falou sobre a devoção e o trabalho necessário para preparar os festejos.
“Dá forças para gente, que somos devotos, de fazer essa festa que é grande e trabalhosa”, afirmou ao comentar a realização do primeiro terço dos cavaleiros na casa dele.
A Festa do Divino e a Festa do Morro são celebrações diferentes, mas integram o calendário religioso e cultural de Pirenópolis. As duas manifestações mobilizam famílias responsáveis por transmitir funções, costumes e ritos entre gerações.