‘Até a máfia tem ética’: 10 filmes que ajudam a entender a frase de Gilmar Mendes
De O Poderoso Chefão a Donnie Brasco, produções mostram como organizações criminosas criam códigos próprios de lealdade, silêncio, hierarquia e punição
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“Até a máfia tem ética. É preciso ter decência.”
A frase saiu do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (15), em uma das sessões mais tensas da Corte nos últimos anos. O autor foi o decano Gilmar Mendes, durante o julgamento que discutia a possibilidade de abertura de investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes a partir das apurações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco Master. No centro do embate estava também a atuação de André Mendonça na condução do caso.
Gilmar direcionou críticas a Mendonça e afirmou que a condução dos processos relacionados ao Banco Master apresentava, em sua avaliação, “inequívoco viés político-eleitoral”. Ao falar sobre a forma como informações envolvendo integrantes do Judiciário teriam sido tratadas, o ministro ampliou a comparação e recorreu diretamente ao vocabulário associado às organizações mafiosas.
“Já disse isso em outro momento: até a máfia tem ética. É preciso ter decência, não se comporta desta forma”, afirmou Gilmar. Na sequência, acrescentou que um tribunal que admitisse esse tipo de situação deixaria de deliberar com liberdade.
A referência à máfia não terminou aí.
Gilmar também empregou a palavra italiana omertà, historicamente associada ao código de silêncio da máfia siciliana. Ao criticar o que considerava tratamento desigual de informações referentes a diferentes magistrados, falou em um “jogo de omertà, de máfia” e sustentou que a gravidade de uma informação não poderia variar de acordo com o nome do magistrado atingido ou com o tribunal ao qual ele pertence.
O ministro ainda defendeu que uma investigação parcial seria uma investigação viciada e relacionou sua crítica ao princípio da colegialidade do Supremo. Mendonça reagiu às acusações durante a sessão, negou agir com finalidade político-eleitoral e classificou as afirmações de Gilmar como levianas. Em determinado momento do confronto, pediu que o colega não apontasse o dedo para ele e afirmou que merecia respeito.
Foi nesse cenário que uma expressão aparentemente saída de um roteiro de Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese entrou no debate do Supremo: até a máfia tem regras.
A comparação chama atenção porque toca em um elemento central da história das organizações mafiosas — e também de sua representação no cinema. Máfias não são instituições éticas no sentido moral, filosófico ou jurídico. São organizações criminosas. Mas sua sobrevivência historicamente depende da criação de normas internas capazes de disciplinar seus próprios integrantes.
Palavra dada, lealdade, respeito à hierarquia, proteção do grupo, pagamento de dívidas, divisão de territórios, silêncio diante das autoridades e punição de quem rompe acordos aparecem repetidamente como elementos desse universo.
É uma espécie de ordenamento paralelo.
Quem pertence ao grupo precisa saber quem manda, a quem deve responder, quais informações pode revelar e quais fronteiras não deve ultrapassar. Uma organização clandestina não dispõe dos mesmos mecanismos formais usados por instituições legais para resolver conflitos. Por isso, confiança, reputação, silêncio e ameaça de punição tornam-se instrumentos para manter a estrutura funcionando.
O exemplo mais conhecido é justamente a omertà mencionada por Gilmar Mendes.
Associada historicamente à Cosa Nostra siciliana, a expressão descreve o dever de silêncio diante do Estado e a rejeição à cooperação com autoridades. Para uma organização criminosa, entregar outro integrante à polícia não representa simplesmente fornecer uma informação: significa romper um pacto que sustenta a própria existência daquele grupo.
O cinema transformou essa lógica em algumas das cenas mais conhecidas de sua história.
Em O Poderoso Chefão, um favor cria uma dívida que algum dia deverá ser paga. Em Os Bons Companheiros, falar com a polícia significa atravessar uma fronteira decisiva. Em Donnie Brasco, quem apresenta um novo integrante passa a responder por ele. Em O Irlandês, a ordem da organização pode se sobrepor até mesmo à amizade.
São histórias nas quais assassinos, extorsionários e criminosos exigem dos próprios parceiros aquilo que eles mesmos negam às vítimas: lealdade, compromisso, palavra e respeito às regras estabelecidas.
Essa é a contradição que torna a frase pronunciada no STF tão cinematográfica.
Dizer que “até a máfia tem ética” não significa transformar criminosos em exemplos morais. A comparação funciona porque evidencia justamente o oposto: se até estruturas construídas fora da lei estabelecem códigos mínimos para regular a relação entre seus integrantes, a quebra de regras dentro de uma instituição formal adquire peso ainda maior na crítica de quem utiliza essa metáfora.
E Hollywood explora essa contradição há mais de meio século.
De Don Vito Corleone aos mafiosos reais retratados em O Traidor, alguns dos maiores filmes sobre crime organizado mostram que poder clandestino também depende de regras — e mostram, principalmente, o que acontece quando alguém decide quebrá-las.
Confira 10 filmes sobre a máfia que ajudam a entender a comparação feita no plenário do STF e os códigos de silêncio, lealdade, hierarquia e traição que o cinema transformou em clássicos.
1. O Poderoso Chefão — 1972

Poucos filmes transformaram o conceito de “código da máfia” em algo tão conhecido quanto O Poderoso Chefão, dirigido por Francis Ford Coppola.
A família Corleone vive de atividades criminosas, mas Don Vito Corleone constrói sua autoridade sobre um conjunto rígido de regras. Favor recebido significa favor devido. A palavra empenhada possui valor. A estrutura familiar precisa ser respeitada. Uma negociação precisa obedecer à hierarquia existente entre as famílias.
É uma organização baseada em crimes, mas que não funciona sem previsibilidade interna.
Esse talvez seja o ponto mais interessante para compreender a frase de Gilmar Mendes. O filme mostra que uma organização pode agir contra a lei e, simultaneamente, exigir que seus integrantes obedeçam a um conjunto próprio de normas.
A famosa reunião entre as famílias mafiosas deixa isso particularmente evidente. Até adversários que acabaram de travar uma guerra precisam sentar à mesa e estabelecer regras para impedir uma destruição generalizada.
Don Corleone entende que um sistema no qual ninguém cumpre a própria palavra deixa de funcionar.
O código mostrado pelo filme: palavra, reciprocidade, família, hierarquia e respeito aos acordos.
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton
Duração: 2h55
Onde assistir: no Brasil, o filme está disponível por assinatura no Paramount+, além de opções de aluguel ou compra digital.
Assista ao trailer oficial: O Poderoso Chefão — trailer oficial na Apple TV
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2. O Poderoso Chefão: Parte II — 1974

Se o primeiro filme apresenta as regras, a continuação mostra o preço de quebrá-las.
Michael Corleone assumiu o comando da família e passa a administrar uma organização muito maior do que aquela comandada pelo pai. O poder cresceu, mas a confiança diminuiu.
É nesse cenário que surge uma das maiores questões do filme: o que acontece quando a traição parte da própria família?
Fredo Corleone ultrapassa uma fronteira considerada essencial dentro daquele universo. Para Michael, a questão deixa de ser apenas empresarial. A traição destrói aquilo que sustentava a estrutura de confiança da família.
O filme mostra uma lógica recorrente nas organizações mafiosas retratadas pelo cinema: determinados crimes contra pessoas externas ao grupo são tratados como parte do negócio, enquanto a traição interna ocupa posição quase imperdoável.
A moralidade convencional é invertida, mas as regras existem.
O código mostrado pelo filme: lealdade absoluta e punição da traição.
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Robert Duvall, Diane Keaton e John Cazale
Duração: 3h22
Onde assistir: Paramount+ e canais associados ao serviço. Também há opções de aluguel e compra digital no Brasil.
Assista ao trailer oficial: O Poderoso Chefão: Parte II — trailer oficial na Apple TV
3. Os Bons Companheiros — 1990

Martin Scorsese apresenta a máfia sem a solenidade dos Corleone.
Em Os Bons Companheiros, acompanhamos Henry Hill desde a adolescência, quando ele olha para os mafiosos de seu bairro e enxerga dinheiro, respeito e poder.
Aos poucos, porém, o espectador conhece as regras daquele universo.
Existe uma maneira correta de apresentar alguém. Existe uma hierarquia entre os integrantes. Existem percentuais que precisam ser pagos aos superiores. Existem pessoas que podem tomar determinadas decisões e outras que não podem.
Acima de tudo, existe o silêncio.
A estrutura depende da certeza de que seus integrantes não procurarão a polícia quando surgir um problema. Quando Henry rompe esse princípio, sua relação com o grupo muda definitivamente.
O filme também mostra que os códigos começam a desaparecer quando medo, drogas, ganância e desconfiança tomam conta da organização.
Sem confiança, o grupo passa a eliminar os próprios integrantes.
O código mostrado pelo filme: silêncio, hierarquia, divisão dos ganhos e fidelidade ao grupo.
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco e Paul Sorvino
Duração: 2h25
Onde assistir: Prime Video e HBO Max no Brasil, além de aluguel ou compra em plataformas digitais.
Assista ao trailer oficial: Os Bons Companheiros — trailer oficial na Apple TV
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4. Donnie Brasco — 1997

Donnie Brasco talvez seja um dos filmes mais importantes da lista para compreender como funciona a responsabilidade dentro de uma organização mafiosa.
Johnny Depp interpreta Joseph Pistone, agente do FBI que assume a identidade de Donnie Brasco e consegue penetrar na máfia nova-iorquina.
Ele se aproxima de Lefty Ruggiero, vivido por Al Pacino.
Lefty não apenas apresenta Donnie ao grupo. Ele passa a responder por ele.
Esse detalhe é fundamental.
Na lógica mostrada pelo filme, introduzir alguém dentro da organização significa colocar a própria reputação em jogo. Se aquela pessoa for um policial ou um informante, quem garantiu sua entrada também poderá sofrer as consequências.
Quando o espectador percebe isso, a relação entre Lefty e Donnie ganha outra dimensão.
O agente sabe que cumprir sua missão pode significar condenar justamente o homem que confiou nele.
O código mostrado pelo filme: quem garante a entrada de alguém também responde por essa pessoa.
Direção: Mike Newell
Elenco: Johnny Depp, Al Pacino, Michael Madsen, Bruno Kirby e Anne Heche
Duração: 2h07
Onde assistir: atualmente está disponível para aluguel ou compra digital no Brasil, incluindo Apple TV e Amazon Video.
Assista ao trailer oficial: Donnie Brasco — trailer na página oficial da Apple TV
5. Cassino — 1995

Em Cassino, Martin Scorsese mostra que o crime organizado também precisa de administração.
Sam “Ace” Rothstein recebe a missão de administrar um cassino em Las Vegas. O objetivo é simples: fazer o dinheiro circular sem chamar atenção desnecessária.
Existe contabilidade. Existe hierarquia. Existem responsáveis por recolher dinheiro. Existem pessoas encarregadas de garantir que determinadas regras sejam respeitadas.
O sistema funciona enquanto cada integrante permanece dentro de sua função.
O problema surge quando Nicky Santoro, personagem de Joe Pesci, começa a ignorar os limites impostos pela própria organização.
A violência excessiva chama atenção. A exposição pública aumenta. A polícia se aproxima.
O filme apresenta uma regra fundamental das organizações clandestinas: sobreviver exige discrição.
Não basta ganhar dinheiro. É necessário impedir que o próprio comportamento coloque toda a estrutura em risco.
O código mostrado pelo filme: discrição, disciplina e respeito à divisão de funções.
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone e Joe Pesci
Duração: 2h58
Onde assistir: disponível para aluguel ou compra digital no Apple TV e Amazon Video.
Assista ao trailer: Cassino — trailer na página oficial da Apple TV
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6. O Irlandês — 2019

Em O Irlandês, Scorsese volta ao tema décadas depois e apresenta uma visão muito menos sedutora do mundo mafioso.
Frank Sheeran, interpretado por Robert De Niro, constrói sua carreira fazendo serviços para a família Bufalino.
Seu principal atributo não é apenas saber matar.
É saber obedecer.
Sheeran compreende que perguntas demais podem ser perigosas e que determinadas ordens precisam ser cumpridas mesmo quando envolvem pessoas próximas.
A relação com Jimmy Hoffa, interpretado por Al Pacino, coloca esse princípio à prova.
O filme mostra o peso de uma vida baseada em lealdades absolutas. Quando as ordens da organização entram em conflito com amizade e afeto, Sheeran precisa escolher a qual código continuará obedecendo.
A resposta produz consequências que permanecem até a velhice.
O código mostrado pelo filme: obedecer à organização mesmo quando a ordem entra em conflito com vínculos pessoais.
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Harvey Keitel
Duração: 3h29
Onde assistir: Netflix.
Assista ao trailer oficial: O Irlandês — trailer oficial da Netflix Brasil
7. O Traidor — 2019

Se a discussão é sobre códigos mafiosos, poucos títulos são tão adequados quanto O Traidor, de Marco Bellocchio.
A produção acompanha Tommaso Buscetta, integrante da Cosa Nostra que rompeu um dos princípios mais conhecidos da máfia siciliana: a omertà.
O termo está relacionado ao dever de silêncio e à proibição de colaboração com as autoridades.
Buscetta decide falar.
Sua colaboração com o juiz Giovanni Falcone ajudou a expor a estrutura da Cosa Nostra e alterou o enfrentamento à organização criminosa italiana.
Dentro da lógica mafiosa, porém, ele deixou de ser apenas um integrante descontente. Tornou-se um traidor.
O filme mostra como organizações criminosas conseguem criar sistemas normativos próprios. Para o Estado, colaborar com a Justiça pode significar fornecer informações importantes. Para a organização clandestina, a mesma atitude representa a violação máxima de seu código.
O código mostrado pelo filme: omertà — silêncio diante das autoridades.
Direção: Marco Bellocchio
Elenco: Pierfrancesco Favino, Maria Fernanda Cândido e Luigi Lo Cascio
Duração: 2h31
Onde assistir: disponível pelo Telecine Amazon Channel e também para aluguel ou compra na Apple TV.
Assista ao trailer oficial: The Traitor — trailer oficial da Sony Pictures Classics
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8. Era Uma Vez na América — 1984

Sergio Leone acompanha décadas da relação entre homens que começam cometendo pequenos delitos nas ruas de Nova York e chegam ao crime organizado.
O centro da narrativa não é apenas dinheiro.
É confiança.
Noodles, personagem de Robert De Niro, constrói sua vida em torno de amizades iniciadas ainda na infância. As relações mudam quando poder, dinheiro e ambição entram em cena.
É justamente por isso que a traição assume papel tão importante.
Em organizações clandestinas, contratos formais possuem alcance limitado. O funcionamento depende de confiança pessoal, reputação e compromissos assumidos entre os integrantes.
Quando esses compromissos deixam de existir, toda a estrutura pode desaparecer.
O código mostrado pelo filme: confiança entre integrantes e cumprimento dos pactos construídos dentro do grupo.
Direção: Sergio Leone
Elenco: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern e Joe Pesci
Duração: 3h49
Onde assistir: Telecine Amazon Channel no Brasil, além de aluguel ou compra pela Apple TV.
Assista ao trailer oficial: Era Uma Vez na América — trailer oficial
9. Os Intocáveis — 1987

Os Intocáveis muda o ponto de vista.
Em vez de acompanhar principalmente os integrantes da organização criminosa, o filme coloca o agente Eliot Ness diante da estrutura comandada por Al Capone.
A produção ajuda a entender outro aspecto do poder mafioso: organizações criminosas não dependem apenas de violência.
Dependem de relações.
Capone mantém influência porque possui pessoas dispostas a obedecer, intermediários, operadores e uma rede construída sobre dinheiro, medo e compromissos.
Brian De Palma apresenta esse sistema e, paralelamente, cria outro código de lealdade dentro da equipe formada por Ness.
A disputa passa a ocorrer entre dois grupos com regras internas distintas.
O código mostrado pelo filme: fidelidade ao grupo, silêncio e proteção da estrutura.
Direção: Brian De Palma
Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Robert De Niro e Andy García
Duração: 1h59
Onde assistir: Paramount+ e opções de aluguel digital.
Assista ao trailer oficial: Os Intocáveis — trailer oficial na Apple TV
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10. Estrada para Perdição — 2002

Estrada para Perdição talvez seja o filme desta lista que melhor transforma o código mafioso em conflito familiar.
Tom Hanks interpreta Michael Sullivan, homem que trabalha como assassino para John Rooney, chefe de uma organização criminosa interpretado por Paul Newman.
Rooney trata Sullivan quase como um filho.
O problema começa quando o filho biológico de Rooney coloca em risco essa estrutura.
Surge então um dilema clássico das histórias sobre organizações mafiosas: o que vale mais, a família de sangue ou a lealdade construída durante décadas?
A partir daí, compromissos pessoais, dívidas, proteção e vingança passam a disputar espaço.
O próprio título sugere que essas regras não conduzem os personagens à redenção. Elas apenas determinam o caminho que precisarão percorrer depois que o pacto original é quebrado.
O código mostrado pelo filme: lealdade, proteção da família e pagamento de dívidas.
Direção: Sam Mendes
Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Daniel Craig e Stanley Tucci
Duração: 1h57
Onde assistir: a produção aparece atualmente entre as opções digitais disponíveis no Brasil, incluindo Disney+ em listagens nacionais de streaming.
Assista ao trailer: Estrada para Perdição — página oficial com trailer
A máfia tem ética?
A provocação feita no STF exige uma distinção.
Do ponto de vista moral e jurídico, a existência de regras internas não transforma uma organização criminosa em uma organização ética.
O que existe são códigos de conduta internos.
A diferença é importante.
A ética discute princípios sobre o que é certo ou errado. Já um código interno pode apenas estabelecer comportamentos necessários para preservar determinada organização, independentemente da legalidade de suas atividades.
É por isso que palavras como lealdade, honra, silêncio e família aparecem tantas vezes nos filmes de máfia.
Não são apenas recursos dramáticos.
Uma organização clandestina não pode recorrer normalmente aos mecanismos utilizados por empresas e instituições formais para resolver seus conflitos. Por isso, confiança, reputação e punição tornam-se instrumentos de controle.
A omertà talvez seja o exemplo mais conhecido.
Falar com autoridades significa romper o pacto.
Trair um integrante pode significar destruir uma relação construída durante décadas.
Desobedecer a uma ordem pode significar questionar toda a cadeia de comando.
O cinema transformou essas regras em algumas das histórias mais conhecidas do século XX.
E é exatamente essa contradição que ajuda a compreender a força da frase pronunciada por Gilmar Mendes no STF: até estruturas criminosas precisam estabelecer limites internos para continuar funcionando. A comparação feita pelo ministro ocorreu como crítica à atuação de André Mendonça durante o embate desta terça-feira (15), e não como elogio às organizações mafiosas.
Disponibilidade dos filmes consultada em 15 de setembro de 2026. Catálogos das plataformas de streaming podem sofrer alterações.