‘Tudo pelo Brasil’: veja carta de 1945 atribuída a goiano morto na 2ª Guerra Mundial
Pai de Ademar Fernandes Ferrugem respondeu a coronel que informou a morte do filho. Goiano, que era natural de Catalão, morreu durante na conquista do Monte Castelo, na Itália
O Mais Goiás teve acesso a uma carta escrita pelo pai do soldado goiano Ademar Fernandes Ferrugem, um dos quase 500 brasileiros mortos na 2ª Guerra Mundial. Ademar foi atingido por uma bala de fuzil no estômago durante a tomada do Monte Castelo, apelidado de “morro maldito”, na Itália – maior feito dos pracinhas no conflito.
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A carta assinada por Theodoro Ferrugem em 10 de janeiro de 1945, em Goiânia, foi endereçada ao então coronel João de Segadas Viana, comandante do 6º Regimento de Infantaria do Exército Brasileiro. Ademar, que era pedreiro antes de se voluntariar para defender o país, serviu sob comando do coronel até ser morto em 12 de dezembro de 1944.
“Tenho em mãos a carta desse comando, por gentileza de V.S. comunicando-me a morte de meu idolatrado filho – soldado Almar [Ademar] Fernandes – em combate e no cumprimento do dever. Desnecessário se torna frisar a dor me punge a alma, que só nas palavras de conforto de outro brasileiro que partilha a mesma luta em prol da pátria pode encontrar um lenitivo. A morte é nada como ponto final na vida vivida. TUDO PELO BRASIL”, diz trecho do documento exposto no museu municipal de Catalão.
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A correspondência foi uma resposta da família ao coronel, que também se solidarizou com a perda do pracinha goiano. Natural de Catalão, Ademar morava com os pais e os oito irmãos, além de estar noivo quando decidiu ingressar no Exército para lutar contra a Alemanhã nazista e a Itália facista.
“Ademar morreu lutando bravamente no ataque a Monte Castelo. Foi um dos bravos que não regressaram à base de partida depois do malogrado ataque à Castelo. Foi condecorado – ‘post mortem’ – com a cruz de combate e medalha de sangue e de companhia – ‘por uma ação de feito excepcional’ na companhia da Itália”, afirma a carta.

Campanha militar
A história de Ademar na guerra começou quando Getúlio Vargas vivia sua primeira era no poder, enviando 25 mil pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ao território italiano – única frente da América do Sul nos campos de batalha da Europa durante o conflito.
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Entre os “Cobras Fumantes” – apelido dado aos pracinhas – estava o soldado goiano. Antes de ingressar no Exército como voluntário do Brasil no conflito armado, Ferrugem trabalhou como pedreiro em Goiânia, consoante a explicação da sobrinha dele, Cármen Lúcia, ao Mais Goiás.
“Ele tinha 24 anos e se dispôs a se voluntariar pelo país, quando ficou sabendo da guerra. Ele foi para São Paulo, em Sorocaba, e ficou três meses lá treinando com o Exército. Depois ele foi de navio para Itália”, revela.
Buscando combater o maior genocídio já registrado, Ferrugem deixou Goiás em 1942 – mesmo ano que o Brasil entrou no conflito global após a morte de 607 pessoas em seguidos ataques do Eixo (Alemanhã, Itália e Japão) a navios brasileiros em uma área do Atlântico, que vai da costa leste norte-americana ao Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.
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Para confortar a família, Ferrugem escrevia cartas da Itália, destinadas principalmente à mãe, em Goiânia, de acordo com Carmen. Nos manuscritos, ele não dava detalhes da guerra, mas afirmava que estava bem e com saudades dos parentes, sempre reforçando que iria voltar para casa.
A promessa, porém, não foi cumprida. O soldado e ex-pedreiro acabou morto com um tiro de fuzil no estômago em dezembro de 1944, mais de um ano depois do Brasil declarar guerra ao Japão. O óbito ocorreu durante a conquista do Monte Castelo, em uma campanha que durou três meses, até a vitória em fevereiro de 1945 – maior feito dos pracinhas na 2º Guerra.
“Meu pai foi até onde ele [Ferrugem] trabalhava e pegou um telegrama informando que ele havia falecido em batalha. Ele levou um choque muito grande, minha mãe estava coando café e começou a chorar. Perguntaram se ela queria que trouxessem os restos mortais dele para Goiânia, mas ela falou que não, que era para enterrar ele junto com os outros pracinhas no memorial do Rio de Janeiro”, conta Maria da Glória Ferrugem Bonfim, de 87 anos, irmã do soldado.
Maria conta que o irmão tinha uma forte ligação com os pais, especialmente com a mãe, com quem deixou os cuidados sobre responsabilidade dela. A idosa morreu aos 104 anos, mesma idade que Ferrugem teria atualmente, caso estivesse vivo.
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Reconhecimento
A atuação do ex-pedreiro foi reconhecida depois de 20 anos da sua morte. O então prefeito de Goiânia, Iris Rezende, homenageou o soldado renomeando a Avenida Paraíba para Avenida Ademar Ferrugem, no Setor Campinas, em 1965. O ex-pedreiro também foi homenageado na cidade natal, Catalão, tendo uma rua batizada com o nome.
Além disso, o comunicado da morte dele e uma foto estão expostos no Museu Histórico Municipal Cornélio Ramos. Além das homenagens que tornaram o sobrenome Ferrugem conhecido, a família também foi agraciada com uma pensão deixada pelo militar, que ficou em nome de Maria.
“A família toda é orgulhosa [de Ferrugem]. Ele foi motivo de orgulho. Onde vou, digo que meu nome é Ferrugem. A gente sempre propaga o nome dele”, concluiu.
