Lendas de Goiânia: a história de Pitibá, criança fantasma que vive na cozinha de uma casa no Centro
Relatos sobre uma residência na Rua 57, no Setor Central, incluem objetos que se moviam sozinhos e a aparição de uma criança misteriosa; história foi registrada em pesquisa da UEG
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Imagine estar dentro de casa, ouvir o volume do aparelho de som diminuir sozinho e, ao entrar na cozinha, encontrar um menino que ninguém conhece. Parece cena de filme de terror, mas essa história faz parte de uma das lendas urbanas de Goiânia. O personagem é Pitibá, uma suposta criança fantasma que, segundo relatos de antigos moradores, aparecia em uma residência na Rua 57, no Setor Central. O caso ganhou espaço no imaginário popular e acabou registrado em uma pesquisa da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
A história ficou conhecida a partir de relatos atribuídos a moradores de uma casa cujo número não foi divulgado para preservar a privacidade dos proprietários. Entre as pessoas que contaram a experiência estava a estudante Camilla Russo, citada em uma reportagem publicada pelo portal Curta Mais. Segundo ela, acontecimentos estranhos começaram antes mesmo de sua família ocupar o imóvel, quando um primo dizia conversar com um amigo invisível chamado Pitibá.
O que parecia uma brincadeira infantil passou a provocar medo depois da mudança da família. Camilla relatou que estava em casa com uma funcionária doméstica quando o volume do aparelho de som, localizado na cozinha, diminuiu sem que ninguém tivesse tocado nele. As duas foram verificar o que havia acontecido e, segundo o relato, encontraram um menino desconhecido no cômodo.
Assustada, a funcionária segurou Camilla e correu para a garagem, onde pediu ajuda aos vizinhos. A história afirma que, depois do episódio, a família passou a enfrentar dificuldades para encontrar pessoas dispostas a trabalhar na residência. Não existem registros independentes que comprovem a aparição ou uma causa sobrenatural para os acontecimentos descritos.
Quem era Pitibá, o menino fantasma da Rua 57?

Na versão conhecida da história, Pitibá seria uma criança que aparecia dentro da casa e provocava acontecimentos sem explicação. Além da suposta aparição, a narrativa inclui objetos que se movimentavam ou eram arremessados no interior da residência.
O nome da criança aparece na dissertação Pelas ruas de Goiânia: evocando lendas urbanas como patrimônio imaterial (2000–2023), do historiador Luiz Felipe Pereira Nunes. O trabalho, defendido em dezembro de 2024 no Mestrado Profissional em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio da UEG, classificou a história da Rua 57 como uma das 17 lendas urbanas identificadas na capital.
A pesquisa descreve Pitibá como uma suposta entidade infantil associada à casa. Entretanto, não apresenta comprovação sobre a identidade da criança, sua origem ou a ocorrência de uma morte no imóvel. Também não há evidências de que os objetos tenham se movimentado por alguma manifestação sobrenatural.
Casa da Rua 57 fica em região marcada pelo acidente com césio-137

Outro detalhe da narrativa chama a atenção. A reportagem que popularizou o caso relaciona a residência de Pitibá à área atingida pelo acidente radiológico com césio-137, ocorrido em Goiânia em setembro de 1987. Segundo a publicação, o imóvel estaria nas proximidades de um dos terrenos associados à contaminação. A referência faz parte do relato original e não estabelece qualquer ligação entre o acidente e as supostas aparições.
O acidente com césio-137 marcou a história da capital após a retirada de um aparelho de radioterapia de uma clínica abandonada. A manipulação do material radioativo provocou contaminação, mortes e consequências para moradores da cidade. Os terrenos relacionados ao episódio passaram por intervenções e monitoramento.
A coincidência geográfica ajuda a explicar por que a Rua 57 reúne histórias diferentes na memória dos moradores. O acidente radiológico é um acontecimento documentado. Já a existência de Pitibá permanece no campo da tradição oral, sem comprovação.
Pesquisa identificou 17 lendas urbanas em Goiânia
O levantamento de Luiz Felipe Pereira Nunes identificou 32 narrativas no estado de Goiás, sendo 17 relacionadas à capital. Entre os lugares mencionados estão o Teatro Goiânia, o Centro Cultural Martim Cererê, o Cemitério Santana, o Parthenon Center, o Colégio Santa Clara e a própria Rua 57.
Seis das 17 histórias estão associadas ao Setor Central. Outras aparecem em bairros tradicionais, como Campinas, Setor Fama e Setor Coimbra. Segundo o estudo, a concentração dessas narrativas em regiões antigas demonstra a relação entre os lugares, a memória coletiva e a transmissão de histórias ao longo das gerações.
O pesquisador também elaborou o guia Histórias para não dormir, com a proposta de reunir os endereços e as narrativas em um roteiro de turismo cultural. O objetivo não foi confirmar fenômenos sobrenaturais, mas documentar histórias transmitidas entre moradores.
No caso de Pitibá, o endereço exato da residência continua fora das publicações consultadas. Mesmo assim, a história da criança que apareceria na cozinha de uma casa no Centro permanece entre as narrativas que ajudam a contar o lado misterioso de Goiânia.