Pesquisa da UFG revela como mudanças no Mutirama afastaram crianças de baixa renda
Pesquisa da UFG revela que Mutirama nasceu para integrar crianças de diferentes classes, mas acabou perdendo sua função social
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Criado em 1969 para reunir crianças de diferentes classes sociais em um mesmo espaço de lazer, o Parque Mutirama, em Goiânia, passou por mudanças que dificultaram o acesso de famílias de baixa renda. É o que aponta uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Goiás (UFG), que investigou a história do parque e suas condições de funcionamento. O estudo volta a chamar atenção após a reabertura do Mutirama, no último sábado (10), depois de 18 meses de obras. Com 22 atrações recuperadas, o parque recebeu 5.567 visitantes no primeiro dia.
A pesquisa foi realizada por Lilliane Braga Arruda, sob orientação da professora Ivone Garcia Barbosa, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFG. Defendida em 6 de julho de 2018, a dissertação O Parque Mutirama em Goiânia – Goiás: história e constituição de um contexto socioeducativo para crianças examinou documentos históricos, leis e mudanças administrativas ocorridas entre 1969 e 2017. A pesquisadora também acompanhou atividades no parque e entrevistou profissionais que trabalhavam no local. O estudo concluiu que as mudanças nas regras de acesso prejudicaram principalmente crianças de famílias trabalhadoras, contrariando a proposta original de oferecer lazer à população independentemente da renda.
Iris queria que filhos de patrões e de operários brincassem juntos

Um dos documentos recuperados pela pesquisa apresenta uma declaração de Iris Rezende sobre a criação do Mutirama. Em entrevista concedida à pesquisadora em 2017, o ex-prefeito explicou que o parque não havia sido planejado prioritariamente para gerar receitas, mas para promover convivência entre crianças de diferentes classes sociais.
“O Mutirama não foi construído para ser fonte de renda de administração principal, foi construído para atender a criança pobre”, afirmou Iris Rezende, em depoimento registrado na dissertação.
O ex-prefeito também explicou que desejava aproximar filhos de soldados e coronéis, operários e patrões, como forma de reduzir as divisões sociais desde a infância. A proposta surgiu durante a expansão de Goiânia, quando a capital recebia trabalhadores de diferentes regiões e ampliava sua infraestrutura urbana. Para Iris, a convivência entre crianças de origens econômicas distintas poderia contribuir para diminuir as barreiras sociais.
A proposta original se refletia na estrutura do Mutirama, que reunia brinquedos, atividades recreativas e áreas de convivência. O modelo seguia experiências de parques infantis brasileiros criados para oferecer lazer a crianças de famílias trabalhadoras. Em Goiânia, o espaço também foi planejado para receber pais e filhos e promover atividades educativas.
Pesquisa aponta restrições de acesso após reformas

A dissertação da Universidade Federal de Goiás (UFG) identificou mudanças no funcionamento do Mutirama entre 2012 e 2017 que dificultaram o acesso de crianças de baixa renda. Nesse período, o parque passou por reformas e alterações administrativas, com ampliação da quantidade de brinquedos eletrônicos, retirada de áreas destinadas a brincadeiras gratuitas, fechamentos prolongados e cobrança de ingresso.
Segundo a pesquisadora Arruda, as mudanças atingiram principalmente crianças de famílias trabalhadoras. Em determinados períodos, o acesso gratuito ficou restrito a visitas organizadas por escolas, centros municipais de Educação Infantil e outras instituições.
Na prática, uma criança podia visitar o Mutirama gratuitamente com a escola, mas sua família precisava pagar para frequentar o mesmo espaço em outras ocasiões.
Brincar e direito garantido pela Constituição

A pesquisadora concluiu que a oferta de um espaço público de lazer não é suficiente para assegurar o acesso de toda a população. Para isso, também é necessário considerar a renda das famílias e as condições estabelecidas para a utilização dos equipamentos.
A dissertação não quantifica o número de crianças que deixaram de frequentar o parque. A análise se concentra nas mudanças de funcionamento e nas consequências dessas medidas para o público de baixa renda.
Documentação escassa sobre o Mutirama

Além das mudanças nas condições de acesso, a pesquisa encontrou dificuldades para recuperar a história do parque. Durante o levantamento, Arruda constatou a ausência de um acervo organizado com fotografias, documentos administrativos e outros registros de diferentes períodos de funcionamento do Mutirama.
A falta desse material dificultou a reconstrução da trajetória do parque, inaugurado em 1969 e presente na vida de gerações de moradores de Goiânia.
Em novembro de 2024, o Mutirama foi declarado patrimônio cultural material da capital pela Lei Municipal nº 11.268. A proposta, apresentada pela vereadora Aava Santiago, foi aprovada pela Câmara Municipal e posteriormente sancionada.
A legislação reconhece a importância histórica, cultural e social do parque para Goiânia.
Com o reconhecimento, a preservação do Mutirama passa a abranger também os registros de sua história, como fotografias, projetos arquitetônicos, documentos e materiais relacionados às atividades desenvolvidas no local.
Cobrança de entrada pode valer a partir de 2027

O Mutirama voltou a funcionar no sábado (10), após permanecer fechado por 18 meses para reformas. A reabertura ocorreu com 22 atrações recuperadas, entre elas roda-gigante, carrossel, trenzinhos e minimontanha-russa.
No primeiro dia de funcionamento, o parque recebeu 5.567 visitantes.
A entrada foi liberada gratuitamente durante a programação especial do Dia das Crianças, entre sábado (10) e segunda-feira (12), das 10h às 17h.
- Parque Mutirama deve cobrar ingressos nos fins de semana a partir de 2027
A gratuidade, no entanto, poderá ser modificada no próximo ano. Conforme reportagem publicada pelo Mais Goiás no sábado, a Prefeitura de Goiânia estuda cobrar ingressos do público geral aos fins de semana a partir de fevereiro de 2027.
O valor ainda não foi definido.
Pela proposta em estudo, estudantes das redes municipal e estadual de ensino e famílias inscritas no Cadastro Único continuariam com acesso gratuito durante a semana.
A possibilidade de cobrança retoma uma das questões examinadas na dissertação da UFG: as dificuldades enfrentadas por famílias de baixa renda para frequentar o parque.
Recuperar sua essência: o desafio do parque
Desde a inauguração, em 1969, o Mutirama passou por reformas, mudanças administrativas, períodos de fechamento e alterações nas regras de entrada.
O parque foi concebido durante a administração de Iris Rezende com a proposta de reunir crianças de diferentes classes sociais em um mesmo espaço de lazer.
A pesquisa da UFG aponta que essa finalidade foi prejudicada em determinados períodos, especialmente quando a cobrança de ingressos e a redução das atividades gratuitas limitaram a presença de famílias trabalhadoras.
Com a reabertura, o Mutirama volta a oferecer brinquedos e atividades recreativas à população. A Prefeitura de Goiânia, porém, ainda precisa definir como será o acesso ao parque após o período de gratuidade.
A decisão sobre a cobrança de ingressos determinará em que condições as famílias poderão frequentar o espaço a partir de 2027.