Seis meses de salário atrasado e greves: operários que construíram Goiânia foram empurrados para miséria
Pesquisa da UFG registra atrasos de até sete meses nos pagamentos e alojamentos improvisados entre trabalhadores que construíram Goiânia
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Enquanto Goiânia era planejada para representar a modernização de Goiás, muitos dos operários que erguiam a nova capital viviam em ranchos de capim às margens do Córrego Botafogo. Alguns passaram meses sem receber. A história aparece em uma pesquisa da professora Genilda d’Arc Bernardes, publicada na Revista UFG, que reconstruiu aspectos da vida dos trabalhadores dentro e fora dos canteiros.
Segundo o estudo, mais de 4 mil trabalhadores passaram pela Superintendência de Obras durante a construção da cidade. O número se refere ao total de pessoas que passaram pelo órgão ao longo do período, e não a trabalhadores presentes ao mesmo tempo nas obras. A pesquisa também mostra como a chegada desses migrantes ajudou a formar uma classe trabalhadora urbana em Goiás.
Uma viagem em busca de trabalho

Trabalhadores aparecem ao lado de toras e peças de madeira em registro histórico de Goiânia (Foto: Prefeitura de Goiânia)
A região ainda tinha pouca mão de obra especializada quando as obras começaram. Por isso, o governo instalou escritórios de recrutamento no Rio de Janeiro e em São Paulo. Outros trabalhadores chegaram por conta própria, depois de saber que uma nova cidade estava sendo construída em Goiás.
Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso estão entre os principais estados de origem citados pela pesquisa. Muitos vieram sem a família e encararam longas viagens por estradas de terra. Em um dos relatos reunidos pela autora, um trabalhador lembra que Goiânia ainda tinha poucos prédios públicos quando ele chegou.
A escolha da área da nova capital foi oficializada em 1933. A pedra fundamental foi lançada em 24 de outubro daquele ano, às margens do Córrego Botafogo, em terras que pertenciam ao município de Campinas.
Ranchos de capim e casas de madeira

Nem todos os trabalhadores tinham as mesmas condições de moradia. O estudo registra que os operários menos qualificados eram alojados em ranchos de capim. Profissionais mais qualificados, como pedreiros e mestres de obras, podiam morar em casas de madeira.
“Chegamos e fomos morar numas casinhas muito ruim, de capim, lá na beira do córrego Botafogo”, relatou um trabalhador ouvido pela pesquisa. A lembrança resume a distância entre a cidade planejada nos projetos e as condições enfrentadas por parte de quem a construía.
A falta de estrutura também afetava a alimentação, a saúde e o lazer. Para reconstituir esse cotidiano, a pesquisa combina relatos orais e documentos históricos.
Meses sem receber
A falta de recursos para manter as obras também atingia os pagamentos. Relatos reunidos por Bernardes indicam que trabalhadores ficaram quatro, cinco e até sete meses sem receber. Houve paralisações e greves, e a pesquisa registra a formação do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Goiânia naquele período.
O Estado financiava as obras e também participava da contratação da mão de obra. Com os atrasos, os operários enfrentavam dificuldades para sustentar as famílias e, ao mesmo tempo, se organizavam para reivindicar os salários.
O que havia fora dos canteiros
A rotina dos trabalhadores continuava depois do expediente. A pesquisa registra encontros e atividades de lazer em Campinas e nas proximidades do Botafogo. Um dos entrevistados relata que havia poucas opções de diversão nos primeiros anos da cidade.
As lembranças revelam outra face da construção de Goiânia: a de trabalhadores que vieram de longe, ajudaram a erguer a capital e enfrentaram alojamentos improvisados, escassez de serviços e salários atrasados. O projeto da nova cidade ganhou avenidas e edifícios; a pesquisa recupera as vidas de quem colocou esse projeto de pé.