Terça-feira, 18 de Agosto de 2026
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Amigas de infância se casam, moram juntas e dividem a vida, mas sem sexo ou romance: “minha parceira”

Casadas há dois anos, as amigas planejam ter filhos, mas não possuem uma relação romântica

Por - Goiânia, GO
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Amigas de infância se casam, moram juntas e dividem a vida, mas sem romance Casadas há dois anos, as amigas dividem planos de ter filhos

Renee Wong e April Lee se conhecem desde os 12 anos e transformaram uma amizade de mais de uma década em um compromisso para a vida toda. As duas têm 29 anos e são legalmente casadas há dois anos, moram juntas, dividem as finanças e planejam ter filhos. A relação, porém, não envolve sexo ou romance: elas se consideram parceiras de vida em uma união platônica.

“Por que a gente está reservando esse lugar tão precioso — de parceira de vida, de casamento, de cônjuge — para um parceiro romântico que nem apareceu ainda? Se essa pessoa aparecer, ótimo, a gente vai poder curtir todo mundo junto. Mas por que guardar esse lugar para alguém que ainda nem está aqui, quando a pessoa que já se dedica a mim está bem na minha frente?”, questiona Renee sobre April.

As duas se descrevem como almas gêmeas, mas deixam claro que nunca houve atração romântica ou sexual entre elas. O vínculo, construído desde a adolescência, se tornou tão profundo que passaram a enxergar uma à outra como família.

Amizade começou aos 12 anos

Renee e April se conheceram em uma escola em Singapura, quando tinham 12 anos. A conexão foi imediata e, durante a adolescência, praticamente não se separavam.

Depois das aulas, elas iam para a casa uma da outra. Aos sábados, faziam aulas de reforço juntas e, aos domingos, frequentavam a igreja. Como nenhuma das duas tem irmãos, a amizade acabou preenchendo também esse espaço familiar.

As famílias se aproximaram junto com elas. As duas passaram a compartilhar Natal, Ano Novo Lunar e outras datas comemorativas, criando uma relação que ultrapassava a amizade convencional.

As amigas casadas Renee Wong e April Lee – Foto: Redes Sociais

A distância, porém, acabou fazendo parte da história. Renee se mudou para Los Angeles, nos Estados Unidos, para cursar a faculdade, enquanto April permaneceu em Singapura. Mesmo vivendo em continentes diferentes, as duas continuaram próximas e seguiram acompanhando as mudanças na vida uma da outra.

Pandemia fez as duas repensarem a relação

Foi durante a pandemia de Covid-19, quando as fronteiras estavam fechadas e a distância se tornou ainda maior, que Renee percebeu com mais clareza a importância de April em sua vida.

Separadas por fusos horários, elas chegaram a conversar por até 12 horas por dia. Para Renee, aquele período deixou evidente que a relação das duas ocupava um espaço que ela não queria perder.

“Ficou muito claro para mim que ela era a pessoa que eu mais amava neste mundo. Não de um jeito romântico — mas, se alguma coisa acontecesse comigo, era ela que eu ia querer do meu lado”, contou ela à BBC News Brasil.

A partir daí, uma pergunta passou a incomodá-la: se April era a pessoa que ela queria ao lado nos momentos mais importantes da vida, por que as duas não poderiam simplesmente construir uma vida juntas?

“Se é ela que eu quero ao meu lado na hora de morrer, por que não estou vivendo com ela? Por que nossas vidas são tão separadas? Por que a gente não tenta juntá-las?”, questiona.

Quando as fronteiras reabriram, as amigas começaram a planejar a mudança para ficarem juntas. No início de 2024, elas se casaram legalmente em Los Angeles.

Casamento não envolve atração romântica

Apesar de serem casadas, Renee e April não se consideram um casal romântico. As duas são bissexuais, mas não sentem atração uma pela outra. Renee costuma brincar com a situação ao explicar que existe uma espécie de “falta de química” entre as duas.

Segundo ela, a convivência desde a adolescência fez com que o vínculo entre as duas se aproximasse muito mais de uma relação entre irmãs.

“Num nível científico, a gente não gosta do cheiro uma da outra. Então, quimicamente, não vai rolar”, brinca.

Amigas de infância se casam, moram juntas e dividem a vida, mas sem romance Casadas há dois anos, as amigas dividem planos de ter filhos
Amigas de infância se casam, moram juntas e dividem a vida, mas sem romance – Foto: Redes Sociais

“Por que esse lugar tem que ser de um parceiro romântico?”

Ao longo dos 17 anos de amizade, Renee e April tiveram outros relacionamentos. Namoraram, conheceram outras pessoas e viveram experiências amorosas separadamente. Ainda assim, perceberam que havia algo constante: uma continuava presente na vida da outra.

“Depois de 17 anos de amizade, a gente já teve nossos próprios relacionamentos, tivemos namorados, saímos com gente. Mas essa é a relação que continua”, afirma Renee.

Ela conta que, muitas vezes, enquanto um relacionamento amoroso chegava ao fim, era April quem permanecia ao seu lado e ajudava a processar tudo o que havia acontecido.

“Eu brigava com o namorado, e era ela quem aprendia a lição e crescia comigo. Ela é quem faz todo o trabalho emocional comigo, crescendo e se superando em todos os jeitos que eu quero de uma parceira de vida.”

É justamente essa percepção que fez Renee questionar a ideia tradicional de que o casamento e o posto de “parceiro de vida” precisam necessariamente ser destinados a alguém com quem exista romance.

“Por que esse lugar tem que ser de um parceiro romântico? Por que não pode ser a mulher que literalmente investiu em mim, que me cultivou como uma flor? Eu sou a mulher que sou por causa dela”, afirma.

“Ela é essa parceira para mim”

A relação costuma gerar uma pergunta inevitável: se não existe romance, por que não são simplesmente melhores amigas? Renee diz que a resposta depende do significado que cada pessoa dá à palavra “amizade”.

“Eu não sei que nível de compromisso as pessoas esperam de uma amiga e de uma parceira. Ela é essa parceira para mim”, afirma.

O compromisso entre as duas também é financeiro. Elas dividem as despesas e administram o dinheiro de forma conjunta. “É tudo no mesmo pote”, explica April.

As amigas casadas Renee Wong e April Lee, se uniram no início de 2024 – Foto: Redes Sociais

Além disso, as duas planejam ter filhos e estão abertas à possibilidade de manter relacionamentos românticos com outras pessoas. Elas não se consideram celibatárias e também não rejeitam o amor romântico. A diferença é que nenhum eventual relacionamento amoroso ocupa o lugar central que construíram juntas.

“A gente não está tentando preencher um buraco”

Para Renee, o casamento também mudou a maneira como elas encaram os relacionamentos amorosos. Como já têm uma parceria sólida, não sentem que precisam encontrar alguém para preencher uma ausência.

“A gente não está tentando preencher um buraco. A gente não está sozinha”, afirma. Segundo ela, os anos de convivência também ensinaram às duas formas de comunicação e ajudaram a estabelecer padrões para lidar com conflitos e emoções.

Por isso, Renee compara a relação que construiu com April a uma experiência difícil de superar.

“Se você já tem uma refeição cinco estrelas em casa…”, brinca, antes de explicar que a comparação não significa que ela despreze o amor romântico.

Casamento e filhos

Filhos entram no horizonte das duas sem pressa —mas, por ora, elas têm duas gatas, suas “filhas peludas”. As duas se dizem abertas a adotar ou a acolher uma criança de outras formas, inclusive como madrinhas ou mentoras.

“O que mais me anima em ser mãe com ela no futuro é ver a gente como mães”, diz Renee.

O casamento, em 2024, foi pequeno: as famílias não puderam estar presentes, mas os amigos sim, numa celebração na casa de uma delas. As duas fazem questão de dizer que quando “ficarem ricas” pretendem refazer a cerimônia e renovar os votos.

Amigas de infância se casam, moram juntas e dividem a vida, mas sem romance – Foto: Redes Sociais

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