Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026
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Leia o discurso de Lula na íntegra após vitória sobre Flávio Bolsonaro nas Eleições 2026

Presidente agradeceu aos eleitores, criticou as big techs e enviou recados aos Estados Unidos

Por - Goiânia, GO
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Leia o discurso de Lula na íntegra após vitória sobre Flávio Bolsonaro nas Eleições 2026 presidente enviou recados aos Estados Unidos

Via O Globo – Em seu primeiro pronunciamento após vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou um tom conciliador, agradeceu aos eleitores e afirmou que governará para todos os brasileiros. Reeleito para o quarto mandato, com 51,8% dos votos válidos contra 48,2% do adversário, o petista também criticou as grandes plataformas digitais, enviou recados ao governo americano e apresentou planos para a próxima gestão.

Leia o discurso de Lula na íntegra após vitória sobre Flávio Bolsonaro nas Eleições 2026

— (Após a vitória) não tenho mais adversário. Tenho que governar para 215 milhões — afirmou Lula.

No início do pronunciamento, Lula fez agradecimentos aos aliados e dedicou recados para adversários diretos:

— Hoje, a minha fala para a imprensa é de agradecimento. Nós tivemos o menor número de abstenções da história desse país e o menor número de votos nulos. Tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram nossa campanha, aos partidos que participaram conosco, mas queria agradecer ao povo brasileiro, pela generosidade que tem comigo há muito tempo, e à juventude brasileira. Quero agradecer às pessoas idosas, depois que vi hoje pessoas sendo carregadas pelos seus entes para ir votar, porque nós conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para segurar a democracia do nosso país. Queria agradecer à sociedade como um todo — disse ele na abertura do discurso.

Na sequência, ele atacou as plataformas digitais — a Meta, de Mark Zuckerberg, foi acusada pela campanha de Lula de interferir na disputa:

— Tivemos que vencer a intromissão de fora para dentro, através de plataformas digitais que nós vamos ter que regular. Não é possível que o crime digital não tenha que ser tratado igual ao crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas, grandes, faturando milhões e milhões e não pagando impostos para esse país, querendo direcionar as eleições deste país.

Sem citar o nome de FlávBolsonaro, Lula votou a chamar o adversário de miliciano, repetindo o que vinha dizendo nos debates:

— Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, da mentira. E eu confesso a vocês que, cada vez que eu ia a um debate, ficava constrangido, porque já debati com muita gente, já participei de muitas eleições, me reúno todo ano com o G20, com o Brics, com os principais presidentes do mundo, discutindo os principais assuntos do mundo, mas nunca pensei que iria me deparar com o representante genuíno do “milicianismo” desse país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez, como se não tivesse dentro dele uma célula de humanismo. Parece tudo falso.

Ele também enviou recado ao governo de Donald Trump, que esperava uma vitória de Bolsonaro:

— Como disse uma vez o meu cantor preferido, Chico Buarque de Holanda, ele gostava do nosso governo porque o nosso governo não falava grosso com a Bolívia e falava fino com os Estados Unidos. A gente falava igual com todo mundo.

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Dez das 12 pesquisas divulgadas na véspera do 2º turno apontaram vitória de Flávio Bolsonaro (Foto: Flickr/Lula)

Projeção para o futuro

Lula falou de cuidar dos idosos e de respeitar mais as mulheres, prometeu a regulamentação das redes sociais, falou de transformar o país “em um país do desenvolvimento” e falou de investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS).

— Nós queremos fazer desse país um país do desenvolvimento, muito investimento na economia digital, na economia verde, na economia criativa. Este país vai ser construído não por mim, porque muitas das coisas que eu estou falando aqui é por vocês, porque nós vamos exercitar o potencial criativo desse povo para deixar de ser um país periférico, queremos ser um país central, nas políticas e na busca pela paz. Vamos ensinar ao mundo como se tratam as políticas climáticas neste país, e neste ano, é a primeira vez que a gente consegue reduzir o desmatamento pelo quarto ano seguido.

Ele tentou novamente um discurso conciliador:

— Este país está pronto para ser construído, não vou falar de unidade nacional porque essa palavra nem sempre cabe neste país. Mas esse país tem que ser civilizado. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos, com base no respeito à Constituição, na relação com o Congreso, porque já tem gente falando que o Lula vai ter dificuldade para governar, mas eu não escolho Congresso, foi o povo quem escolheu. E é com ele que eu vou trabalhar.

Lula falou que quer criar uma inteligência artificial brasileira e que quer data centers reservando capacidade para o mercado brasileiro.

Ele encerrou a fala mencionando a segurança pública, dizendo que a Constituição Federal de 1988 não delegou essa área para a União, mas que isso vai mudar com a PEC da Segurança Pública.

— Os estados não dão conta. Nós vamos proteger as mulheres, os homens. Para o trabalhador, proteção e para o bandido, prisão — bradou, antes de conclamar seus apoiadores para ir à Avenida Paulista, onde vai celebrar a vitória.

Lula também citou que nunca ganhou a eleição no primeiro turno, mas nunca perdeu eleição no segundo turno. Ele ganhou em 2002, 2006 e 2022 no segundo turno. No entanto, em 1989, ele foi derrotado por Collor no segundo turno. Quando perdeu para Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, Lula foi derrotado no primeiro turno.

O presidente Lula recebeu ligações de parabenização dos presidentes da Bolívia, Uruguai, Chile e de Antônio Costa, presidente do Conselho Europeu. Na saída do evento, enquanto as televisões anunciavam a intenção do candidato do PL de pedir a anulação do pleito, o grupo fez provocações: “Ai, ai, ai/Flávio vai morar com o pai”, projetando a prisão do senador.

Presidente Lula
Lula promete mudar o jeito de governar, ataca Flávio e diz que venceu intromissão externa (Foto: Flickr/Lula)

‘Corinthians só perde’

Na reta final, ele citou o Corinthians e comparou o momento do clube de coração à família Bolsonaro:

— O Corinthians parece o Bolsonaro. Só perde.

Também citou o apoio das mulheres:

— Eu sou o único presidente, metalúrgico, sem diploma universitário, eleito quatro vezes no mundo. (…) Agora, o Lulinha não vai querer outro mandato, mas eu vou terminar esse mandato inteiraço, correndo mais que cada um de vocês, porque o respeito que eu adquiri pelo povo, o carinho que esse povo tem dedicado a mim, as manifestações de carinho que eu tenho recebido, sobretudo das mulheres brasileiras, é uma coisa que eu jamais imaginei que um político poderia receber.

Lula também falou que foi “escolhido por Deus”:

– Tem tanta gente mais preparada que eu, com mais diploma que eu, que já estudou mais do que eu. E por que? Eu fui escolhido por Deus porque eu sempre acho que tem o dedo de Deus na minha cabeça, eu quero agradecer a Deus e a vocês, homens e mulheres deste país pela força que vocês levantaram.

No início, Lula passou a palavra para o vice-presidente Geraldo Alckmin, dizendo que ele foi um dos responsáveis pela vitória. “Ele tem muito a ver com essa nossa vitória e eu acho que é justo”. Feliz de quem tem um vice como o Alckmin, disse Lula. Alckmin saudou jovens, mulheres e idosos e afirmou que Lula salvou a democracia brasileira.

Coro da vitória no hotel

Antes da entrada para o discurso de Lula, houve confusão no acesso. Seguranças tentaram impedir a entrada de aliados e apoiadores, aparentemente para evitar superlotação. Até o deputado federal André Janones precisou abrir caminho a cotoveladas. Instantes antes de Lula subir ao palco, houve gritos de “pessoal, urgente, Lula presidente!”, fazendo referência aos áudios que Janones mandava a exaustão no canal de WhatsApp, que virou a marca da estratégia digital do petista no segundo turno.

O presidente chegou ao hotel Intercontinental da Alameda Santos, na região da Avenida Paulista, por volta das 19h50, e ficou numa sala junto a primeira-dama, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ex-ministro da Educação Camilo Santana e o presidente do partido Edinho Silva. Segundo interlocutores, o presidente chegou animado e com um sorriso no rosto.

Foto: PT

Outros aliados também estavam presentes, mas em outras salas. Os ministros Alexandre Padilha, Miriam Belchior, Sidônio Palmeira, Luciana Santos, os senadores Wellington Dias e Carlos Fávaro a senadora eleita por Pernambuco, Marília Arraes, além do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) e da deputada Tabata Amaral (PSB-SP) também acompanharam a apuração no mesmo hotel que o presidente. Havia delegações de observadores internacionais que também acompanham a apuração em um espaço separado do hotel.

Por volta das 20h50, quando o Datafolha projetou Lula como vencedor da disputa presencial, os gritos de comemoração ecoaram pelo hotel. Senadores, deputados e outros aliados começaram a se dirigir ao auditório onde o presidente irá discursar, com gritos de “Lula, Lula!”.

Lula celebrou a vitória ao lado de ministros, correligionários, deputados e senadores aliados. Com abraços, beijos e dancinhas, o presidente usou óculos vermelhos em formato de estrela, posou para fotos e recebeu cumprimentos de pessoas próximas.

Na sala com o presidente com na hora da comemoração, estavam ministros e ex-ministros como Fernando Haddad, Marina Silva, Simone Tebet, Camilo Santana, Aloizio Mercadante, Alexandre Padilha, entre outros. Depois da apuração consagrar a virada inédita, o canal do WhatsApp Exército do Lula, que acumulou mais de 10 milhões de inscritos e foi peça fundamental na estratégia digital do petista no segundo turno, também publicou vídeos dos bastidores da comemoração.

Lula ainda participou de uma live no Instagram feita pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pelo canal, antes de fazer o primeiro discurso para marcar seu quarto mandato na presidência da República.

Lula acompanhou a apuração no hotel Intercontinental, localizado no bairro do Jardim Paulista (próximo à Avenida Paulista), em São Paulo. Ele reuniu aliados e o comando nacional da sua campanha a partir das 16h no mesmo hotel utilizado como quartel-general para acompanhar e celebrar as suas vitórias eleitorais em 2002, 2006 e 2022. No primeiro turno de 2026, a campanha havia utilizado o hotel Renaissance.

Presidente Lula segura Constituição
Lula avança 33,2% em Goiás na comparação com 1º turno, e Flávio 14,1% (Foto: Flickr)

Aliados afastam medo de ruptura institucional

Após a vitória, questionado sobre a possibilidade de uma tentativa de golpe após o resultado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a sociedade e a imprensa estariam mais preparadas para impedir uma nova ruptura institucional.

— Com esses caras, você tem que estar preparado para tudo. Agora, tenho certeza absoluta: nós, a sociedade brasileira, a imprensa, estamos mais preparados para impedir qualquer tentativa de golpe que já tentaram dar nesse país — declarou.

Já o deputado federal e ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, atribuiu a vitória de Lula à mobilização da juventude, à atuação nas redes sociais, destacando o papel de Janones, e às denúncias contra Flávio Bolsonaro.

— A extrema-direita se armou com muitas armas e foi derrotada. Foi derrotada com 5 milhões de votos na frente — afirmou.

Sobre a foça do Nordeste, a senadora eleita Marília Arraes (PDT-PE) disse:

— O Lula mostrou que o Nordeste é a solução do Brasil, porque tem um povo trabalhador, um povo aguerrido, tem muito potencial de crescimento. Na verdade, não tinha vontade política da presidência da República de colocar o Nordeste no centro de desenvolvimento. É por isso que o Nordeste dá essa grande votação ao presidente.

Dia tenso

Mais cedo, Lula foi votar acompanhado de sua esposa, Janja, do vice de sua chapa, Geraldo Alckmin (PSB), do ex-ministro Fernando Haddad, além de Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede). No começo da tarde, diante das denúncias de denúncias sobre a circulação reduzida de frotas de ônibus em cidades como São Paulo e Salvador, o petista falou à imprensa:

— Não vamos permitir que haja roubalheira, que haja bandido, que haja um prefeito mau caráter e prefeito bandido, isso não vamos permitir. Portanto, está dado o aviso. Nós estamos pedindo prorrogação. Nós não vamos aceitar bandidismo, mau caratismo, nem de prefeito, nem de governador e nem de empresário. Essas pessoas precisam aprender a respeitar a democracia nesse país.

O segundo turno deste domingo foi a disputa mais acirrada das últimas duas décadas, com uma diferença que não era registrada desde as eleições de 2006. As pesquisas de intenção de voto divulgadas no sábado pelos institutos Quaest e Datafolha apontavam o mesmo cenário: empate técnico no limite da margem de erro.

Nos dois levantamentos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) marcou 51% dos votos válidos contra 49% de Lula. O cenário mostra uma compressão em relação a disputas anteriores — em 2014, a diferença na véspera era de quatro pontos entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, mesma margem vista entre Lula e Jair Bolsonaro em 2022.

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