Calor provocado pelo El Niño acelera formação do mosquito e pode aumentar casos de dengue em Goiás
Calor acelera ciclo do Aedes aegypti, e Saúde reforça estoques e prepara planos de contingência nos 246 municípios goianos
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Além de influenciar o clima, o El Niño preocupa porque pode aumentar os casos de dengue, zika e chikungunya em Goiás nos próximos meses. A Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) começou a preparar os 246 municípios para enfrentar uma combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade e maior circulação das arboviroses.
A subsecretária de Vigilância em Saúde da SES-GO, Flúvia Amorim, afirma que o calor aumenta a possibilidade de os ovos avançarem mais rapidamente até a fase adulta. A consequência pode ser uma elevação dos índices de infestação em municípios com presença do vetor.
“Com o El Niño, a temperatura aumenta e cresce a chance daquele ovinho se transformar em um mosquito adulto. Então, a chance de termos índices de infestação mais altos é real”, afirma Flúvia. O fenômeno está sob monitoramento de órgãos como Inpe, Inmet, ANA, Cemaden, SGB e Defesa Civil. O segundo boletim do Painel El Niño 2026-2027 acompanha a evolução do fenômeno e seus possíveis impactos no País. A análise é atualizada mensalmente para subsidiar ações de planejamento e resposta.
Uma nota técnica conjunta elaborada por Inpe, Inmet, Funceme e Censipam também apontou probabilidade superior a 95% de ocorrência e persistência do El Niño no segundo semestre de 2026. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Seus efeitos alteram padrões de circulação atmosférica e podem modificar temperaturas e distribuição das chuvas em diferentes regiões do Brasil. O documento está disponível no site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
SES trabalha com aumento de casos
A SES-GO trabalha com a perspectiva de crescimento das arboviroses e prepara a rede para reduzir o impacto sobre hospitais e unidades básicas. Flúvia Amorim diz que o planejamento não parte da expectativa de impedir completamente uma emergência epidemiológica, mas de diminuir suas consequências. O foco está em reduzir internações e mortes caso o número de pacientes aumente. A preparação inclui capacitação das equipes e reforço de insumos utilizados no atendimento.
“A gente sabe que vai aumentar casos. Com o El Niño, isso fica potencializado”, afirma a subsecretária. Segundo ela, a organização antecipada pode impedir que um aumento rápido da demanda comprometa a capacidade de resposta dos serviços. “Não é que a gente vai evitar a emergência, a gente vai tentar diminuir o impacto dela”, completa Flúvia. A sazonalidade das arboviroses continuará existindo, mas o tamanho do impacto poderá ser influenciado pela capacidade de preparação da rede.
Os dados da SES mostram que a dengue permanece em circulação mesmo com redução em relação ao ano passado. Até julho, Goiás havia registrado 147.084 notificações e 96.174 casos confirmados da doença, além de 75 mortes confirmadas e 37 em investigação. No mesmo período de 2025, eram 101.415 casos confirmados e 122 óbitos. Os números estaduais estão disponíveis no levantamento oficial da SES-GO sobre dengue e chikungunya.
Soro entra no centro da preparação
Entre os insumos considerados prioritários estão o soro de reidratação oral e o soro fisiológico aplicado por via intravenosa. A hidratação é uma das principais medidas adotadas no manejo clínico de pacientes com dengue e também ganha importância durante períodos prolongados de calor. Temperaturas elevadas e baixa umidade aumentam o risco de desidratação mesmo entre pessoas que não apresentam arboviroses. A SES pretende garantir estoques suficientes para atender as duas situações ao mesmo tempo.
Flúvia afirma que a projeção considera um período prolongado de pressão sobre os serviços de saúde. Primeiro, Goiás enfrenta calor e baixa umidade em diferentes regiões. Depois, o retorno das chuvas pode ampliar a quantidade de criadouros e aumentar a transmissão de dengue, zika e chikungunya. Por isso, o planejamento dos insumos considera o período que se estende até pelo menos maio de 2027.
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Dengue no período seco
A subsecretária afirma que a ausência de chuva não interrompe a circulação do mosquito. Segundo ela, Goiás convive ao mesmo tempo com previsão de chuva em determinadas regiões e municípios do Norte e Nordeste que chegam a permanecer quatro meses sem precipitação. Ainda assim, a dengue foi registrada durante todo o ano, enquanto Goiânia apresentou aumento de casos de chikungunya em pleno período seco. O comportamento reforça a capacidade do Aedes aegypti de se adaptar a diferentes condições climáticas.
“Dengue o ano inteiro. Inclusive, a gente vê o município de Goiânia com aumento de casos de chikungunya em pleno período seco”, afirma Flúvia. A situação acompanha um cenário estadual no qual a chikungunya cresce enquanto a dengue permanece em circulação, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás. Até julho, Goiás contabilizava 11.128 casos confirmados de chikungunya, contra 2.034 no mesmo período de 2025. O avanço corresponde a aproximadamente 447% em um ano.
Seca não elimina os criadouros
Durante a estiagem, segundo Flúvia Amorim, os criadouros tendem a ficar principalmente dentro das residências. Vasos sanitários pouco utilizados, bebedouros de animais, vasos de plantas e caixas-d’água destampadas estão entre os locais que podem manter água suficiente para o desenvolvimento do mosquito. Quando as chuvas retornam, esses pontos continuam existindo e se somam aos recipientes encontrados em áreas externas. Terrenos com lixo, pneus descartados, lajes, calhas e telhados ampliam a quantidade de ambientes favoráveis à reprodução.
A SES-GO já havia alertado que calor intenso, baixa umidade e chuvas irregulares mantêm condições para a proliferação do mosquito durante a estiagem. Segundo a pasta, o ciclo de desenvolvimento do Aedes aegypti, que normalmente leva entre sete e dez dias, pode cair para cinco a sete dias com temperaturas maiores. A orientação oficial é manter a eliminação dos criadouros durante todo o ano e não apenas no período chuvoso. O alerta completo pode ser consultado na orientação da SES-GO sobre dengue e chikungunya durante a seca.
Goiás já sente efeitos do El Niño
O secretário de Estado da Saúde de Goiás, Rasível Santos, afirma que o Estado já apresenta condições associadas ao novo El Niño. Segundo ele, Goiás registra há mais de três semanas temperaturas sustentadas acima dos 34°C, além de umidade relativa do ar abaixo de 20%. O cenário amplia os riscos relacionados não apenas às arboviroses, mas também à desidratação e ao agravamento de doenças crônicas. A situação leva a SES a preparar respostas que envolvem tanto a assistência direta quanto a infraestrutura das unidades.
“Estamos novamente sob influência do El Niño, com altas temperaturas, já mais de três semanas sustentadas acima de 34 graus, e também baixa umidade relativa do ar, abaixo de 20%”, afirma Rasível. O secretário lembra que o último episódio de El Niño, em 2024, coincidiu com uma crise de arboviroses no Brasil e em Goiás, principalmente de dengue. A comparação é usada pela pasta como um dos motivos para antecipar medidas de preparação. A atual projeção federal indica alta probabilidade de persistência do fenômeno ao longo dos próximos meses.
Crianças, idosos e gestantes exigem atenção
Idosos, crianças, recém-nascidos e gestantes estão entre os grupos que exigem maior atenção durante os períodos de calor intenso, segundo Rasível Santos. Pessoas com doenças cardiovasculares, renais e pulmonares também apresentam maior risco de complicações em situações de altas temperaturas e baixa umidade. A orientação é reduzir a exposição ao calor, principalmente entre 10h e 16h, e evitar contato com fumaça. Esses cuidados ganham importância durante o período de queimadas e de agravamento das condições respiratórias.
A baixa umidade e a fumaça podem agravar doenças pulmonares, enquanto o calor aumenta a possibilidade de desidratação e estresse térmico. Esses efeitos ocorrem simultaneamente à preocupação com dengue e outras arboviroses. A soma dos fatores pode aumentar a procura por unidades de saúde em diferentes regiões do Estado. A estratégia da SES é trabalhar com riscos combinados, e não apenas com uma eventual epidemia de dengue.
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Planos serão individualizados nos 246 municípios
Rasível Santos afirma que a SES iniciou no dia 24 um cronograma para trabalhar diretamente com os 246 municípios goianos. O objetivo é fazer uma análise de risco individualizada, levando em consideração as condições climáticas, epidemiológicas e estruturais de cada cidade. A partir desse levantamento, os municípios deverão elaborar ou revisar planos de emergência e contingência. A resposta poderá variar conforme o tipo de risco identificado em cada região.
“Estamos levantando todos os riscos com os municípios, ajudando os municípios a elaborar esses planos de emergência e os planos de contingência”, afirma o secretário. Regiões com maior risco de arboviroses poderão precisar ampliar os estoques de soros e outros insumos. Municípios com possibilidade de crescimento de doenças respiratórias poderão reforçar medicamentos como broncodilatadores. A manutenção de unidades de saúde abertas por períodos maiores também está entre as medidas avaliadas.
Falta de água e energia entra na conta
O planejamento estadual considera ainda situações que extrapolam o atendimento de pacientes com dengue. Municípios com risco de escassez de água deverão preparar alternativas para garantir o abastecimento das unidades de saúde. A falta de energia elétrica também preocupa porque pode comprometer salas de vacinação e a conservação de imunobiológicos. Nesses casos, será necessário definir previamente estratégias para transferência ou preservação das vacinas.
Rasível explica que a lógica do plano é reduzir vulnerabilidades antes que uma emergência ocorra. Quanto maior a possibilidade de determinado evento atingir um município, maior deve ser a preparação prévia. Estoques, protocolos, alternativas de abastecimento e organização das equipes fazem parte dessa estrutura. O objetivo é diminuir o impacto sobre a população mesmo quando não for possível impedir a ocorrência do evento.
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Dengue continua mesmo sem chuva
A permanência do mosquito durante a estiagem também é explicada pela resistência dos ovos do Aedes aegypti. Segundo orientação do Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT), os ovos podem permanecer viáveis por mais de um ano em superfícies secas. O contato posterior com a água permite a eclosão e retomada do ciclo do mosquito. A recomendação reforça que a prevenção precisa ser mantida durante os 12 meses do ano.
Para Flúvia Amorim, a experiência de 2026 já demonstra que não existe um período completamente livre de risco. Na seca, a vigilância deve se concentrar principalmente dentro das casas, onde o mosquito encontra recipientes com água. Com as chuvas, os criadouros externos se multiplicam e ampliam as possibilidades de reprodução. “Seja com chuva ou sem chuva, o que a gente viu este ano? Dengue o ano inteiro”, resume a subsecretária.