Terça-feira, 04 de Agosto de 2026
MUDANÇAS

Gasolina com 32% de etanol: o que muda e quais cuidados ajudam a evitar problemas no carro

Nova mistura entrou em vigor no sábado (1º). Especialistas explicam os impactos para diferentes tipos de veículos e orientam motoristas sobre consumo, manutenção e abastecimento

Por - Goiânia,GO
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gasolina x etanol

A gasolina vendida no Brasil passou a conter 32% de etanol anidro desde o último sábado (1º). A mudança, aprovada pelo Governo Federal, elevou em dois pontos percentuais a quantidade do biocombustível na composição da gasolina comum e levantou dúvidas entre motoristas sobre possíveis reflexos no consumo, no desempenho e na durabilidade dos veículos. Enquanto especialistas afirmam que a maior parte da frota nacional não deve sofrer impactos significativos, há divergências sobre os efeitos da nova mistura, principalmente em relação ao consumo e ao desgaste de componentes.

O engenheiro mecânico e mestre em Engenharia, Antônio Pereira Arantes Neto, explica que a alteração é pequena quando comparada ao padrão já adotado no país.

“Basicamente, cada litro de gasolina comum passa a ter 32% de etanol anidro e 68% de gasolina derivada de petróleo. Antes eram 30% e 70%. Na prática, é um incremento de dois pontos percentuais sobre uma base que o Brasil já utiliza há décadas. Não é uma mudança de combustível, é um ajuste fino na receita”, afirma.

Segundo ele, a decisão foi tomada para reduzir a necessidade de importação de gasolina, aproveitar a produção nacional de etanol e ampliar o uso de combustíveis renováveis.

Mudança deve passar despercebida

Uma das principais dúvidas dos consumidores é se será possível perceber alguma diferença ao dirigir. De acordo com Antônio Pereira, a resposta tende a ser negativa.

“A variação teórica de consumo fica abaixo de 1%, o que acaba sendo mascarado por fatores como trânsito, calibragem dos pneus, uso do ar-condicionado e até o estilo de direção. Para a imensa maioria dos motoristas, a mudança será imperceptível”.

(Foto: Jucimar de Sousa)
Trânsito em Goiânia (Foto: Jucimar de Sousa/Mais Goiás)

O especialista explica que carros flex, que representam a maior parte da frota brasileira, foram desenvolvidos justamente para trabalhar com diferentes proporções de etanol.

“O carro flex ajusta automaticamente o funcionamento do motor para qualquer proporção de etanol. Já os veículos movidos apenas a gasolina e homologados para o mercado brasileiro também foram projetados para trabalhar com altos teores de etanol. O ponto de atenção fica para veículos importados de forma independente, desenvolvidos para países onde a gasolina possui apenas cerca de 10% de etanol”, explica.

Opinião diferente

Embora a expectativa seja de impacto reduzido, o técnico em manutenção automotiva Marcell Patrick acredita que a nova composição poderá ser percebida principalmente na autonomia dos veículos. Segundo ele, a mistura maior de etanol reduz a quantidade de gasolina disponível no combustível, o que pode elevar o consumo.

“O que vai pesar realmente para o usuário é o consumo. Um veículo que fazia entre 10 e 12 quilômetros por litro pode passar a fazer entre 8 e 9 quilômetros por litro tranquilamente. Você dilui essa gasolina em um mapa de funcionamento que foi projetado para ter mais gasolina do que etanol. Isso acaba trazendo um consumo maior”, diz.

Marcell também afirma que, ao longo do tempo, alguns componentes podem apresentar desgaste antecipado. “Mangueiras ressecadas, vedações antigas e filtros vencidos podem falhar mais cedo. O etanol adicional não cria o problema, mas pode antecipar uma falha que aconteceria naturalmente”.

O mesmo cuidado vale para motocicletas mais antigas e alguns modelos importados.

“As motos flex e as injetadas mais recentes praticamente não sofrem impacto. A atenção deve ser voltada para motos carburadas antigas e importadas de alta cilindrada”, explica o profissional.

É preciso mudar a manutenção?

Segundo Antônio Pereira, a rotina de manutenção não precisa ser alterada por causa da nova mistura. Ele orienta que o motorista fique atento caso o veículo apresente sintomas incomuns.

“Cheiro de combustível, dificuldade persistente para dar partida, marcha lenta irregular, engasgos, aumento exagerado do consumo ou luz da injeção acesa merecem uma avaliação em oficina”, reforça.

(Foto: Ilustrativa/Pixabay)

Marcelo Patrick também afirma que não existe uma regulagem capaz de eliminar um eventual aumento de consumo provocado pela composição do combustível. “Não há muitas correções a serem feitas. O que existe são reparos em componentes que eventualmente se desgastarem”.

Como evitar problemas

Os especialistas concordam que a principal forma de proteger o veículo continua sendo abastecer em postos confiáveis e manter as revisões em dia. Antônio Pereira recomenda guardar sempre a nota fiscal e observar qualquer alteração logo após o abastecimento.

“Se o carro apresentar falhas imediatamente depois de abastecer, é importante procurar uma oficina e informar onde o combustível foi adquirido. Na maioria das vezes, o problema está relacionado à qualidade do combustível daquele posto, e não ao aumento do percentual de etanol”.

Ele também lembra que o consumidor pode solicitar gratuitamente ao posto o teste de qualidade do combustível.

“O posto é obrigado a realizar o teste do teor de etanol quando solicitado. Além disso, vale preferir estabelecimentos de boa reputação, desconfiar de preços muito abaixo da média e manter a troca do filtro de combustível dentro do prazo recomendado”, ressalta.

Mudança divide opiniões

A adoção da gasolina com 32% de etanol tem provocado diferentes avaliações entre especialistas e representantes do setor automotivo. Enquanto o Governo Federal sustenta que estudos técnicos não identificaram riscos para a frota nacional e estima uma pequena redução no preço da gasolina, entidades como a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) demonstram preocupação principalmente com veículos importados e modelos desenvolvidos para mercados que utilizam gasolina com menor concentração de etanol.

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