Sete números explicam a economia de Goiás em 2026; veja o que melhorou e o que piorou
Comércio e indústria avançam em 2026, enquanto PIB, agro e serviços perdem força e inflação de Goiânia segue acima da média nacional.
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A economia de Goiás chega ao segundo semestre de 2026 com resultados em direções diferentes. O comércio varejista cresce 7,4% no primeiro semestre e a indústria avança 1,8%, mas o PIB estadual ainda acumula queda de 2,1% até maio. No mesmo período, a agropecuária recua 6,1%. Nos serviços de mercado, a retração é de 1,6% até junho. O Estado criou 44,3 mil empregos formais no primeiro semestre, enquanto Goiânia acumula inflação de 5,56% em 12 meses.
Os dados mais recentes do Instituto Mauro Borges (IMB), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram uma economia em duas velocidades: indústria e comércio sustentam parte da atividade, enquanto a comparação com a safra recorde de 2025 reduz os resultados do agro e a inflação limita o poder de compra das famílias.
Os períodos de referência não são exatamente iguais porque cada indicador segue um calendário próprio de divulgação. PIB e agropecuária chegam até maio; indústria, comércio, serviços e emprego, até junho; e inflação, até julho.
1. PIB cai 2,1%, mas maio traz sinal de recuperação
O primeiro número é -2,1%. Essa é a retração acumulada do PIB mensal estimado de Goiás entre janeiro e maio de 2026, na comparação com igual período de 2025, segundo o boletim do PIB Mensal do Instituto Mauro Borges.
O resultado mais recente, no entanto, aponta mudança de direção. Em maio, a economia goiana cresce 1,4% em relação ao mesmo mês do ano passado e 1,2% diante de abril, após ajuste sazonal.
O movimento ocorre depois de resultados interanuais negativos em fevereiro, março e abril. Por isso, maio funciona como primeiro sinal de reação, mas ainda não reverte a queda acumulada no ano.
O economista e contador Marcelo Marques avalia que ainda é cedo para tratar o resultado como uma retomada consolidada.
“Comércio e indústria apresentam reação, enquanto a agropecuária enfrenta uma base de comparação muito elevada por causa do desempenho de 2025. Precisamos observar se esse movimento se mantém nos próximos meses”, afirma.
Para o fechamento de 2026, o IMB projeta crescimento de 2% para o PIB de Goiás, com intervalo estimado entre 1,5% e 2,5%.
A comparação ajuda a dimensionar a desaceleração: em 2025, a economia goiana cresceu 3,8%, puxada principalmente pelo agronegócio, conforme mostrou o Mais Goiás.
2. Agro recua 6,1% após safra recorde
A agropecuária explica parte relevante da queda do PIB no início de 2026. O setor acumula retração de 6,1% até maio, segundo o IMB.
O percentual, porém, precisa ser observado em relação à base de comparação. Goiás vem de uma safra recorde em 2025, período em que a agropecuária foi o principal motor do crescimento estadual.
Mesmo com a redução percentual deste ano, a produção agrícola continua em patamar elevado. A avaliação do IMB é de que 2026 pode terminar com a segunda maior safra da série histórica.
“A variação negativa não significa necessariamente uma crise no campo. Quando se compara 2026 com uma safra recorde, parte da queda decorre dessa base muito elevada. O cenário está mais próximo de uma acomodação depois de um ano excepcional”, explica Marcelo Marques.
Para o ano completo, o IMB trabalha com retração de 2,5% no valor adicionado da agropecuária. Clima, preços internacionais das commodities e custos de produção permanecem entre as variáveis capazes de alterar o resultado.
3. Indústria cresce 1,8% e recupera perdas do começo do ano
Na indústria, a trajetória é oposta. A produção industrial de Goiás acumula crescimento de 1,8% entre janeiro e junho, segundo a Pesquisa Industrial Mensal Regional do IBGE.
O resultado ganha importância porque o setor começa 2026 no campo negativo. A indústria goiana acumulava retração nos primeiros meses, mas passa a apresentar crescimento durante o segundo trimestre.
Junho, isoladamente, traz um alerta: houve queda de 1,7% diante de maio. Na comparação com junho de 2025, entretanto, Goiás registra expansão de 2,2%.
Para Marcelo Marques, a reação industrial ajuda a reduzir a dependência de um único motor econômico.
“Goiás continua muito ligado ao agronegócio, mas possui indústria de transformação, alimentos, medicamentos, produtos químicos e biocombustíveis. Quando a indústria consegue crescer mesmo com o agro desacelerando, outras fontes de renda e emprego ganham participação.”
4. Comércio cresce 7,4% no primeiro semestre
O comércio apresenta um dos melhores resultados da economia estadual em 2026. O volume de vendas do varejo cresce 7,4% entre janeiro e junho, conforme a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE.
Em junho, a alta chega a 8,8% diante do mesmo mês de 2025. Em 12 meses, o comércio goiano acumula crescimento de 5,5%.
O desempenho aparece mesmo em um ambiente de crédito caro e inflação pressionada. No período do Dia dos Pais, o Mais Goiás mostrou que empresários esperavam crescimento das vendas, mas já identificavam um consumidor mais cauteloso, com maior pesquisa de preços e menor espaço para compras por impulso.
“Quando há emprego e renda em circulação, o comércio responde. O risco para o segundo semestre está nos juros elevados e na inflação, porque eles reduzem a capacidade de compra das famílias”, afirma Marques.
5. Serviços recuam 1,6%
O comércio cresce, mas os serviços de mercado seguem trajetória diferente. O volume do setor acumula queda de 1,6% em Goiás no primeiro semestre, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE.
A situação exige uma distinção metodológica. A Pesquisa Mensal de Serviços acompanha um conjunto específico de serviços empresariais e prestados às famílias. Já o setor de serviços considerado no cálculo do PIB estadual é mais abrangente e inclui outras atividades.
Por isso, é possível haver retração na pesquisa mensal e resultado positivo no conjunto maior utilizado pelo IMB para calcular a atividade econômica.
6. Goiás cria 44,3 mil empregos, mas salário de entrada preocupa
O mercado formal acrescenta 44.316 postos de trabalho entre janeiro e junho de 2026. Foram 534.145 admissões e 489.829 desligamentos, segundo o Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego.
Somente em junho, Goiás abre 3.780 vagas, resultado de 81.728 admissões e 77.948 desligamentos.
Há, entretanto, um indicador que limita o resultado positivo. O salário médio real de admissão no Estado fica em R$ 2.145,07 em junho. O dado representa crescimento real de 2,24% em relação ao mesmo mês de 2025, mas mantém Goiás abaixo do salário médio pago na contratação no país.
“Criar vagas é importante, mas Goiás precisa avançar também na produtividade e na remuneração. Atividades de maior valor agregado, qualificação profissional e tecnologia são fundamentais para elevar os salários”, avalia Marcelo Marques.
7. Goiânia acumula inflação de 5,56% em 12 meses
O último número chega diretamente ao orçamento das famílias. Goiânia acumula inflação de 5,56% nos 12 meses encerrados em julho, maior resultado entre as localidades pesquisadas pelo IBGE. No Brasil, o IPCA fica em 4,44%.
Entre janeiro e julho, a inflação é de 3,51% na capital goiana, ante 3,44% no país. Julho, isoladamente, traz estabilidade: o IPCA de Goiânia fica em 0,00%.
O resultado já foi detalhado pelo Mais Goiás. Alimentação e bebidas recuaram 0,61% no mês, enquanto habitação avançou 0,98%.
Para Marcelo Marques, a inflação acima da média nacional reduz parte do ganho proporcionado pelo crescimento do emprego e das vendas.
“Quando os preços de despesas essenciais avançam mais rapidamente, o efeito é maior sobre as famílias de menor renda, que comprometem uma parcela maior do orçamento com alimentação, habitação, transporte e outros gastos básicos.”
O que melhorou e o que piorou em Goiás
Os sete números mostram que a economia goiana não está em retração generalizada, mas também não repete o desempenho de 2025.
Melhoraram principalmente o comércio, com crescimento de 7,4%, e a indústria, que consegue reverter as perdas dos primeiros meses. O mercado de trabalho continua criando vagas e o PIB apresenta reação em maio.
Pioraram o resultado acumulado do PIB, o desempenho da agropecuária diante da safra recorde anterior e os serviços de mercado. A inflação de Goiânia acima da média nacional também reduz o poder de compra, enquanto o salário das novas contratações permanece como desafio.
O contraste com 2025 é central para entender 2026. No ano passado, Goiás cresceu 3,8% e teve o agro como principal impulsionador da economia. Neste ano, comércio e indústria assumem uma parcela maior da sustentação da atividade.
“Não existe retração em todos os setores. Temos comércio crescendo, indústria reagindo e geração de empregos, enquanto agro e algumas atividades de serviços apresentam resultados mais fracos. O desafio é transformar esse crescimento em produtividade, salários melhores e manutenção do poder de compra”, conclui Marcelo Marques.
A resposta definitiva sobre a economia goiana em 2026 depende agora do segundo semestre. O cenário central do IMB permanece em crescimento de 2% do PIB, mas clima, commodities, inflação, juros e condições de crédito podem alterar o resultado até dezembro.