Domingo, 18 de Outubro de 2026
SUPERAÇÃO

Após câncer na infância, mulher decidiu amputar perna aos 14 anos: ‘Me redescobri’

Aos 32 anos, Letícia Silvério relembra o câncer na infância, a amputação aos 14 anos e a trajetória até a maternidade e a autonomia

Aline Drumond
Por - Goiânia, GO
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Letícia Silvério aparece em foto retratando sua trajetória após o câncer e a amputação na adolescência

Aos cinco anos de idade, Letícia Silvério, hoje com 32, recebeu o diagnóstico de câncer após a mãe perceber uma mudança em sua forma de caminhar. A menina começou a mancar, e a família procurou atendimento médico. Um exame de raio-X identificou uma mancha no joelho esquerdo, e ela foi encaminhada ao Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, onde a doença foi diagnosticada.

Letícia aos 5 anos, quando foi diagnosticada com câncer (Foto: Arquivo pessoal)

Mesmo após a remissão do câncer, as consequências do tratamento continuaram presentes em sua vida. A perna esquerda ficou sem movimento e não acompanhava o crescimento do restante do corpo. Depois de anos de procedimentos ortopédicos sem os resultados esperados, Letícia passou a defender a amputação do membro, decisão que enfrentou resistência inicial da família e foi concretizada quando ela tinha 14 anos.

Com a prótese, Letícia passou a praticar atividades que antes eram limitadas pelas condições da perna e encontrou na internet um espaço para compartilhar experiências e informações sobre a deficiência. Hoje, formada em Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), trabalha com marketing no Ipasgo, realiza campanhas publicitárias e aborda nas redes sociais temas como acessibilidade e direitos das pessoas com deficiência (PCDs).

A primeira prótese de Letícia tinha um revestimento de espuma que imitava o formato de uma perna (Foto: Arquivo pessoal)

Mãe de um menino de dois anos e meio, ela também compartilha aspectos da maternidade e da prática de atividades físicas. Ao contar sua história, Letícia destaca a autonomia sobre as próprias escolhas e a importância de representar pessoas com deficiência em situações que vão além das narrativas de superação.

Diagnóstico na infância e decisão pela amputação

Após a remissão do câncer, Letícia passou por alongamentos, enxertos e diversas cirurgias na tentativa de recuperar a funcionalidade da perna. Como o membro não acompanhava o crescimento do restante do corpo, ela precisava usar uma bota ortopédica de aproximadamente 15 a 20 centímetros para compensar a diferença de comprimento. Apesar das tentativas, os procedimentos não trouxeram os resultados esperados.

Antes da amputação, Letícia usava uma bota ortopédica para compensar a diferença no comprimento da perna (Foto: Arquivo pessoal)

Aos 12 anos, Letícia começou a pedir aos pais que autorizassem a amputação. Inicialmente, a família resistiu, por acreditar que o pedido poderia estar relacionado às mudanças da adolescência. Ela, porém, insistiu durante dois anos.

Os médicos explicaram que a continuidade do tratamento não garantia a recuperação dos movimentos e que ela poderia continuar dependendo de aparelhos e de uma muleta para caminhar.

“Era nítido ver que o tratamento não estava funcionando, porque a minha perna não crescia. A minha perna não era funcional”, relembra.

A amputação foi realizada quando Letícia tinha 14 anos. Após a cirurgia, ela passou a usar uma prótese fornecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com a qual permaneceu por aproximadamente nove anos.

Novas possibilidades e a presença nas redes sociais

A adaptação após a amputação abriu espaço para experiências que antes eram limitadas pelas condições da perna. Logo depois da cirurgia, Letícia pediu à mãe que a matriculasse em aulas de natação, atividade que não conseguia praticar por causa do aparelho ortopédico e da fragilidade do membro.

Depois, começou a dançar, ingressou na faculdade, aprendeu a dirigir e passou a frequentar festas. A experiência transformou sua percepção sobre as próprias possibilidades.

“A amputação para mim foi uma virada de chave. Sem a minha perna eu me redescobri, foi maravilhoso”, afirma.

Em 2012, quando entrou no curso de Publicidade e Propaganda da PUC Goiás, Letícia percebeu que havia pouco conteúdo na internet sobre amputação e a rotina de pessoas que utilizavam próteses. Na época, ela começou a publicar experiências pessoais para compartilhar informações e alcançar outras pessoas que procuravam referências sobre o assunto.

Letícia durante a formação em Publicidade e Propaganda pela PUC Goiás (Foto: Arquivo pessoal)

O perfil cresceu gradualmente e ganhou mais visibilidade em 2017 e 2018, quando uma marca de próteses conheceu seu trabalho e passou a patrociná-la. A parceria abriu portas para participações em eventos e trabalhos com marcas de roupas e empresas de outros segmentos.

Com o tempo, o conteúdo também passou a abordar questões relacionadas aos direitos das pessoas com deficiência, incluindo acessibilidade, benefícios e isenções tributárias. Atualmente, além de trabalhar com marketing no Ipasgo, Letícia realiza campanhas publicitárias e utiliza as redes sociais para compartilhar informações sobre a vida com uma prótese.

Ela também participou de projetos audiovisuais e de um reality show exibido pela Amazon Prime em 2023, experiências que ampliaram as oportunidades de contar sua história para públicos diferentes.

Letícia durante participação em reality show exibido pela Amazon Prime, em 2023 (Foto: Arquivo pessoal)

Ao falar sobre o acesso às próteses, Letícia ressalta que o equipamento fornecido pelo SUS é uma possibilidade importante, mas nem sempre atende às necessidades específicas de todas as pessoas. Por isso, incentiva quem procura um modelo mais adequado a pesquisar alternativas de financiamento e formas de arrecadar recursos.

“Se você quer uma qualidade melhor e tudo, não desiste, faz rifa. E é um investimento que, a longo prazo, supervale pela qualidade que você tem, pelo tempo que você fica usando uma prótese”, aconselha.

Maternidade e representatividade na vida cotidiana

O desejo de ser mãe sempre fez parte dos planos de Letícia, mas a possibilidade de viver a maternidade utilizando uma prótese também despertava dúvidas. Para encontrar informações, ela recorreu à internet e conheceu relatos de outras mulheres com deficiência que compartilhavam experiências sobre gestação, parto e cuidados com os filhos.

Letícia durante a gestação do primeiro filho (Foto: Arquivo pessoal)

Letícia teve o primeiro filho aos 29 anos e descreve a descoberta da gravidez como um momento de muita felicidade. Durante a gestação, teve atenção especial à alimentação para evitar um ganho excessivo de peso e conseguir continuar caminhando com a prótese até o fim.

O parto foi cesáreo. No segundo dia após o nascimento, ela já começou a caminhar, seguindo a orientação médica de se movimentar durante a recuperação. Segundo Letícia, o pós-parto trouxe desconfortos semelhantes aos vividos por outras mulheres, sem dificuldades adicionais significativas relacionadas ao uso da prótese.

Hoje, ela concilia o trabalho, os cuidados com o filho, as viagens em família e a prática de atividades físicas, como CrossFit e academia.

“Eu tenho uma rotina de levá-lo para a escola, de trabalhar, de fazer esporte. Então, assim, vida normal. Eu nem sei se esse é o termo legal de se usar, ‘vida normal’. Eu vivo a vida, acho que é isso”, diz.

Letícia com o filho, fruto de um dos seus grandes sonhos: a maternidade (Foto: Arquivo pessoal)

A experiência de compartilhar a própria rotina também influenciou a maneira como Letícia enxerga a representatividade das pessoas com deficiência. Embora compreenda que algumas pessoas a considerem um exemplo de superação, ela afirma que não gosta de ser apresentada apenas por essa perspectiva.

Para ela, é importante que pessoas com deficiência apareçam também em situações comuns, mostrando suas profissões, relações familiares, interesses e atividades cotidianas. Dessa forma, a representação não fica restrita às dificuldades físicas ou a histórias consideradas extraordinárias.

Ao imaginar o que diria à menina que era antes do diagnóstico, Letícia reconhece que a criança talvez não conseguisse prever as experiências que viveria e as conquistas que alcançaria. Ela conta que os pais sempre foram transparentes sobre o tratamento e as mudanças provocadas pela doença.

A disposição para tentar, mesmo diante de obstáculos, continua sendo uma característica que ela associa à própria trajetória. Letícia afirma que não aceita que a deficiência seja usada como justificativa para impedir que experimente algo antes de tentar.

“Eu nunca aceitei receber um não nessa questão assim: ‘Ah, você não consegue porque você é PCD’. Eu vou tentar”, afirma. “Levar um não sem tentar nunca foi uma opção para mim.”

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