Funcionária encontra, em terapia oferecida no trabalho, força para lidar com luto e diagnóstico de saúde dos filhos
Ela encontrou no benefício oferecido pela empresa uma forma de retomar o acompanhamento psicológico
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Ao longo dos últimos anos, Nathália de Faria Rodrigues precisou lidar com a dor após perder os avós que a criaram, enfrentou um quadro de depressão, passou por tratamentos contra o câncer e recebeu a notícia de que os dois filhos são autistas. Em determinado momento precisou interromper a terapia por falta de recursos financeiros. A possibilidade de retomar o acompanhamento psicológico surgiu em 2025, por meio de um benefício oferecido pela empresa onde trabalha, em Goiânia.
Nathália, 32, começou a trabalhar na Associação Goiana das Empresas de Material para Construções (Agemaco) em 2024, onde atua como analista administrativo. No ano seguinte, passou a utilizar o programa de apoio psicológico disponibilizado pela empresa. Segundo ela, foi a primeira vez que teve acesso a um profissional de saúde mental por meio do trabalho.
O retorno à terapia, porém, não aconteceu de forma imediata. Nas primeiras sessões, Nathália conta que se sentia insegura sobre como falar de questões pessoais e também tinha receio em relação ao sigilo do atendimento. Aos poucos, a confiança foi sendo construída. A possibilidade de realizar as consultas durante o expediente também ajudou a manter o acompanhamento.
“Aprendi que não preciso dar conta de tudo sozinha e que, com apoio e acompanhamento, a caminhada se torna muito mais leve”, afirma.
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Perda dos avós
Criada pelos avós, Nathália começou a enfrentar a depressão após a morte da avó, em 2018. Ela morreu durante um acidente com um quadriciclo em Natal (RN), onde estava a passeio.
Quatro anos depois, em 2022, Nathália passou a cuidar do avô, que enfrentava demência e câncer. Foi durante esse período que, segundo ela, a depressão chegou ao momento mais delicado. No ano seguinte, ele faleceu.
“Por fora, continuava tentando demonstrar força. Por dentro, porém, estava profundamente fragilizada. Eu acreditava que precisava dar conta de tudo, que não podia demonstrar fraqueza e que deveria ser forte o tempo inteiro”, conta.

Câncer e diagnóstico dos filhos
Em 2023, Nathália recebeu um diagnóstico de câncer durante exames de rotina. Ela passou por tratamento, cirurgia e acompanhamento no Hospital de Câncer Araújo Jorge.
Depois de retomar o acompanhamento psicológico, Nathália recebeu o diagnóstico de que os dois filhos são autistas e têm diferentes comorbidades. Diante dos desafios da maternidade atípica, ela conta que acabou se perdendo em meio às responsabilidades e deixou de olhar para as próprias necessidades.
A terapia, segundo Nathália, ajudou a recuperar a leveza e a compreender que também poderia sentir medo, ter dúvidas e se cansar.

Atendimento psicológico no trabalho
O programa da Agemaco existe desde 2024 e oferece aos 14 funcionários diretos duas sessões gratuitas de terapia por mês. Caso necessitem de consultas adicionais, os funcionários podem continuar o acompanhamento pelo valor de R$ 100 por sessão.
Segundo o gerente administrativo Paulo Xavier, a iniciativa foi criada após a empresa identificar situações como rotatividade, absenteísmo, atritos interpessoais e dificuldades emocionais entre os funcionários.
A psicóloga Jackeline Sousa Pires, responsável pela clínica que presta o serviço, destaca que o atendimento deve preservar a privacidade dos trabalhadores. “Esse acesso direto é importante porque evita que o colaborador precise primeiro expor uma questão pessoal a alguém da própria empresa para somente depois receber ajuda”, afirma.
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Para Nathália, a retomada da terapia também mudou a forma como passou a enxergar a própria trajetória. Depois de enfrentar diferentes situações ao longo dos últimos anos, ela afirma que deixou de considerar a necessidade de pedir ajuda como sinal de fraqueza e passou a entender que não precisava ser forte o tempo todo.
Ao imaginar uma conversa com a Nathália de 2022, quando enfrentava o período mais grave da depressão, ela diz que faria um pedido direto àquela versão de si mesma: “Eu diria: peça ajuda, grite, peça socorro. Você não precisa passar por tudo isso sozinha. Acredite em você mesma”.
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