Da garagem de casa a uma marca milionária: mãe e filho transformam produção de roupas em negócio milionário em Goiânia
Criada na pandemia, a Mari Amaral cresceu com as vendas on-line e hoje vende moda feminina em lojas físicas e plataformas digitais
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O que começou com a produção de calças na garagem de casa, durante a pandemia de Covid-19, se tornou uma marca de moda feminina que fabrica e comercializa suas próprias peças. Aos 28 anos, o empresário Mateus Amaral Gomes participa da gestão da Mari Amaral, negócio criado com a mãe em 2020 e que, segundo ele, alcançou faturamento anual superior a R$ 33 milhões. Atualmente, a empresa vende roupas em lojas físicas e pela internet, atendendo clientes de diferentes regiões do Brasil.

A história, porém, começou antes da criação da marca. A mãe de Mateus já trabalhava com confecção havia anos e vendia as peças que produzia em feiras de Goiânia. Quando a pandemia dificultou as vendas presenciais, o filho decidiu ajudá-la a estruturar o negócio. Com experiência no comércio eletrônico, adquirida em uma loja multimarcas da qual era sócio com outra pessoa, ele passou a investir na divulgação digital e em novas formas de comercialização.
No início, a garagem da residência familiar servia para armazenar tecidos, organizar as roupas e realizar o corte dos materiais. A costura era feita por profissionais terceirizados, enquanto mãe e filho cuidavam das demais etapas. O aumento dos pedidos fez com que o espaço doméstico se tornasse insuficiente, levando à mudança para um galpão e, posteriormente, à expansão para lojas físicas.
Em entrevista ao Mais Goiás, Mateus contou como a experiência da mãe no setor de confecção, a aposta nas vendas digitais e os desafios para acompanhar o crescimento transformaram uma produção familiar em uma empresa com dezenas de funcionários e uma rede de profissionais terceirizados.
Uma história que começou antes da marca
A relação da família com o setor de vestuário começou com a mãe de Mateus, que trabalhava com roupas desde a adolescência, ainda na Bahia. No fim de 2009, ela se mudou com o marido para Goiânia, onde pretendia investir na fabricação de peças. A cidade já era reconhecida pela atividade no setor de moda, o que motivou a mudança.
Após a separação do casal, ela interrompeu temporariamente o trabalho com confecção e passou a atuar como auxiliar de professora na rede pública, por meio de um contrato temporário. Após alguns anos, voltou ao setor industrial e conseguiu emprego na fábrica Papel Moeda.
Com o encerramento das atividades da empresa, entre o fim de 2017 e o início de 2018, ela recebeu tecidos como parte do acerto e teve contato com uma costureira que passou a confeccionar as peças. A partir daí, retomou a produção de calças e começou a vendê-las para antigas colegas de trabalho e em feiras de instituições públicas. Também passou a participar da Feira da Lua, em Goiânia.
Na época, Mateus ajudava de maneira pontual, principalmente com fotografias dos produtos. Ele já tinha experiência com vendas pela internet por causa da loja multimarcas da qual era sócio, mas ainda não estava diretamente envolvido na operação da mãe.
A mudança ocorreu em 2020, quando a pandemia de Covid-19 dificultou a continuidade das vendas presenciais. Com menos oportunidades para comercializar as peças nas feiras, a mãe enfrentou dificuldades para manter o negócio. Mateus decidiu, então, usar seus conhecimentos de comércio eletrônico para estruturar a operação e ampliar o alcance dos produtos.
“Foi de uma ajuda que surgiu a Mari Amaral. Até lá não tinha esse nome, e aí foi quando eu profissionalizei a marca com a minha mãe”, contou.
A partir dessa iniciativa, a atividade familiar passou a contar com uma estratégia de divulgação digital e uma organização voltada ao aumento das vendas. A proposta era aproveitar a experiência que Mateus já tinha com o comércio eletrônico para encontrar consumidores além do público que conhecia o trabalho da mãe.
A garagem ficou pequena para o negócio
No início, a estrutura da Mari Amaral era improvisada. A garagem da casa da família funcionava como espaço para armazenar tecidos, organizar as peças e realizar o corte dos materiais. A costura era feita por profissionais terceirizados, enquanto Mateus e a mãe cuidavam das demais etapas da produção e da comercialização.
Cerca de quatro meses depois, a operação ganhou o reforço da primeira funcionária, Rose, que passou a trabalhar com o acabamento e o preparo das roupas.
Para atrair consumidores pela internet, Mateus investiu em estratégias de divulgação e no atendimento pelo WhatsApp. Uma das iniciativas foi oferecer kits com duas calças por R$ 99, divulgados por meio de anúncios pagos nas redes sociais.
“Uma estratégia que a gente tinha era vender kit, duas calças por R$ 99. Naquela época, a gente impulsionou isso no tráfego pago”, explicou.
A estratégia ajudou a ampliar a divulgação dos produtos para além do público que já conhecia o trabalho da mãe de Mateus. Com o crescimento da procura, o atendimento pelo WhatsApp passou a reunir cada vez mais clientes, até que a empresa também investiu em um site próprio.
A internet passou a desempenhar um papel importante na comercialização das roupas. Em vez de depender principalmente das feiras e dos contatos próximos, a marca ganhou canais digitais para apresentar os produtos, receber pedidos e atender consumidores de outras localidades.
O crescimento das vendas, no entanto, trouxe uma dificuldade inesperada: a casa já não comportava o volume de tecidos e roupas. O espaço utilizado pela família passou a concentrar diferentes etapas da operação, comprometendo até mesmo a rotina doméstica.

“Foi quando a casa estava tomada por tecido, por roupa. O quarto da minha mãe só tinha a cama dela, não tinha nem espaço para se locomover”, relembrou Mateus.
A necessidade de separar a residência da atividade comercial levou a família a alugar um galpão de aproximadamente 250 metros quadrados, na região da Bernardo Sayão, em Goiânia. Com a continuidade da expansão, o espaço também se tornou insuficiente, e a empresa precisou ampliar a estrutura de produção e armazenamento.
A marca avançou para as lojas físicas sem abandonar o comércio eletrônico. A combinação dos canais permitiu diversificar as formas de venda e ampliar a presença da empresa no mercado. Assim, a Mari Amaral passou a reunir duas frentes complementares: a produção das peças, com etapas realizadas internamente e a costura terceirizada, e a comercialização por lojas físicas e plataformas digitais.
De produção familiar a uma empresa com dezenas de funcionários
O aumento das vendas exigiu mudanças na organização interna. Segundo Mateus, entre 2023 e 2024, o faturamento da empresa quase triplicou. Em 2025, a marca registrou crescimento de 70% em relação ao ano anterior, conforme os números apresentados pelo empresário.
Atualmente, a Mari Amaral comercializa suas peças em duas lojas físicas, no site próprio e em plataformas digitais, como Shopee, Mercado Livre e TikTok. A empresa envia produtos para diferentes regiões do Brasil. De acordo com Mateus, consumidores de São Paulo representam entre 25% e 30% da clientela.
A operação conta com cerca de 60 funcionários internos, distribuídos em áreas como corte, acabamento, logística, vendas, comércio eletrônico, pós-venda e design. A produção também envolve mais de 100 profissionais terceirizados, que trabalham na costura das peças.
Essa estrutura permite que a empresa mantenha diferentes etapas da fabricação e da venda, enquanto conta com profissionais externos para parte da produção. Com o aumento da operação, porém, também cresceu a necessidade de organizar processos, acompanhar os custos e garantir que a estrutura acompanhasse a demanda.
Apesar dos resultados, a expansão trouxe dificuldades para administrar uma operação cada vez maior. Mateus relata que a velocidade do crescimento exigiu aprimoramento dos processos e maior atenção ao equilíbrio financeiro.
Um dos períodos mais difíceis ocorreu entre o fim de 2022 e o início de 2023, quando as vendas ficaram abaixo das expectativas. A situação provocou problemas no fluxo de caixa e exigiu renegociações com fornecedores. Diante das dificuldades, o empresário chegou a considerar a possibilidade de desistir do negócio.
“O momento em que eu pensei em desistir foi final de 2022, início de 2023, quando a gente tinha uma expectativa de vendas e não veio”, relatou.
A experiência mostrou que ampliar as vendas não era suficiente para sustentar a operação. Era necessário organizar os processos e adequar a gestão às novas dimensões da empresa. O desafio passou a ser manter o crescimento sem perder o controle sobre as diferentes etapas do negócio.
Planos para continuar crescendo
Para os próximos anos, Mateus pretende ampliar a presença da Mari Amaral no mercado, com a abertura de novas lojas e o fortalecimento das vendas digitais. O TikTok está entre as plataformas que devem receber atenção especial nos próximos dois anos.
Além dos resultados financeiros, o empresário destaca a responsabilidade com as pessoas que participam da produção. A rede de profissionais envolvidos na confecção e os empregos gerados passaram a fazer parte do impacto que ele associa à trajetória da empresa.
“É uma grande responsabilidade saber que tem centenas de famílias que dependem do nosso trabalho para se manter, para viver”, afirmou.
A transformação também mudou a realidade da família, que começou com a produção de calças na garagem de casa e precisou adaptar a estrutura conforme as encomendas aumentavam. O negócio, que antes dependia principalmente das vendas presenciais realizadas pela mãe, passou a combinar fabricação, lojas físicas e comércio eletrônico para alcançar consumidores de diferentes regiões do Brasil.
“A trajetória mudou nossa vida completamente. Hoje a gente se sente realizado em poder abençoar diversas famílias”, concluiu.
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