Dá para sair da casa dos pais com salário mínimo em Goiânia? Veja a conta
Aluguel, cesta básica e transporte somam cerca de R$ 2.060 por mês em Goiânia, acima do salário mínimo de R$ 1.621; conta ainda não inclui água, luz, internet, gás ou condomínio
Ir direto pra matéria
Sair da casa dos pais e morar sozinho em Goiânia não cabe hoje em um salário mínimo quando entram na conta apenas aluguel, alimentação e transporte. Simulação feita pelo Mais Goiás com os dados mais recentes disponíveis aponta despesa de R$ 2.059,74 para quem aluga um imóvel hipotético de 25 m² pelo preço médio da capital, compra a cesta básica e utiliza ônibus para trabalhar.
O valor é R$ 438,74 superior ao salário mínimo de R$ 1.621 vigente desde janeiro e ainda não considera energia elétrica, água, gás, internet, telefone, condomínio, IPTU, produtos de higiene, saúde, lazer ou imprevistos. O piso nacional foi fixado pelo Decreto 12.797/2025 e o Mais Goiás mostrou as mudanças provocadas pelo novo salário mínimo.
A conta antecede o Dia Estadual da Consciência Jovem, celebrado em Goiás nesta quarta-feira (12), conforme o calendário oficial da Casa Civil. A data serve de ponto de partida para uma questão que deixou de ser apenas familiar e passou a ser também econômica: quanto custa, afinal, conquistar independência financeira na capital?
Só aluguel e comida já superam o salário mínimo

O Índice FipeZap de Locação Residencial aponta que o preço médio anunciado para apartamentos em Goiânia era de R$ 43,11 por metro quadrado em junho, dado mais recente do levantamento. Um imóvel hipotético de 25 m² custaria, portanto, R$ 1.077,75 mensais apenas de aluguel.
A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos divulgada nesta segunda-feira (10) pelo Dieese mostra que a cesta de Goiânia caiu 3,46% em julho e passou a custar R$ 792,79. Somados apenas aluguel e alimentação, a despesa chega a R$ 1.870,54, R$ 249,54 acima do salário mínimo antes de qualquer outra conta doméstica.
O cálculo do aluguel é uma estimativa feita pela reportagem a partir do valor médio do metro quadrado anunciado pelo FipeZap e não significa que exista necessariamente um imóvel de 25 m² disponível por esse preço. O próprio índice é calculado a partir de anúncios de apartamentos prontos para novos contratos de locação e não inclui automaticamente condomínio ou IPTU.
Com ônibus, despesa chega a R$ 2.059,74

O passageiro da Região Metropolitana de Goiânia continua pagando R$ 4,30 por viagem, mesmo depois do reajuste da tarifa técnica do transporte coletivo. Considerando duas passagens por dia durante 22 dias úteis, são outros R$ 189,20 mensais, conforme valor acompanhado pelo Mais Goiás.
A soma chega, assim, a R$ 2.059,74: R$ 1.077,75 de aluguel, R$ 792,79 de alimentação e R$ 189,20 de transporte. O montante corresponde a aproximadamente 127% do salário mínimo e deixa um déficit de R$ 438,74 para quem recebe o piso nacional.
A simulação é deliberadamente enxuta e não representa o custo total de morar sozinho em Goiânia. Despesas inevitáveis como água, energia, gás e produtos domésticos fariam o valor necessário subir ainda mais.
Bairro escolhido muda a conta, mas não resolve o problema

O FipeZap mostra diferenças expressivas entre bairros da capital: o metro quadrado anunciado chegava a R$ 66 no Marista e R$ 50 no Bueno, enquanto Nova Suíça e Setor Aeroporto apareciam com R$ 29,80 por metro quadrado. Jardim América registrava R$ 38,20 e a região Central, R$ 31,50.
Se o mesmo imóvel hipotético de 25 m² fosse alugado por R$ 29,80 o metro quadrado, o aluguel cairia para cerca de R$ 745. Mesmo assim, aluguel, cesta básica e transporte somariam R$ 1.726,99, ou R$ 105,99 acima do salário mínimo.
A pressão da moradia é especialmente relevante em Goiás, onde 28,8% dos domicílios são alugados, segunda maior proporção entre as unidades da Federação, segundo a Pnad Contínua 2025. O dado foi mostrado pelo Mais Goiás em reportagem sobre o avanço dos imóveis alugados no estado.
Quem é considerado jovem e quanto esse grupo ganha
O Estatuto da Juventude considera jovens as pessoas entre 15 e 29 anos, mas a comparação desta reportagem utiliza a faixa de 18 a 24 anos para analisar rendimento e possibilidade de deixar a casa dos pais. O recorte aparece de forma específica em estudos do mercado de trabalho e exclui menores de idade da discussão sobre manutenção independente de uma residência.
Análise do Ipea baseada na Pnad Contínua aponta rendimento médio de R$ 1.984 para trabalhadores de 18 a 24 anos no quarto trimestre de 2025. O número é nacional, portanto não deve ser interpretado como salário médio específico do jovem goiano.
Mesmo assim, o confronto ajuda a dimensionar a dificuldade: os R$ 1.984 ficam R$ 75,74 abaixo dos R$ 2.059,74 calculados para apenas três despesas em Goiânia. A comparação também usa valores de períodos diferentes e funciona como referência de poder de compra, não como uma equivalência estatística entre os levantamentos.
Salário de quem entra no mercado em Goiás é de R$ 2.145
No mercado formal goiano, o salário médio de admissão foi de R$ 2.145,07 em junho, segundo o Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego. O valor ficou 10,8% abaixo dos R$ 2.404,34 registrados nacionalmente e foi o menor entre os quatro estados do Centro-Oeste.
O indicador também não representa exclusivamente jovens, mas ajuda a mostrar quanto recebem, em média, pessoas que ingressam em um novo vínculo formal no estado. O Mais Goiás mostrou que Goiás criou 3.780 empregos em junho, apesar da remuneração inicial inferior à média brasileira.
Economista e contador, Marcelo Marques avaliou naquela análise que criar vagas não basta para medir a melhora das condições de vida. Segundo ele, a remuneração é determinante para transformar o emprego em maior capacidade de consumo e bem-estar das famílias.
Marques também alerta que o dado do Caged não corresponde ao salário médio de toda a população ocupada, mas apenas aos contratos iniciados no mês. Para ele, o desafio de Goiás é converter o crescimento do emprego em postos com maior produtividade, qualificação e remuneração.
Nem R$ 2.145 deixam muita margem para morar sozinho
Mesmo utilizando os R$ 2.145,07 do salário médio das novas contratações, a conta permanece apertada. Depois dos R$ 2.059,74 estimados para aluguel, alimentação e ônibus, sobrariam somente R$ 85,33 antes de pagar todas as outras despesas mensais.
A comparação é ainda mais favorável do que a situação real de um empregado porque o salário de admissão informado pelo Caged é bruto. Para quem ganha um salário mínimo, por exemplo, a contribuição previdenciária também reduz o valor efetivamente recebido.
Esse descompasso ajuda a explicar por que dividir moradia, continuar na casa da família ou procurar bairros mais distantes pode deixar de ser apenas uma preferência. Com aluguel consumindo parcela elevada da renda, a independência residencial passa a depender de uma remuneração significativamente superior ao piso.
Moradia já entrou na agenda pública de Goiânia
O custo da habitação também aparece nas políticas discutidas pela prefeitura. O Programa Morar no Centro prevê subsídio de parte do aluguel, recuperação de imóveis ociosos e incentivos para aumentar a população residente na região central, tema detalhado pelo Mais Goiás em uma série de reportagens sobre o projeto.
A proposta tem orçamento inicial de R$ 24 milhões e pretende atrair cerca de 10 mil novos moradores para o Centro. O Mais Goiás também mostrou que o programa prevê auxílio habitacional e outras medidas de requalificação urbana.
Sair da casa dos pais virou uma conta de renda
A simulação do Mais Goiás não estabelece uma renda ideal para todos os jovens, porque necessidades, bairros, formas de transporte e padrões de consumo variam. Ela mostra, porém, que um salário mínimo não cobre sequer aluguel médio estimado de um espaço pequeno, cesta básica e deslocamento diário por ônibus.
Às vésperas do Dia Estadual da Consciência Jovem, os números colocam a autonomia em termos concretos: o piso é de R$ 1.621, enquanto três despesas essenciais já alcançam aproximadamente R$ 2.060 em Goiânia. Para boa parte de quem começa a vida profissional, sair da casa dos pais deixa de depender apenas da vontade e passa, antes de tudo, pela renda disponível