Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026
MENOS ARBORIZAÇÃO, MAIS CALOR

Pesquisa da UFG encontra diferença de até 19°C na temperatura da superfície entre bairros de Goiânia

O maior contraste foi registrado entre o Jardins do Cerrado, na região oeste da capital, e o Residencial Aldeia do Vale, na região nordeste

Rafael Oliveira
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
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Uma pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) identificou uma diferença de até 19°C na temperatura da superfície entre diferentes áreas de Goiânia. O maior contraste foi registrado entre o Jardins do Cerrado, na região oeste da capital, e o Residencial Aldeia do Vale, na região nordeste.

No levantamento, o Jardins do Cerrado apresentou temperatura de superfície da terra de aproximadamente 40°C, enquanto o Residencial Aldeia do Vale registrou cerca de 21°C. A diferença de 19°C foi classificada pela pesquisa como uma ilha de calor urbana de intensidade muito forte

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O resultado faz parte da tese de doutorado de Ana Cristina Araújo Foli, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFG. O estudo analisou a distribuição das temperaturas na capital a partir de imagens termais obtidas por satélite.

Jardins do Cerrado, em Goiânia, tende a ter temperaturas mais altas no solo por pouca arborização (Foto: reprodução)
Jardins do Cerrado, em Goiânia, tende a ter temperaturas mais altas no solo por causa da pouca arborização (Foto: reprodução)

Temperaturas do ar

Apesar do número chamar atenção, os 19°C não representam uma diferença entre as temperaturas do ar registradas por termômetros nos dois bairros.

A pesquisa trabalha com a Temperatura da Superfície Terrestre (TST), obtida por meio de imagens de sensoriamento remoto. Na análise que encontrou o maior contraste, foi utilizada uma imagem do satélite Landsat 8 registrada em 12 de setembro de 2021

Naquele dia, a estação convencional do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em Goiânia registrou 39,1°C de temperatura máxima do ar e mínima de 22,2°C. Já a imagem de satélite permitiu observar como o calor estava distribuído pela superfície da cidade. 

Residencial Aldeia do Vale, em Goiânia, tem temperaturas mais baixas no solo por amplas áreas arborizadas em volta das casas (Foto: reprodução)
Residencial Aldeia do Vale, em Goiânia, tem temperaturas mais baixas no solo por amplas áreas arborizadas em volta das casas (Foto: reprodução)

A diferença medida pela pesquisa, portanto, representa o contraste entre as condições térmicas das superfícies urbanas naquele momento — como áreas construídas, pavimentadas e vegetadas — e não significa que os moradores de um bairro tenham enfrentado uma temperatura do ar 19°C maior que os moradores do outro.

O complexo de bairros Jardins do Cerrado recebeu seus primeiros moradores em 2009. Ele surgiu de uma parceria público-privada envolvendo o Governo de Goiás e a Prefeitura de Goiânia para reduzir o déficit habitacional de baixa renda.

Já o O Residencial Aldeia do Vale surgiu em 1997, com mais de 1,5 milhão de metros quadrados de área verde e dezenas de lagos com nascentes próprias, projetado como condomínio de alto padrão.

A Vice-Presidente do Crea-GO, engenheira civil Juliana Matos, diz que o calor pode atingir uma cidade inteira, mas ele não atinge todas as pessoas da mesma forma. “Esse fenômeno acontece principalmente porque, à medida que a cidade cresce, a vegetação vai dando lugar ao asfalto, ao concreto e às construções. Esses materiais absorvem muito calor durante o dia e demoram a esfriar. Já as árvores fazem sombra e ajudam a refrescar o ambiente. Por isso, áreas com menos verde e mais superfícies impermeáveis tendem a ficar mais quentes. Árvores são muito mais do que paisagismo. É infraestrutura urbana”, explicou.

A ilha de calor é um fenômeno ambiental, segundo Juliana Matos, e a vulnerabilidade ao calor também é social. “Precisamos parar de tratar arborização, drenagem, mobilidade e ocupação do solo como políticas separadas. A cidade precisa ser planejada climaticamente”.

Foto contra a luz do sol em paisagem urbana
Goiás tem registrado temperaturas de 41ºC, as mais altas do Brasil (Foto: Jucimar de Sousa/Mais Goiás)

Seis comparações tiveram diferença de pelo menos 10°C

A análise de setembro de 2021 apresentou seis comparações entre áreas mais quentes e mais amenas de Goiânia. Todas foram classificadas como ilhas de calor de intensidade “muito forte”. As diferenças variaram de 10°C a 19°C

O maior contraste foi justamente entre o Jardins do Cerrado e o Residencial Aldeia do Vale. Outros exemplos encontrados na mesma análise foram:

  • Setor Campinas: 36°C — Setor Bueno: 21°C — diferença de 15°C;
  • Jardim Nova Esperança: 36°C — Parque Amazônia: 24°C — diferença de 12°C;
  • Vila Mutirão: 36°C — Jardim América: 24°C — diferença de 12°C;
  • Jardim Leste Vila Nova: 32°C — Setor Oeste: 21°C — diferença de 11°C;
  • Bairro Goiá: 36°C — Vila Redenção: 26°C — diferença de 10°C. 

A pesquisadora Ana Cristina Foli ressalta, porém, que essas comparações foram organizadas com caráter exclusivamente ilustrativo, para exemplificar o fenômeno analisado. Por isso, os números não devem ser interpretados como uma diferença permanente de temperatura entre os bairros.

O que explica o contraste?

Segundo a tese, o contraste observado entre o Jardins do Cerrado e o Residencial Aldeia do Vale evidencia diferenças microclimáticas relacionadas a características da ocupação urbana, como densidade das construções, cobertura vegetal e uso do solo. 

A distribuição das temperaturas observada na imagem também mostrou áreas mais quentes concentradas principalmente em regiões urbanizadas, enquanto áreas com maior presença de vegetação apresentaram temperaturas de superfície mais baixas. 

No caso específico analisado, o contraste aparece entre dois bairros com características de ocupação bastante diferentes. A tese descreve o Jardins do Cerrado como uma área de ocupação mais recente, enquanto o Residencial Aldeia do Vale possui ocupação aberta, de baixa elevação e com maior presença de vegetação no entorno.  

Retrato feito do alto

A pesquisa mostra, assim, uma Goiânia que não apresenta uma temperatura uniforme quando observada por imagens de satélite. Em uma mesma cidade e em uma mesma data, a superfície pode responder de maneiras muito diferentes à radiação solar.

No mapa térmico analisado pela pesquisadora, as áreas mais aquecidas aparecem principalmente nas regiões periféricas, oeste e sudoeste, além da região central e de áreas próximas. Os valores observados chegaram às classes de 32°C a 36°C, enquanto outras áreas apresentaram temperaturas de superfície consideravelmente menores. 

O estudo, portanto, não aponta simplesmente qual bairro é “mais quente” ou “mais frio”. Ele revela como a própria forma de ocupação da cidade cria diferentes condições térmicas sobre o território — um contraste que, em um dos exemplos analisados, chegou a 19°C.

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