Segunda-feira, 27 de Julho de 2026
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Super El Niño: tudo sobre o fenômeno que ameaça Goiás com calor extremo, seca e incêndios

Mais Goiás analisa as consequências do super El Niño para o Estado; fenômeno deve ser um dos mais intensos da última década, segundo projeções oficiais da Semad

Por - Goiânia, GO
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Risco elevado de queimadas é uma das consequências potenciais do Super El Niño (Foto: Magnific)

No final de maio, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) divulgou um estudo que aponta para risco de 81% de ocorrência de um ‘super El Niño’ em Goiás no ano de 2026.

‘Super el Niño’ é o nome do fenômeno climático que se caracteriza por altas temperaturas e secas prolongadas – bem acima da média histórica.

A área técnica entende que um ‘super El Niño’ é aquele em que a temperatura média aumenta pelo menos 2ºC no comparativo com a média de anos anteriores. No El Niño forte, o aumento é de 1,5ºC. No moderado, entre 1ºC e 1,4ºC. No fraco, entre 0,5ºC e 0,9ºC.

Na simulação climática feita para 2026, a projeção é de aumento de 2,2ºC.

A Semad chegou a essa estimativa depois de um trabalho de análise e de monitoramento de dados colhidos pelo Centro de Informações Metereológicas e Hidrológicas (Cimehgo), que é uma gerência integrada à estrutura da pasta.

Principais ‘super El Niños’ da história

  • 1877/1878: extremo, grande seca global
  • 1982/1983: muito forte, com secas severas e perdas agrícolas
  • 1997/1998: muito forte, com recordes de temperaturas e incêndios
  • 2015/2016: muito forte, com seca intensa no centro-oeste brasileiro
  • 2026/2027: risco elevado de seca, calor extremo e incêndios
Expectativa é de aumento de 2,2ºC na temperatura média do período de estiagem em Goiás nesse ano (Gráfico: Semad)

Dados analisados

Em abril e maio, o índice de temperatura na região do Pacífico Equatorial registrou trajetória de subida rápida, indicando que as condições neutras haviam ficado para trás e que o fenômeno El Niño 2026/2027 já estava em desenvolvimento.

“A partir do inverno (trimestre junho-julho-agosto), a tendência de aquecimento se intensifica de forma progressiva. A probabilidade de desenvolvimento do El Niño sobe para 90% entre junho e agosto, atingindo o patamar de 95% no trimestre julho-agosto-setembro”, diz o Cimehgo.

Impactos do super El Niño em Goiás no Brasil

Um padrão clássico associado ao El Niño no Brasil é o de dividir o Brasil entre seca a seca severa no Centro/Norte/Nordeste; e chuvas mais volumosas, com enchentes, no Sul/Sudeste.

Durante o El Niño, o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial altera a circulação atmosférica, inibindo a formação de chuvas no Centro/ Norte/Nordeste e favorecendo frentes frias estacionárias no Sul.

O impacto agrícola do El Niño em Goiás é majoritariamente negativo, com quedas frequentes na produtividade de grãos como soja, milho e feijão devido a chuvas irregulares, déficits hídricos no estado e ondas de calor intensas.

Municípios com maior risco de desabastecimento em Goiás

Em razão das altas temperaturas e do período maior sem chuvas, também é maior o risco de desabastecimento público e escassez de recursos hídricos.

De acordo com a Semad, os municípios com maior risco de eventual desabastecimento hídrico em Goiás ocasionado pelo super El Niño são:

  • Anápolis
  • Aparecida de Goiânia
  • Goiatuba
  • Cidade Ocidental
  • Valparaíso
  • Corumbaíba
  • Mairipotaba
  • Trindade
  • Cocalzinho de Goiás
  • Crixás
  • Pirenópolis
  • Cidade de Goiás
  • Guapó
  • Nerópolis
  • Palmeiras de Goiás
  • Planaltina de Goiás
  • Rio Verde
  • Aragoiânia
  • Cristalina

E agora, o que fazer?

Para reduzir o risco, o governo elencou uma série de ações que estão em execução.

Uma delas é monitoramento hidrológico e pluviométrico constante. Ele acontece a partir de uma rede com 42 estações automáticas, por onde técnicos fazem o acompanhamento diário do nível dos rios, das vazões, e preparam boletins para orientar autoridades na tomada de decisões.

Em outra frente, a Semad opera na fiscalização preventiva e repressiva, com combate a captações irregulares, proteção de mananciais e cursos d’água e parcerias com órgãos de segurança pública e prefeituras.

Trecho do rio Meia Ponte, que abastece a região metropolitana de Goiânia

As ações de fiscalização são acompanhadas de campanhas educativas pela promoção do uso racional da água em Goiás. No âmbito dessas campanhas, o Estado estreitou diálogo com os grandes usuários do sistema de abastecimento público e, quando for necessário, convocará reuniões de alocação, em que se definem quais são as prioridades para água existente (nos momentos em que a oferta não é o bastante para atender todos na integralidade).

A lei estabelece que os usos prioritários devem ser sempre: 1) o abastecimento humano, 2) a dessedentação animal, 3) a segurança alimentar e 4) a saúde pública.

Dados estão disponíveis ao público

Todos os dados sobre níveis e vazões de rios em Goiás são públicos e estão disponibilizados no portal do Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos da Semad (SIRH-GO).

Em casos extremos, o governo também requisita a liberação de água retida em barragens de empreendedores (proprietários rurais, em sua maioria). O diálogo com eles é constante e todos estão sempre de sobreaviso para liberar recursos hídricos se for necessário.

Incêndios florestais em Goiás

A combinação entre longos períodos sem chuva, baixa umidade e comportamento irresponsável de uma parcela da população fez com que Goiás perdesse em média 472 mil hectares por ano desde 2019. Esses dados são disponibilizados pelo Mapbiomas, uma plataforma que trabalha com diferentes sistemas de alerta.

O ano mais crítico foi 2019, em que houve perda de pouco mais de 686,2 mil hectares de vegetação. O ano em que houve menos prejuízo nessa série histórica foi 2023, com 245,9 mil hectares queimados. Em 2025, o registro foi de 551,3 mil hectares de vegetação nativa perdidos.

Incêndios geram prejuízo de até R$ 1,5 bilhão em Goiás (Foto: Agência Brasil)

Existe o risco de esses números serem maiores em 2026, caso o período sem chuvas seja maior do que foi em anos anteriores.

O governo de Goiás estima que um ano de queimadas severas resulte em prejuízo de até R$ 1,5 bilhão para economia goiana. Em 2024, ano em que os números foram preocupantes, o agronegócio brasileiro sofreu perdas de até R$ 14,7 bilhões, de acordo com estimativas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

Veja qual foi a área queimada em Goiás nos últimos anos (fonte: Mapbiomas)

  • 2021: 684,3 mil hectares
  • 2022: 390,1 mil hectares
  • 2023: 250,7 mil hectares
  • 2024: 429,9 mil hectares
  • 2025: 731,8 mil hectares

Veja a divisão mensal da área queimada em Goiás em 2025 (fonte: Mapbiomas)

  • Outubro: 395,4 mil hectares (54,1%)
  • Setembro: 122,7 mil hectares (16,8%)
  • Agosto: 105,6 mil hectares (14,6%)
  • Julho: 48,8 mil hectares (6,7%)
  • Junho: 17,6 mil hectares (2,4%)
  • Novembro: 15,7 mil hectares (2,2%)
  • Maio: 9,9 mil hectares (1,4%)
  • Abril: 5,1 mil hectares (0,7%)
  • Março: 4,4 mil hectares (0,6%)
  • Dezembro: 2,1 mil hectares (0,3%)
  • Fevereiro: 1,2 mil hectares (0,2%)
  • Janeiro: 559 hectares (0,1%)

Ações do Estado contra as queimadas

Parte significativa do remanescente de vegetação nativa do Cerrado está dentro dos limites territoriais das unidades de conservação administradas pela Semad. Essas unidades de conservação são os parques estaduais e o entorno delas, chamado de Área de Proteção Ambiental (APA).

Em 2024, a área queimada em unidades de conservação foi de 14,9 mil hectares. Em 2025, caiu para 2,1 mil – redução de 86%.

Por entender que a estratégia deu certo, Semad e Corpo de Bombeiros replicaram a estratégia em 2026 e instalaram nove bases preventivas no interior do Estado. Elas ficam na Estação Ecológica de Nova Roma e nos parques estaduais do Araguaia (PEA), de Terra Ronca (Peter), de Águas do Paraíso (Peap), de Pirenópolis (PEP), de Serra Dourada (Pesd), Altamiro de Moura Pacheco (Peamp) e da Serra de Caldas Novas (Pescan). Além de combate ao fogo, essas bases operam na fiscalização e na responsabilização por danos ambientais.

Brigadistas combatem foco de incêndio em Goiás (Foto: Governo do Estado)

No dia 24 de julho de 2026, o governador Daniel Vilela e a secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Andréa Vulcanis, assinaram um decreto que instituiu situação de emergência ambiental em Goiás em razão da alta probabilidade de ocorrência de incêndios florestais. Com o decreto, os órgãos competentes estão autorizados a tomar todas as medidas necessárias para proteger o Cerrado do fogo, como, por exemplo, proceder com contratação de serviços e aquisição de equipamentos com dispensa de licitação (nos termos previstos em lei).

PSA Brigadas comunitárias: mais uma frente contra queimadas

Goiás deu início, em julho de 2026, às ações operacionais do projeto-piloto PSA Brigadas, que se propõe a remunerar brigadas comunitárias que atuam em linhas de frente do controle de queimadas.

A região foi escolhida para etapa-piloto do programa por ser aquela em que há o maior remanescente de vegetação a ser preservada e pela pressão por desmatamento que vem de estados como Tocantins e Bahia.

O PSA das brigadas comunitárias abriu 180 vagas, igualmente divididas entre seis municípios da região Nordeste de Goiás: Colinas do Sul, Alto Paraíso, Cavalcante, Teresina de Goiás, São Domingos e Nova Roma.

Os interessados fizeram um treinamento promovido pelo Corpo de Bombeiros e foram convidados a assinar o termo de adesão ao programa, firmando o compromisso de prestar uma série de serviços ambientais voltados para prevenção, monitoramento, prevenção e manejo integrado do fogo. O Estado exige que os participantes residam nos municípios escolhidos para etapa-piloto e tenham mais de 18 anos.

Treinamento do PSA Brigadas (Foto: Semad Goiás)

O valor é de R$ 267,24 por períodos fechados de 12 horas em que o provedor estiver operacionalmente disponível para a realização de ações de prevenção, vigilância territorial, monitoramento e combate a incêndios florestais pelas brigadas comunitárias.

As ações a serem pagas serão aquelas realizadas entre 1º de julho e 4 de novembro de 2026 com períodos de até 12 horas de participação voluntária, assegurado intervalo mínimo de 24 horas de repouso entre os períodos. Os brigadistas trabalharão com Equipamento de Proteção Individual (EPIs) e viaturas fornecidos pelo Estado.

Nos períodos em que não houver incêndio a combater, durante o turno de 12 horas, o brigadistas cumprirá uma agenda de visitas a produtores rurais, escolas de residências do município.

Confira o edital de criação do PSA Brigadas

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Meio Ambiente
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