Quinta-feira, 22 de Outubro de 2026
JUSTIÇA

Dos 10 PMs condenados por torturar inocente em Goiás, um segue na ativa, diz corporação

Corporação afirma que não foi notificada oficialmente da decisão

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:
Justiça Federal manteve condenação de dez policiais militares de Goiás por tortura contra jovem inocente em Trindade, em 2010 | Foto: Reprodução

Dos dez policiais militares de Goiás que tiveram as condenações mantidas pela Justiça Federal por tortura contra um jovem inocente em Trindade, apenas um continua na ativa. A informação foi confirmada pela Polícia Militar de Goiás (PMGO) em nota enviada ao Mais Goiás nesta quinta-feira (22). A corporação informou que acompanha o processo, mas ainda não recebeu comunicação oficial para cumprir a decisão judicial.

O crime aconteceu em junho de 2010, quando um jovem foi capturado sem mandado judicial e submetido a agressões físicas, choques elétricos e afogamento simulado para confessar crimes que não havia cometido. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) manteve a condenação dos dez agentes por tortura qualificada, com penas de sete a oito anos de prisão, em regime inicialmente fechado.

Além das penas de prisão, a decisão determinou a perda dos cargos públicos e a proibição de exercício de funções públicas pelo dobro do tempo das condenações. Os policiais também deverão pagar indenização por danos morais à vítima, em valor equivalente a cinco vezes a remuneração bruta mensal de cada condenado.

Apenas um policial permanece na ativa

Questionada pelo Mais Goiás sobre a situação funcional dos agentes, a PMGO confirmou que nove dos dez condenados não estão atualmente no serviço ativo. A corporação, no entanto, não esclareceu quantos estão na reserva remunerada ou já foram desligados definitivamente.

Em nota, a instituição afirmou que adotará as medidas necessárias assim que for oficialmente comunicada da decisão.

“A PMGO adotará as providências cabíveis tão logo seja formalmente cientificada, em observância às determinações judiciais e à legislação vigente”, informou.

A corporação também declarou que eventuais desvios de conduta serão apurados, com respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa.

Policiais tentaram obter confissão por meio de tortura

Conforme a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), o jovem foi capturado em Trindade e submetido a violência física e psicológica para assumir a responsabilidade por crimes que não cometeu.

O caso já havia sido acompanhado pelo Mais Goiás. Em janeiro de 2018, o jornal mostrou que seis dos dez policiais acusados de tortura haviam sido promovidos na hierarquia da corporação, apesar da investigação criminal.

Na ocasião, o procurador da República Hélio Telho questionou as promoções. Segundo a denúncia divulgada à época, a vítima havia sido submetida a aproximadamente três horas de agressões físicas, psicológicas e ameaças. 

Condenação também prevê indenização

A manutenção das condenações pelo TRF1 representa uma nova etapa de um processo relacionado a fatos ocorridos há 16 anos. A decisão impõe consequências criminais e funcionais aos policiais envolvidos.

A Lei nº 9.455/1997, que define os crimes de tortura no Brasil, estabelece penas de prisão e prevê, nos casos definidos pela legislação, a perda do cargo público e a interdição para o exercício de função pública.

A condenação mantida pelo tribunal também contempla indenização por danos morais. Como o valor foi fixado individualmente, com base na remuneração bruta mensal de cada policial, o montante total dependerá dos vencimentos considerados no processo.

A PMGO não informou se os policiais ou suas defesas apresentaram novos recursos contra a decisão.

O tema também voltou à pauta do próprio TRF1 neste mês. Em 19 de outubro de 2026, o tribunal divulgou um novo fluxo interno para identificação, registro e acompanhamento de casos de tortura, maus-tratos e tratamentos cruéis, aplicável às unidades da Justiça Federal da 1ª Região, incluindo Goiás. 

Confira a nota da Polícia Militar na íntegra

“A Polícia Militar do Estado de Goiás reafirma seu compromisso com a legalidade e o respeito aos direitos humanos e às garantias fundamentais.

Em relação ao caso mencionado, a Corporação esclarece que acompanha a tramitação do processo e que, até o momento, não foi oficialmente comunicada para dar cumprimento à decisão judicial. A PMGO adotará as providências cabíveis tão logo seja formalmente cientificada, em observância às determinações judiciais e à legislação vigente.

A PMGO esclarece que, dos dez policiais militares envolvidos, apenas um permanece atualmente no serviço ativo da Corporação.

A Polícia Militar de Goiás reafirma seu compromisso com a legalidade, a responsabilidade funcional e a transparência. Eventuais desvios de conduta serão apurados com rigor, assegurados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.“

Comando de Comunicação Estratégica – PMGO

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