‘Ela me traz tanta paz e força’: goiana descobre câncer grávida, tem parto antecipado e cuida da filha durante o tratamento
Elisflávia descobriu câncer no intestino durante a gravidez, teve parto antecipado e segue em tratamento após o nascimento da filha
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A descoberta de um câncer durante a gravidez mudou os planos e a rotina de Elisflávia Guimarães, de 37 anos. Diagnosticada com um tumor no intestino quando estava com 29 semanas de gestação, ela precisou lidar com a evolução da doença enquanto aguardava o nascimento da primeira filha, Olívia.
Com o agravamento do quadro clínico, o parto foi antecipado. Agora, aos seis meses da bebê, Elisflávia segue em tratamento oncológico e encontra na maternidade uma das principais fontes de força para enfrentar o período.
Em entrevista ao Mais Goiás, Elisflávia relembrou os momentos de incerteza desde o diagnóstico, até a chegada da filha e os desafios da recuperação. Segundo ela, a preocupação com a saúde da bebê esteve à frente dos próprios medos durante a gestação. “Naquele momento, só o que me passava na cabeça era que eu precisava ser forte pela Olívia, saber se ela estava bem”, contou.
Além do tumor no intestino, foram identificadas metástases no abdômen e em um dos ovários. De acordo com ela, a doença avançou rapidamente, provocando perda de peso e anemia, além do acúmulo de líquido na barriga, que também começou a atingir os pulmões.

Inicialmente, a equipe médica avaliava a possibilidade de prolongar a gestação até a 37ª semana para permitir o início do tratamento. Depois, chegou a considerar o parto a partir da 35ª semana. No entanto, o aumento das dores e o acúmulo recorrente de líquido, mesmo após procedimentos para retirá-lo, levaram à antecipação do nascimento.
Olívia nasceu em 6 de abril, quando Elisflávia estava entre a 31ª e a 32ª semana de gestação. “Eu descobri com 29 [semanas], e ela nasceu com 31 a 32 semanas. Então, foi muito rápido, o parto foi antecipado devido à piora clínica que eu tive”, relatou.

Parto antecipado e duas mães em UTIs diferentes
O nascimento de Olívia exigiu uma cirurgia que reuniu os cuidados obstétricos e oncológicos. Além da cesariana, Elisflávia passou pela retirada do ovário que apresentava metástase e por um procedimento no ovário esquerdo. A cirurgia para tratar o tumor primário no intestino ficou para uma etapa posterior, após a tentativa de reduzir a doença com quimioterapia.
Enquanto a mãe permanecia na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a filha também precisou de cuidados intensivos neonatais. A separação nos primeiros dias após o parto foi um dos momentos mais difíceis para Elisflávia, que só conseguia receber notícias da bebê por meio do marido.
“Os dois dias que fiquei lá, na UTI, para mim foram os piores, porque eu não podia vê-la. Eu estava em outro hospital, na UTI, e ela na UTI”, lembrou.
Após receber alta, Elisflávia ainda precisou permanecer por alguns dias no hospital. Olívia continuou internada por mais 15 dias, período em que precisava ganhar peso e desenvolver a capacidade de mamar antes de ir para casa.
A rotina era especialmente desgastante porque Elisflávia também se recuperava da cesariana e da cirurgia realizada para tratar as complicações relacionadas à doença. Mesmo com dores, ela tentava acompanhar a filha durante as visitas à UTI neonatal.
Com a ajuda de uma psicóloga, a família organizou os horários para estar com Olívia sem que a mãe se sentisse culpada caso não conseguisse comparecer a todas as visitas. A orientação foi importante para ela respeitar os próprios limites durante a recuperação.
“É uma rotina muito difícil, muito cansativa, porque a gente quer o bebê em casa”, disse.
A volta de Elisflávia para casa trouxe alívio, mas também foi marcada pela saudade. Enquanto se recuperava, ela precisou lidar com a ausência da filha, que continuava internada. O quarto de Olívia já estava preparado na casa da família, mas a mãe ainda não podia levá-la para casa.
Segundo ela, a confiança de que a menina estava recebendo os cuidados necessários ajudou a enfrentar o período de separação.
Tratamento apresenta resultados positivos
Com o nascimento de Olívia, Elisflávia pôde dar continuidade ao tratamento oncológico. Como o tumor está localizado no intestino, a estratégia inicial foi recorrer à quimioterapia para reduzir a doença e avaliar a possibilidade de cirurgia posteriormente.
Das 13 sessões previstas, três ainda estavam pendentes. Os exames de imagem já apontavam redução das metástases no abdômen e do tumor intestinal, enquanto o exame de sangue que monitora o marcador CEA registrava índice de 1,1, abaixo do valor de referência de 5 citado pelo médico, segundo a paciente.
“Ele sempre fala que o meu corpo responde muito bem. Os resultados foram muito positivos”, afirmou.
A próxima etapa é realizar uma nova ressonância magnética para verificar a resposta ao tratamento e definir os procedimentos seguintes, incluindo a possibilidade de cirurgia no intestino.

Apesar dos resultados favoráveis, Elisflávia ainda enfrenta efeitos colaterais da quimioterapia, como fraqueza, enjoos leves e neuropatia, que provoca dores intensas quando ela é exposta ao frio. As sessões ocorrem a cada 15 dias e, nos dias seguintes à aplicação, ela precisa diminuir o ritmo, especialmente enquanto utiliza um infusor de medicamentos em casa.
Mesmo com as limitações, ela procura manter uma rotina de exercícios físicos pelo menos três vezes por semana, conforme relatou. No aspecto emocional, a proximidade do fim dessa etapa do tratamento tem aumentado a ansiedade. Para lidar com os sentimentos, faz acompanhamento psicológico e respeita os momentos em que precisa descansar.
Maternidade durante o tratamento
Olívia completou seis meses e, segundo a mãe, apresenta desenvolvimento satisfatório. A menina passou a receber alimentação complementar com a introdução de papinhas, com autorização da pediatra, e segue em acompanhamento com especialistas.

A bebê nasceu prematura e, por isso, tem a idade cronológica e a idade corrigida consideradas nas avaliações de desenvolvimento. De acordo com Elisflávia, Olívia não precisou de fisioterapia para desenvolver a parte motora e já demonstra avanços, como rolar e tentar se sentar.
A chegada da filha também mudou a maneira como Elisflávia encara o tratamento e a própria rotina. Antes da gravidez, ela trabalhava como auxiliar em uma creche e professora no período da tarde. Acostumada a uma agenda intensa, inicialmente sentia vontade de voltar ao trabalho e recuperar os hábitos anteriores.
Com o passar dos meses, porém, passou a enxergar a licença como uma oportunidade de acompanhar de perto as primeiras fases da filha.
“Eu transformei aquilo que poderia ser ruim em algo bom, porque tenho acompanhado cada momento dela, cada fase. Olhar para ela e tê-la como prioridade me faz esquecer, sabe?”, contou.
A maternidade, no entanto, não elimina as dificuldades. Durante uma das semanas de quimioterapia, Elisflávia ficou tão debilitada que não conseguiu cuidar da filha como gostaria. A situação provocou angústia, especialmente porque ela sentia que precisava estar forte o tempo todo.
O apoio dos pais, da irmã, do marido e de amigos foi fundamental para que ela entendesse que também precisava respeitar os próprios limites.
“Eu falei: ‘Deus, eu preciso cuidar da minha filha’. Hoje eu me permito. Se estou fraca, eu deito, porque sei que tem alguém para ficar com ela”, relatou.
Rede de apoio e fé para seguir em frente
A família se tornou uma parte essencial da rotina de cuidados. Elisflávia está na casa dos pais durante a semana, onde recebe ajuda para cuidar de Olívia e enfrentar os dias mais difíceis após a quimioterapia. O marido também participa dos cuidados com a filha quando retorna do trabalho.
Além dos familiares, amigos próximos ajudam com tarefas domésticas e outras necessidades do dia a dia. Para ela, essa rede de apoio faz diferença tanto na recuperação física quanto no equilíbrio emocional.
A fé também ocupa um lugar central na maneira como Elisflávia compreende o que está vivendo. Ela conta que, mesmo diante da gravidade do quadro, não sentiu medo no dia do parto. Acreditava que sairia do hospital com a filha nos braços e atribui essa confiança à promessa que, segundo ela, havia recebido de Deus em 2021, durante um episódio grave de Covid-19.
Ao longo do tratamento, ela também passou a enxergar a própria experiência como uma oportunidade de acolher outras pessoas que enfrentam o câncer. Segundo Elisflávia, as conversas com pacientes que encontra durante as sessões de quimioterapia se tornaram momentos importantes de troca e apoio.
“É um caminho muito sofrido, mas, ao mesmo tempo, traz tantos ensinamentos. Eu conheci pessoas que hoje vou levar para a vida”, afirmou.
A experiência também mudou sua relação com o trabalho, a família e os planos para o futuro. Embora goste da profissão, ela prefere aguardar os próximos exames e avaliar a própria recuperação antes de decidir quando voltará à rotina profissional.
Por enquanto, a prioridade é acompanhar o crescimento de Olívia, cuidar da saúde e viver um dia de cada vez. Elisflávia afirma que deseja compartilhar sua história para fortalecer outras pessoas que recebem um diagnóstico difícil e ajudá-las a encontrar apoio durante o tratamento.
“Mesmo não sendo fácil, a gente precisa ter muita fé. O diagnóstico não é a palavra final”, disse.
Ela espera concluir essa etapa do tratamento e, posteriormente, avançar para os próximos procedimentos indicados pela equipe médica. Ao falar sobre o futuro, reforça o desejo de acompanhar a filha crescer e viver plenamente a maternidade que tanto esperou.
“Eu quero viver os melhores dias com a Olívia”, concluiu.
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