Terça-feira, 06 de Outubro de 2026
DIAGNÓSTICO INESPERADO

Goiana que acreditava estar com ‘ressaca infinita’ descobre que tinha doença grave

Marianna Candido, de 29 anos, descobriu um glioblastoma após três dias de forte dor de cabeça e passou por cirurgia e quimioterapia

Por - Goiânia, GO
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Texto alternativo: Marianna Candido, de 29 anos, aparece em foto após descobrir um glioblastoma aos 28 anos

Uma dor de cabeça que parecia ser apenas uma “ressaca infinita” levou Marianna Candido, de 29 anos, a descobrir um tumor cerebral de 7,5 centímetros. Sommelière de vinhos e dona de uma adega de vinhos nacionais em Goiânia, ela tinha 28 anos quando recebeu o diagnóstico de glioblastoma, um tipo de câncer no sistema nervoso central.

A descoberta aconteceu entre julho e agosto de 2025, depois de Marianna voltar para Goiatuba, no interior de Goiás, onde foi para participar de uma festa de pecuária, visitar a família e encontrar os amigos. Durante a viagem, ela consumiu bebidas alcoólicas, mas não imaginava que, dias depois, uma dor de cabeça intensa mudaria completamente sua rotina.

Ao retornar para Goiânia, a dor permaneceu por três dias. Como não costumava ter esse tipo de sintoma, Marianna estranhou, mas inicialmente acreditou que fosse consequência da bebida.

“Eu comecei a ter muita dor de cabeça e a primeira coisa que eu pensei foi: ‘Nossa, que ressaca infinita’. Eu senti dor de cabeça durante três dias”, contou em entrevista ao Mais Goiás.

Ela tentou tomar medicamentos por conta própria, mas a dor não melhorou. Enquanto trabalhava na adega, em uma tarde de quarta-feira, o incômodo ficou tão forte que decidiu procurar atendimento médico. O pronto-socorro ficava a apenas uma quadra de sua casa.

Tumor de 7,5 centímetros foi descoberto em exame

Ao chegar ao pronto-socorro, a médica que a atendeu perguntou se Marianna já havia feito uma tomografia. Como nunca tinha realizado o exame, ela aceitou passar pelo procedimento. A dor de cabeça, porém, continuou piorando mesmo depois que recebeu medicação na veia.

Cerca de uma hora e meia depois, Marianna recebeu a notícia que mudaria completamente sua rotina. A médica informou que ela precisaria ser transferida para uma UTI após a tomografia identificar um tumor cerebral de 7,5 centímetros.

“Foi onde a médica conversou comigo e falou: ‘Olha, eu preciso te transferir agora para uma UTI, porque você tem um tumor cerebral de 7 centímetros e meio’”, relatou.

Marianna avisou familiares e amigos e, naquela mesma noite, foi encaminhada para a UTI. No dia seguinte, passou por uma ressonância magnética e foi avaliada por um neurocirurgião. As imagens levantaram a suspeita de que o tumor poderia ser maligno.

Marianna Candido um dia após a cirurgia para retirada do tumor cerebral (Foto: Arquivo pessoal)

A cirurgia foi realizada em 2 de agosto de 2025. Ela permaneceu internada por mais alguns dias e recebeu alta na quarta-feira seguinte. Depois do procedimento, iniciou o acompanhamento com a oncologista Larissa Curado, a radioterapeuta Thais Simionato e o neurocirurgião Rodrigo Correa.

O diagnóstico confirmado foi de glioblastoma. Marianna conta que os médicos explicaram que, por ser um tumor invasivo, não seria possível retirar todas as células cancerígenas. O tratamento, então, seguiu o protocolo Stupp, com uma primeira etapa que reuniu 25 sessões de radioterapia e 30 de quimioterapia.

O período foi marcado por efeitos colaterais. Ela perdeu os cabelos, teve uma reação alérgica à quimioterapia e precisou adiar algumas sessões. Após essa primeira fase, fez uma pausa de um mês antes de iniciar a segunda etapa, composta por seis ciclos de quimioterapia. Em cada ciclo, eram cinco dias consecutivos de medicação.

Nessa segunda fase, as principais dificuldades vieram das náuseas e dos problemas no estômago, que chegaram a dificultar a alimentação e a ingestão de líquidos.

Marianna Candido durante a última sessão de quimioterapia do tratamento contra o glioblastoma (Foto: Arquivo pessoal)

“Eu vivi a queda do meu cabelo, fiquei careca, tive alergia da quimioterapia, precisei atrasar meu tratamento alguns dias. Foi bem complicado”, lembra.

‘Eu sou muito além do diagnóstico’

Mesmo durante o tratamento, Marianna continuou encontrando maneiras de fazer as coisas que gostava. Nos dias em que estava bem, ia à academia, encontrava os amigos, saía para bares, festas e rodas de pagode. Durante esse período, também foi madrinha de casamento.

Para ela, continuar fazendo essas coisas era uma forma de preservar a vida que tinha antes do diagnóstico. Marianna diz que sempre gostou de viver intensamente e que nunca conseguiu imaginar a possibilidade de simplesmente parar por causa da doença.

“Eu sempre fui viciada em viver. Para mim, era inconcebível a ideia de não continuar vivendo.”

Marianna Candido saía com amigos e frequentava bares nos dias em que se sentia bem durante o tratamento (Foto: Arquivo pessoal)

A queda dos cabelos, no entanto, foi um dos momentos que mais mexeram com ela. Marianna conta que ficou triste ao perder o cabelo, mas decidiu comprar uma peruca loira e transformar a situação em motivo para brincar, dizendo que estava parecida com a Hannah Montana.

Ela também teve dias de medo, chorou e se sentiu abatida durante o tratamento. Ainda assim, diz que esses momentos não fizeram com que enxergasse toda a sua vida a partir do câncer.

“Eu sempre enxerguei que eu sou muito além do diagnóstico.”

A fé também esteve presente durante o tratamento. Católica, ela conta que se apoiou em Deus, em Jesus e em Nossa Senhora e passou a enxergar um propósito na experiência que estava vivendo. A religião já fazia parte da rotina antes do diagnóstico: é catequista de 16 crianças e participa de um grupo de jovens que passou a se reunir diariamente para rezar por ela.

“Eu sempre tive muita fé que existia um propósito para tudo…”

Após a cirurgia, os exames de acompanhamento, segundo ela, não identificaram células ativas do tumor. Por isso, passou a usar o termo “remissão” para definir o momento atual, embora reconheça que os médicos não costumem utilizar essa expressão para o glioblastoma.

A equipe médica também explicou que existe possibilidade de o tumor voltar. Ela, no entanto, prefere não viver em função dessa possibilidade e acredita que a doença não retornará. Caso isso aconteça, afirma que estará novamente cercada pela equipe que a acompanha, pela família, pelos amigos e pela fé.

“Deus não dá uma cruz maior do que a gente consegue carregar.”

Depois do tratamento, novos desafios

Com o fim do tratamento, Marianna passou a estabelecer novos objetivos. Um deles foi começar a correr. Em agosto deste ano, participou da primeira prova de 10 quilômetros, no Rio de Janeiro. No dia 18, fará a segunda corrida na mesma distância, em Goiânia.

Marianna Candido durante a primeira corrida de 10 quilômetros, realizada no Rio de Janeiro, em agosto de 2026 (Foto: Arquivo pessoal)

Depois da prova, o próximo desafio será ainda maior. Ela pretende iniciar o ciclo de preparação para correr 21 quilômetros no próximo ano.

A corrida veio junto com outros planos para o futuro. Mesmo após os momentos difíceis do tratamento, Marianna afirma que nunca deixou de viver e que não enxerga a própria história apenas pelo diagnóstico.

“Eu nunca deixei de viver a minha vida. Existiram dias terríveis, mas não é uma vida terrível”, afirma.

Ao falar sobre o período que enfrentou, Marianna diz que passou a valorizar ainda mais o presente e a forma como escolhe viver a rotina.

“A vida é um dia de cada vez.”

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