Terça-feira, 21 de Julho de 2026
VIOLÊNCIA

Goiânia registra terceiro ataque do ano contra trabalhadores da coleta de lixo

Motorista foi agredido após pedir tempo para concluir o serviço no Setor Bueno; câmeras registraram a confusão e suspeitos fugiram pela contramão

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
magem de arquivo mostra caminhão do Consórcio Limpa Gyn durante serviço de coleta em Goiânia; registro não corresponde ao ataque ocorrido nesta terça-feira (21). Crédito: Reprodução/Câmera de segurança

Goiânia registrou, na madrugada desta terça-feira (21), o terceiro ataque de 2026 contra trabalhadores da coleta de lixo, segundo a prefeitura. Desta vez, um motorista do Consórcio Limpa Gyn foi agredido enquanto a equipe recolhia resíduos na Avenida T-37, no Setor Bueno.

De acordo com o relato registrado no boletim de ocorrência, os ocupantes de um carro de luxo exigiram que o caminhão liberasse imediatamente a rua. O veículo da coleta estava parado para a realização do serviço, mas a passagem também era dificultada por carros estacionados irregularmente.

O motorista do caminhão explicou que precisava concluir o recolhimento antes de retirar o veículo. Após a resposta, o condutor do automóvel teria descido e agredido o trabalhador. Uma mulher que estava no carro também teria participado da confusão.

Em seguida, os dois deixaram o local e seguiram pela contramão. Câmeras de segurança de um condomínio registraram o episódio e poderão ajudar na identificação dos envolvidos e do veículo.

A Polícia Militar foi acionada. O trabalhador procurou uma delegacia e registrou o boletim de ocorrência com o apoio do Consórcio Limpa Gyn. Até a última atualização, não havia informação sobre a identificação ou prisão dos suspeitos.

Limpa Gyn não respondeu aos questionamentos

O Mais Goiás procurou o Consórcio Limpa Gyn para saber o estado de saúde do motorista, se houve necessidade de atendimento médico ou afastamento e quais medidas de assistência foram oferecidas ao trabalhador.

A reportagem também perguntou se a empresa possui a placa e outras informações sobre o carro, quantos casos de agressão, ameaça ou desrespeito contra funcionários foram registrados em 2026 e quais protocolos de segurança foram implantados após os episódios anteriores.

Foram solicitados ainda o vídeo completo da ocorrência e uma entrevista com o motorista, caso ele concordasse em falar. Até o fechamento desta reportagem, o Consórcio Limpa Gyn não havia respondido às perguntas. O espaço permanece aberto para manifestação.

Mabel cobra identificação dos responsáveis

O prefeito Sandro Mabel manifestou indignação com a repetição dos ataques e pediu rigor na investigação. Segundo ele, três ocorrências no mesmo ano não podem ser tratadas como parte normal da rotina de trabalho.

“Recebo com indignação mais um episódio de violência contra coletores de lixo em Goiânia. Este já é o terceiro caso neste ano, algo que não pode ser tratado como normal”, declarou.

O prefeito ressaltou que parte da coleta precisa ser realizada à noite e durante a madrugada para reduzir os impactos no trânsito e na rotina da população. A atividade exige que os caminhões façam paradas nas ruas enquanto os funcionários recolhem os resíduos.

“A limpeza urbana não pode parar e muitos desses serviços precisam ser realizados durante a noite e a madrugada. Quem está trabalhando para cuidar da cidade merece respeito”, afirmou.

Mabel também cobrou a identificação e a responsabilização dos envolvidos. “Não vamos aceitar que trabalhadores sejam agredidos por estarem cumprindo seu dever”, disse.

Ataques anteriores tiveram ameaças e arma

Em 3 de junho, trabalhadores da limpeza urbana foram agredidos e ameaçados por um homem armado no Setor Negrão de Lima, na região norte de Goiânia.

No dia 10 do mesmo mês, o motorista Douglas de Araújo Peres e os coletores Bruno Bernardo Pereira de Jesus e Thales Rangel Tavares de Souza foram recebidos pelo prefeito no Paço Municipal após sofrerem agressões.

Durante o encontro, os funcionários relataram que ameaças, ofensas e episódios de desrespeito fazem parte da rotina das equipes. Depois de ouvir os trabalhadores, Mabel determinou a adoção de medidas para ampliar a segurança durante a prestação do serviço.

A Prefeitura, entretanto, não detalhou na nota divulgada nesta terça-feira quais medidas foram colocadas em prática desde junho nem informou se novas ações serão adotadas após o terceiro ataque.

Estudos registram desrespeito contra a categoria

O Brasil não possui uma base pública nacional dedicada exclusivamente a contabilizar agressões contra garis, coletores e motoristas de caminhões de lixo. Estudos sobre as condições de trabalho da categoria, porém, registram relatos de desrespeito e violência verbal.

Uma pesquisa sobre a terceirização dos serviços de limpeza urbana, publicada na revista acadêmica Produção, identificou que agressões verbais eram comuns entre os trabalhadores analisados. Segundo o estudo, esse tratamento afetava a autoestima dos funcionários e estava relacionado à falta de reconhecimento social da atividade.

O levantamento não apresenta uma estatística nacional sobre ataques físicos. Ele ajuda a demonstrar, contudo, que episódios de humilhação e violência verbal aparecem há anos em pesquisas sobre a rotina dos profissionais. O estudo pode ser consultado na plataforma SciELO.

Os relatos feitos pelos trabalhadores de Goiânia à Prefeitura em junho seguem a mesma direção. Segundo eles, ameaças e desrespeito não são situações isoladas durante o expediente.

Agressões também ocorrem fora do Brasil

O problema não se limita às cidades brasileiras. Um levantamento realizado por meio de pedidos baseados na Lei de Acesso à Informação contabilizou 134 episódios de violência contra trabalhadores da coleta de resíduos em municípios da Inglaterra durante um ano. O número representa uma média superior a dois casos por semana.

Os registros incluem agressões físicas, ameaças, cusparadas, objetos arremessados e veículos usados para intimidar funcionários. Parte dos conflitos começou quando os trabalhadores explicaram regras da coleta ou informaram que determinados resíduos não poderiam ser recolhidos.

Os dados foram obtidos diretamente com administrações municipais inglesas e divulgados pela imprensa britânica.

O levantamento não é uma pesquisa acadêmica nem representa necessariamente todas as agressões ocorridas na Inglaterra. Trata-se de uma apuração jornalística baseada em respostas oficiais de governos locais. Ainda assim, os registros demonstram que o contato das equipes com motoristas e moradores pode provocar situações de violência em diferentes cidades.

Município inglês usa câmeras e política de tolerância zero

Uma das administrações que mantém regras específicas para proteger as equipes é Newcastle-under-Lyme, município localizado no condado de Staffordshire, na região de West Midlands, na Inglaterra.

A cidade fica ao lado de Stoke-on-Trent, em uma área situada entre Birmingham e Manchester. Newcastle-under-Lyme não deve ser confundida com Newcastle upon Tyne, cidade localizada no Nordeste da Inglaterra.

A administração municipal mantém uma política de segurança que prevê o registro e o acompanhamento de episódios de violência ou agressão contra funcionários da coleta. O protocolo também alcança situações de direção perigosa e ameaças relacionadas a animais.

O município utiliza câmeras nos veículos para aumentar a segurança dos trabalhadores e auxiliar na apuração das ocorrências. Segundo a política publicada pelo governo local, os episódios devem ser comunicados e acompanhados pela administração.

O modelo inglês não pode ser transportado automaticamente para Goiânia, pois as cidades possuem legislações e estruturas diferentes. A experiência, porém, apresenta medidas que podem ser avaliadas na capital goiana, como câmeras nos caminhões, registro centralizado de ameaças, comunicação imediata com as forças de segurança e protocolos para retirar trabalhadores de situações de risco.

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