Terça-feira, 20 de Outubro de 2026
CURIOSIDADES DO CENSO

Goiás tem quase metade dos registros de ‘Divino’ e ‘Abadia’ do Brasil; conheça outros nomes comuns no estado

Entre os chamados Eterno, a proporção chega a 66,8%

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Certidões de nascimento registram a identidade dos brasileiros e revelam a diversidade de nomes escolhidos pelas famílias ao longo das gerações (Foto: Reprodução)

Se você conhece alguém chamado Divino, Divina ou Abadia, existe uma possibilidade considerável de essa pessoa morar em Goiás. O estado concentra 44,5% dos brasileiros chamados Divino e 44,2% daqueles que receberam o nome Abadia. A proporção chama atenção porque o território goiano reúne apenas cerca de 3,5% da população brasileira. Os dados fazem parte de levantamento realizado pelo Mais Goiás na ferramenta Nomes no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com informações do Censo 2022.

Entre os 35.337 brasileiros chamados Divino, 15.730 vivem em Goiás. No caso de Abadia, são 2.674 moradores goianos entre 6.056 pessoas identificadas no país. Mas um terceiro nome apresenta uma concentração ainda maior. Dos 229 brasileiros chamados Eterno, 153 moram em Goiás. Isso representa 66,8% do total nacional.

A pesquisa revela uma característica pouco conhecida da população goiana: nomes que remetem à fé, à tradição familiar e à religiosidade popular aparecem no estado em proporções muito superiores à sua participação na população brasileira.

Eterno é nome de 153 pessoas em Goiás

O nome Eterno está entre os exemplos mais curiosos encontrados no levantamento.

Dos 229 brasileiros identificados pelo IBGE com esse primeiro nome, 153 vivem em Goiás. Somente Goiânia reúne 36 homens chamados Eterno.

A concentração significa que aproximadamente dois em cada três brasileiros com esse nome moram no estado. Outro nome que aparece com frequência proporcionalmente elevada é Abadio. Entre os 1.195 brasileiros identificados, 605 residem em Goiás, o equivalente a 50,6%.

Já Divina reúne 15.729 mulheres goianas, número praticamente igual ao de moradores chamados Divino. A presença desses nomes revela uma particularidade cultural que passa despercebida nas estatísticas gerais sobre a população.

Cidade goiana tem um Divino a cada 71 moradores

Em São Patrício, município do interior de Goiás, o nome Divino chama atenção pela frequência. Dos pouco mais de 2,1 mil habitantes, 30 receberam esse nome, segundo o Censo 2022.

Isso significa que aproximadamente uma em cada 71 pessoas da cidade se chama Divino.

O dado mostra que a concentração desses nomes não se limita às cidades com maior população.

Enquanto Goiânia reúne grande quantidade de moradores com diferentes nomes, municípios menores podem apresentar proporções ainda maiores de determinadas escolhas familiares.

Divino ocupa a 51ª posição entre os nomes mais frequentes de Goiás. Dos 15.730 moradores identificados com esse nome, 15.667 são homens.

Já Abadia apresenta predominância feminina: 2.619 das 2.674 pessoas com esse nome em Goiás são mulheres.

Por que Goiás tem tantos Divinos e Abadias?

A tradição religiosa oferece uma possível pista para compreender a presença desses nomes no estado. Em Pirenópolis, a Festa do Divino Espírito Santo é celebrada desde 1819. A manifestação foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil em 2010.

A celebração reúne folias, procissões, cavalhadas e outras manifestações que atravessam gerações. Outra referência é a Romaria de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém, em Niquelândia, considerada uma das mais antigas tradições religiosas de Goiás, com registros históricos que remontam ao século XVIII.

As duas manifestações fazem parte da história cultural goiana e ajudam a compreender a presença da religiosidade no cotidiano de diferentes comunidades. Entretanto, a coincidência entre os nomes e as tradições não comprova uma relação direta de causa e efeito.

O IBGE identifica quantas pessoas possuem determinado nome, onde vivem e como sua frequência se distribui entre gerações. O levantamento não pergunta aos pais por que escolheram esses nomes para os filhos.

Nomes antigos aparecem menos entre os jovens

Os dados também revelam mudanças na forma como as famílias brasileiras escolhem os nomes dos filhos. A idade mediana dos brasileiros chamados Divino é de 57 anos. Entre as pessoas chamadas Abadia, chega a 63 anos. Já Abadio apresenta mediana de 60 anos.

A idade mediana divide as pessoas com determinado nome em dois grupos: metade está abaixo desse valor e metade está acima. Entre os brasileiros chamados Divino, 10.963 nasceram na década de 1960.

No período de 2020 a 2022, o IBGE identificou apenas 74 pessoas nascidas com esse nome que constavam entre os moradores recenseados. Os números sugerem perda de popularidade de determinados nomes tradicionais entre as gerações mais recentes.

No caso de Abadia, a ausência de registros nas décadas recentes divulgadas pela ferramenta não significa necessariamente que nenhuma criança tenha recebido o nome. O IBGE aplica regras de sigilo quando a frequência de determinada informação é pequena.

Karita e Pabline mostram outra geração de nomes goianos

Nem todos os nomes com concentração elevada em Goiás pertencem às gerações mais antigas. Karita, por exemplo, tem idade mediana de 29 anos no Brasil. Entre as pessoas chamadas Pabline, o indicador cai para 20 anos.

Goiás concentra 49,5% dos brasileiros chamados Karita e 47,2% daqueles que receberam o nome Pabline. Outros nomes com participação expressiva do estado no total nacional são Jales (45,2%), Sinomar (42,3%), Jovair (40,3%), Coraci (39,6%) e Valdivina (37,2%).

O nome Euripedes também apresenta concentração goiana de 36,1%, com 4.595 moradores identificados no estado. A lista mostra que a particularidade regional não está restrita a nomes relacionados diretamente à religião. Ela alcança diferentes padrões de escolha, grafias e gerações.

O que os nomes revelam sobre Goiás?

A ferramenta Nomes no Brasil permite consultar os primeiros nomes e sobrenomes registrados pelo Censo 2022, com informações sobre distribuição geográfica, frequência, sexo e idade mediana.

Os resultados consideram a população residente no país em 1º de agosto de 2022. Portanto, não representam todos os registros de nascimento realizados ao longo da história.

Para proteger a identificação individual, o IBGE também estabelece frequências mínimas para divulgação de determinados dados.

O levantamento apresenta um retrato da população goiana em que tradição e mudança aparecem lado a lado. Enquanto Divino e Abadia possuem maior presença nas gerações anteriores, Karita e Pabline mostram que outros nomes também desenvolveram forte concentração regional.

A principal descoberta está na dimensão dessa presença. Embora Goiás abrigue uma pequena parcela da população brasileira, reúne quase metade dos Divinos e Abadias do país e aproximadamente dois terços dos brasileiros chamados Eterno. Nomes que, em outras regiões, podem parecer incomuns fazem parte da identidade de milhares de famílias goianas.

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