Quinta-feira, 13 de Agosto de 2026
NOVA GERAÇÃO

Jovens de Goiás adiam casamento e filhos; número de nascimentos é o menor da série histórica

Casamentos voltaram a crescer no Estado, mas ocorrem mais tarde; ao mesmo tempo, fecundidade cai para 1,57 filho por mulher e maternidade se desloca para idades maiores

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Jovens goianos adiam casamento e filhos, enquanto Goiás registra queda no número de nascimentos. (Foto: Pexels)

Casar e ter filhos tem ocorrido mais tarde entre os goianos, segundo amostra do Censo 2022. No caso da maternidade, os resultados mais recentes mostram que Goiás chegou a 1,57 filho por mulher, abaixo do nível de reposição populacional, de 2,1 filhos. As mulheres goianas também passaram a ter filhos mais tarde: a idade média da fecundidade chegou a 27,8 anos.

A mudança acompanha a tendência nacional. No Brasil, a taxa de fecundidade caiu para 1,55 filho por mulher em 2022, o menor nível já registrado pelo Censo, enquanto a idade média da maternidade chegou a 28,1 anos. Os números mostram uma transformação na composição das famílias, com menos filhos e concentração crescente dos nascimentos em idades mais avançadas.

LEIA: Número de nascimentos em Goiás é o menor já registrado pelo IBGE

Menor número de nascimentos da série

Essa mudança aparece também nos registros de nascimento. Goiás contabilizou 79.099 nascidos vivos em 2024, contra 81.869 em 2023, segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE. A redução foi de 3,3%, e o resultado é o menor desde o início da série histórica, em 2003.

A comparação de longo prazo mostra a dimensão da queda. Em 2003, Goiás havia registrado 90.825 nascimentos; em 2015, foram 90.759. Em 2024, portanto, o Estado registrou cerca de 11,7 mil nascimentos a menos do que em 2003, uma redução próxima de 13%. O Mais Goiás já mostrou que o resultado de 2024 foi o menor de toda a série do levantamento.

Para o contador e economista Marcelo Marques, a mudança também passa pelo orçamento das famílias. “Ter um filho significa assumir uma despesa de longo prazo justamente em um período no qual muitos jovens ainda estão construindo a carreira e tentando formar patrimônio. Moradia, alimentação, saúde, educação e cuidados com a criança entram em um orçamento que já está pressionado pelo custo de vida”, afirma.

Brasil perde 146 mil nascimentos em um ano

No País, foram registrados 2.376.901 nascimentos em 2024, ante 2.523.267 no ano anterior. A diferença é de aproximadamente 146,4 mil nascimentos, ou 5,8%, e marca o sexto ano consecutivo de redução.

Número de nascimentos no Brasil cai 5,8% em 2024; sexto recuo consecutivo

Outro dado ajuda a mostrar o deslocamento da maternidade para faixas etárias mais altas: 65,4% dos bebês registrados em 2024 nasceram de mães com 25 anos ou mais. Somados aos dados da amostra do Censo 2022, os registros indicam uma mudança consistente: as mulheres têm menos filhos e concentram a maternidade mais tarde do que nas gerações anteriores.

Casais jovens adiam casamento e chegada dos filhos em meio a mudanças econômicas, profissionais e no perfil das famílias. (Foto: Pexels)
Casais jovens adiam casamento e chegada dos filhos em meio a mudanças econômicas, profissionais e no perfil das famílias. (Foto: Pexels)

A queda dos nascimentos acompanha a redução da fecundidade. Segundo o Censo Demográfico 2022, Goiás registrou 1,57 filho por mulher, abaixo do nível de reposição populacional, de cerca de 2,1. No Brasil, a taxa foi de 1,55 filho por mulher.

Brasileira tinha mais de seis filhos em 1960

A mudança é expressiva no longo prazo. Em 1960, a taxa de fecundidade no Brasil era de 6,28 filhos por mulher; em 2022, caiu para 1,55, segundo o IBGE. A redução foi de cerca de 75% em pouco mais de seis décadas.

Para o economista Marcelo Marques, o custo de criar uma criança integra essa transformação. “As famílias passaram a calcular com maior antecedência o impacto de uma criança sobre a renda disponível e sobre projetos como compra da casa, formação de reserva e carreira”, afirma.

Maternidade acontece mais tarde em Goiás

Além de terem menos filhos, as goianas concentram os nascimentos em idades mais avançadas. Em 2022, a idade média da fecundidade em Goiás chegou a 27,8 anos. O indicador corresponde à idade média das mulheres no conjunto dos nascimentos e não à idade em que ocorre o primeiro filho.

Casamentos não estão diminuindo em Goiás

Casal jovem caminha em parque; dados mostram que goianos têm adiado casamento e filhos. (Foto: Pexels)
Casal jovem caminha em parque; dados mostram que goianos têm adiado casamento e filhos. (Foto: Pexels)

Nos casamentos, o movimento é diferente do observado nos nascimentos. Goiás registrou 32.518 casamentos civis em 2023, segundo o Anuário Estatístico do Brasil, do IBGE, e cerca de 33,6 mil em 2024. O número de uniões, portanto, voltou a crescer, mas os casamentos ocorrem em idades mais avançadas.

Casar aos 20 deixa de ser o padrão

A mudança aparece na distribuição por idade. Em 2019, 32,1% das mulheres que se casaram em Goiás tinham até 24 anos; entre os homens, eram 20,4%, conforme levantamento publicado pelo Mais Goiás com base nas Estatísticas do Registro Civil.

A comparação histórica reforça o deslocamento. Em 2004, a maior taxa de nupcialidade feminina no Brasil estava entre mulheres de 20 a 24 anos, segundo o IBGE. Duas décadas depois, a idade do primeiro casamento se aproxima dos 30 anos.

Para o economista Marcelo Marques, a comparação entre gerações precisa considerar a formação profissional e o custo de montar uma casa. “Não é suficiente comparar a idade em que os pais se casaram com a idade em que os filhos estão se casando. É necessário comparar quantos anos de formação eram exigidos, quanto custava iniciar uma casa, qual era a renda disponível e em que momento havia estabilidade profissional.”

União sem casamento ganha espaço

O casamento civil também deixou de representar sozinho a formação de novos domicílios. O Censo 2022 mostrou que, pela primeira vez, as uniões consensuais se tornaram a principal forma de união conjugal no Brasil: representavam 38,9% das pessoas em união, ante 37,9% no casamento civil e religioso, segundo o IBGE.

Mais Goiás também mostrou essa mudança. O dado indica que acompanhar apenas os registros em cartório já não descreve integralmente como os brasileiros formam casais e famílias.

Custo da moradia pesa na independência

Em 2025, o rendimento domiciliar per capita de Goiás chegou a R$ 2.407, acima da média brasileira de R$ 2.316, segundo o IBGE. Em Goiânia, o aluguel residencial anunciado supera R$ 43 por metro quadrado, conforme o Índice FipeZAP.

Um imóvel de 50 metros quadrados passa, portanto, de R$ 2,1 mil mensais somente em aluguel. Para Marques, essa diferença ajuda a entender por que casamento e independência financeira deixam de acontecer necessariamente na mesma etapa da vida.

“Duas pessoas podem ter renda e ainda assim não possuir margem suficiente para assumir uma casa e, logo depois, os custos de um filho. Quando aluguel, alimentação, transporte e contas básicas consomem grande parte do orçamento, aumenta o tempo necessário para assumir compromissos de longo prazo”, afirma.

Menos filhos mudam estrutura da população

A consequência de longo prazo aparece na composição etária. No Brasil, a idade mediana da população passou de 29 anos, em 2010, para 35 anos em 2022, segundo o IBGE. No Centro-Oeste, subiu de 28 para 33 anos.

Goiás tinha 7.056.495 habitantes no Censo 2022 e continua registrando crescimento populacional, apesar da queda da fecundidade. Isso ocorre porque o tamanho da população também depende de fatores como migração, mortalidade e estrutura etária.

Para Marques, a redução prolongada da fecundidade exige planejamento público. “O País passa a ter proporcionalmente menos pessoas entrando no mercado de trabalho e mais pessoas nas faixas etárias que demandam previdência e saúde. Isso exige planejamento com décadas de antecedência.”

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