Mau uso de canetas emagrecedoras faz pais temerem quando tratamento é indicado aos filhos, diz especialista
Médica da UFG afirma que medo pode atrasar tratamento de diabetes de crianças e adolescentes com indicação médica
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A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” para fins estéticos entre adultos começa a produzir um efeito inesperado nos consultórios pediátricos: pais que precisam tratar a obesidade ou o diabetes dos filhos passam a ter medo dos medicamentos, mesmo quando há indicação médica.
A avaliação é da endocrinologista pediátrica Renata Machado Pinto, professora do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante do Conselho Científico do Departamento de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que publicou uma nota técnica sobre o assunto em 18 de agosto.
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“Nos adultos, a gente vê um uso abusivo. O que eu percebo com crianças e adolescentes é que os pais são mais cautelosos. Como tem efeitos colaterais, existe um medo de usar nessa faixa etária”, explica Renata. Segundo ela, o receio pode fazer com que pacientes que realmente precisam do tratamento deixem de recebê-lo.
A nota técnica da SBP reforça que medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida não devem ser usados para modificar a aparência corporal, atingir um padrão estético ou provocar perda rápida de peso antes de festas, viagens ou competições. A entidade recomenda inclusive abandonar o termo “canetas emagrecedoras” e utilizar “medicamentos para tratar a obesidade”.

Isso não significa, porém, que os medicamentos sejam proibidos para menores. Até agosto de 2026, três incretinas tinham indicação aprovada pela Anvisa para uso pediátrico. A liraglutida pode ser utilizada no diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos e na obesidade de adolescentes a partir dos 12 anos com mais de 60 kg. A semaglutida é indicada para obesidade a partir dos 12 anos, também acima de 60 kg. Já a tirzepatida tem indicação para diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos, dentro dos critérios previstos.
Não é, portanto, uma questão de peso ou aparência. “A indicação não é para uma criança que está um pouco acima do peso. A gente está tratando as consequências de uma doença”, afirma Renata. A especialista lembra que a obesidade e o diabetes podem começar ainda na infância e exigir tratamento adequado ainda nessa fase.
A SBP alerta, entretanto, que a prescrição não é automática. É necessário avaliar a gravidade da doença, outras condições de saúde, tratamentos anteriores, riscos e a possibilidade de acompanhamento contínuo.
Sem acompanhamento médico, o uso pode provocar problemas como desidratação, perda de massa muscular, deficiência de vitaminas e minerais, comprometimento do crescimento, pancreatite e problemas na vesícula. Em adolescentes, o uso estético também pode afetar a relação com a comida e funcionar como gatilho para transtornos alimentares.
Para a Sociedade Brasileira de Pediatria, o problema não está no medicamento, mas na banalização do seu uso. Quando indicado corretamente, associado a mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico, o tratamento pode ser uma ferramenta importante contra a obesidade e o diabetes tipo 2 em adolescentes.