Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026
USO CORRETO

Mau uso de canetas emagrecedoras faz pais temerem quando tratamento é indicado aos filhos, diz especialista

Médica da UFG afirma que medo pode atrasar tratamento de diabetes de crianças e adolescentes com indicação médica

Rafael Oliveira
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
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A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” para fins estéticos entre adultos começa a produzir um efeito inesperado nos consultórios pediátricos: pais que precisam tratar a obesidade ou o diabetes dos filhos passam a ter medo dos medicamentos, mesmo quando há indicação médica.

A avaliação é da endocrinologista pediátrica Renata Machado Pinto, professora do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante do Conselho Científico do Departamento de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que publicou uma nota técnica sobre o assunto em 18 de agosto. 

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“Nos adultos, a gente vê um uso abusivo. O que eu percebo com crianças e adolescentes é que os pais são mais cautelosos. Como tem efeitos colaterais, existe um medo de usar nessa faixa etária”, explica Renata. Segundo ela, o receio pode fazer com que pacientes que realmente precisam do tratamento deixem de recebê-lo.

A nota técnica da SBP reforça que medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida não devem ser usados para modificar a aparência corporal, atingir um padrão estético ou provocar perda rápida de peso antes de festas, viagens ou competições. A entidade recomenda inclusive abandonar o termo “canetas emagrecedoras” e utilizar “medicamentos para tratar a obesidade”. 

“A indicação não é para uma criança que está um pouco acima do peso. A gente está tratando as consequências de uma doença”, afirma a médica Renata Machado Pinto, da SBP.
“A indicação não é para uma criança que está um pouco acima do peso. A gente está tratando as consequências de uma doença”, afirma a médica Renata Machado Pinto, da SBP.

Isso não significa, porém, que os medicamentos sejam proibidos para menores. Até agosto de 2026, três incretinas tinham indicação aprovada pela Anvisa para uso pediátrico. A liraglutida pode ser utilizada no diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos e na obesidade de adolescentes a partir dos 12 anos com mais de 60 kg. A semaglutida é indicada para obesidade a partir dos 12 anos, também acima de 60 kg. Já a tirzepatida tem indicação para diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos, dentro dos critérios previstos. 

Não é, portanto, uma questão de peso ou aparência. “A indicação não é para uma criança que está um pouco acima do peso. A gente está tratando as consequências de uma doença”, afirma Renata. A especialista lembra que a obesidade e o diabetes podem começar ainda na infância e exigir tratamento adequado ainda nessa fase.

A SBP alerta, entretanto, que a prescrição não é automática. É necessário avaliar a gravidade da doença, outras condições de saúde, tratamentos anteriores, riscos e a possibilidade de acompanhamento contínuo. 

Sem acompanhamento médico, o uso pode provocar problemas como desidratação, perda de massa muscular, deficiência de vitaminas e minerais, comprometimento do crescimento, pancreatite e problemas na vesícula. Em adolescentes, o uso estético também pode afetar a relação com a comida e funcionar como gatilho para transtornos alimentares. 

Para a Sociedade Brasileira de Pediatria, o problema não está no medicamento, mas na banalização do seu uso. Quando indicado corretamente, associado a mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico, o tratamento pode ser uma ferramenta importante contra a obesidade e o diabetes tipo 2 em adolescentes. 

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