Sexta-feira, 25 de Setembro de 2026
MEMÓRIA URBANA

Parque das Laranjeiras: bairro de Goiânia que nasceu de uma fazenda com pomar faz 50 anos

Parque das Laranjeiras surgiu sobre antiga fazenda com pomar e foi planejado em 1976 com bosques, córregos, áreas livres e ruas pensadas para aproximar moradores do verde

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Parque das Laranjeiras

Antes das ruas, das casas repetidas pelas quadras e dos bosques incorporados ao planejamento, havia uma fazenda. E nela, laranjeiras.

Um estudo acadêmico publicado em 2025 registra que, antes da urbanização, a área era ocupada por uma propriedade rural com pomar de laranjeiras e relaciona essa paisagem à origem do nome do bairro. A versão também aparece em registros de memória dos primeiros moradores.

O pomar desapareceu. O nome ficou.

E quem percorre o Parque das Laranjeiras cinco décadas depois encontra outra característica capaz de explicar por que o bairro conserva uma paisagem particular: a presença de áreas livres entre casas, ruas e vegetação.

A explicação começa na prancheta de 1976. O então Conjunto Residencial Parque das Laranjeiras previa 1.417 lotes residenciais, que somavam 355.784,93 metros quadrados — 42,6% da área total. Os outros 57,4% eram destinados a circulação, escolas, centro comunitário, playground, dois bosques, feira, comércio, estacionamento e áreas de preservação ao longo dos córregos, segundo pesquisa apresentada na Universidade Federal de Goiás (UFG).

A arquiteta Marielle Vieira Felix Rocha analisa as transformações urbanas e a preservação do projeto original do Parque das Laranjeiras (Divulgação)
A arquiteta Marielle Vieira Felix Rocha analisa as transformações urbanas e a preservação do projeto original do Parque das Laranjeiras (Divulgação)

Para a professora Marielle Vieira Felix Rocha, engenheira civil e coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Estácio Goiás, a distribuição ajuda a compreender a lógica do empreendimento.

“Essa distribuição demonstra uma concepção de planejamento que vai além da simples divisão do solo em lotes”, afirma Marielle.

Segundo a especialista, a parcela não ocupada pelos lotes residenciais não correspondia exclusivamente a áreas verdes. Reunia diferentes funções urbanas capazes de favorecer convivência, arborização, permeabilidade do solo e conforto térmico.

“A qualidade de um bairro não depende apenas das edificações, mas também dos espaços livres e das possibilidades de utilização coletiva do território”, diz.

O Parque das Laranjeiras nasceu com casas. Mas nasceu também do espaço que o projeto decidiu não ocupar.

Parque das Laranjeiras se aproxima da ideia de bairro-jardim

Parque das Laranjeiras no dia da entrega das primeiras unidades do conjunto residencial (Reprodução/YouTube)
Parque das Laranjeiras no dia da entrega das primeiras unidades do conjunto residencial (Reprodução/YouTube)

Chamar o Parque das Laranjeiras de cidade-jardim exige precisão. O conceito formulado por Ebenezer Howard no fim do século XIX vai além da presença de ruas arborizadas. Os princípios do movimento das cidades-jardim relacionam moradia, áreas verdes, serviços, comércio, equipamentos coletivos e circulação dentro de uma concepção urbana integrada.

Marielle distingue o modelo original de Howard daquilo que aparece no bairro goianiense.

“É importante distinguir a cidade-jardim originalmente concebida por Ebenezer Howard de um bairro residencial inspirado em seus princípios. O Parque das Laranjeiras se aproxima especialmente da ideia de bairro-jardim, na qual a natureza é parte estruturante do planejamento urbano”, explica.

Essa interpretação encontra respaldo no estudo “Parque das Laranjeiras: dos paradigmas modernos ao desígnio de seus moradores”, de Fernando Antonio Oliveira Mello e Larissa Peixoto Fleury. A pesquisa da UFG identifica no conjunto baixa densidade, predominância de residências unifamiliares, áreas verdes e equipamentos voltados à própria vizinhança.

O projeto também distribuía escolas, centro comunitário, comércio, feira e espaços de lazer dentro do conjunto. Os pesquisadores relacionam essa organização à chamada unidade de vizinhança, modelo que aproxima moradia, serviços cotidianos e espaços de convivência.

A referência ao urbanismo-jardim não era inteiramente nova em Goiânia. Décadas antes, princípios associados ao movimento já haviam influenciado o planejamento de áreas como o Setor Sul.

No Parque das Laranjeiras, essa lógica reaparece em outro momento da expansão da capital.

Córregos e bosques ajudaram a desenhar o bairro

Avenida Flamboyant, no Parque das Laranjeiras, concentra comércio, circulação de veículos e áreas verdes previstas no desenho urbano do bairro (Crédito: Prefeitura de Goiânia)
Avenida Flamboyant, no Parque das Laranjeiras, concentra comércio, circulação de veículos e áreas verdes previstas no desenho urbano do bairro (Crédito: Prefeitura de Goiânia)

As arquitetas Jacira Rosa Pires e Narcisa Cordeiro assinam o projeto urbanístico do então Conjunto Residencial Parque das Laranjeiras. No memorial de 1976 analisado pela pesquisa da UFG, relevo, bosques e cursos d’água aparecem entre os elementos considerados na implantação das ruas e quadras.

O Córrego Barreiro acompanha a extremidade leste e passa pelo Bosque das Laranjeiras. Na porção oeste está o Córrego Vitória. Ao sul, o Bosque Bougainville ajuda a marcar outro limite do conjunto. Praças, recuos e áreas ajardinadas completam a estrutura de espaços livres.

O memorial registra ainda que o sistema viário acompanha os bosques em determinados pontos, mantendo o verde no campo de visão e no percurso cotidiano dos moradores.

Rua, vegetação e espaço coletivo não aparecem, portanto, como peças independentes, mas como partes de uma mesma organização urbana.

Ruas do Parque das Laranjeiras foram planejadas em três níveis

Autoridades participam do corte da fita durante a inauguração do Conjunto Residencial Parque das Laranjeiras, em Goiânia, na década de 1970 (Reprodução/YouTube)
Autoridades participam do corte da fita durante a inauguração do Conjunto Residencial Parque das Laranjeiras, em Goiânia, na década de 1970 (Reprodução/YouTube)

A relação entre circulação e moradia fica ainda mais evidente no desenho das ruas.

A malha foi estruturada em vias primárias, secundárias e terciárias. As primeiras conectavam o Parque das Laranjeiras ao entorno. As secundárias distribuíam o tráfego entre as quadras. A partir delas surgiam vias terciárias terminadas em retornos em “U”, concebidos para reduzir a circulação de passagem diante das residências.

Nas extremidades dessas ruas menores, áreas ajardinadas estabeleciam uma transição entre os espaços destinados aos veículos, as quadras e os percursos de pedestres.

O memorial registra ainda a intenção de permitir que moradores alcançassem áreas verdes sem atravessar vias destinadas ao tráfego mais intenso. Nas vias principais, o projeto previa oito metros junto às pistas para arborização; nas secundárias, cinco metros.

A solução ajuda a explicar por que a relação entre casa, rua e vegetação ainda pode ser percebida em partes do setor.

Leia mais: UFG faz inventário da arquitetura moderna em Goiânia e registra 339 residências históricas

Parque das Laranjeiras tem três datas ligadas ao próprio nascimento

Rua arborizada no Parque das Laranjeiras, em Goiânia, revela a presença do verde integrada ao sistema viário do bairro (Reprodução/Facebook)
Rua arborizada no Parque das Laranjeiras, em Goiânia, revela a presença do verde integrada ao sistema viário do bairro (Reprodução/Facebook)

Se os registros ajudam a explicar o nome, os documentos tornam curiosa também a data de nascimento do bairro.

Goiânia comemora oficialmente o aniversário do Parque das Laranjeiras em 26 de setembro. A Lei nº 8.781, de 2009incluiu a data no calendário municipal.

A aprovação formal do loteamento, entretanto, ocorreu quatro dias depois. O Decreto nº 675, de 30 de setembro de 1976 aprovou o empreendimento e determinou obras de infraestrutura, entre elas asfaltamento, drenagem, abastecimento de água, rede elétrica e iluminação pública.

Há ainda um terceiro marco. O memorial descritivo recuperado pela pesquisa da UFG registra o Conjunto Residencial Parque das Laranjeiras em 13 de outubro de 1976.

Assim, o bairro chega ao cinquentenário com três datas associadas à própria origem: 26 de setembro, 30 de setembro e 13 de outubro.

Três modelos de casa se repetem pelas quadras

Área aberta no Parque das Laranjeiras, em Goiânia, evidencia a presença de espaços livres e vegetação integrados ao desenho urbano do bairro (Reprodução/TikTok)
Área aberta no Parque das Laranjeiras, em Goiânia, evidencia a presença de espaços livres e vegetação integrados ao desenho urbano do bairro (Reprodução/TikTok)

Se as ruas procuram criar percursos diferentes, as casas seguem outra lógica: a produção em série.

O levantamento da UFG registra 1.207 habitações distribuídas em três modelos principais e construídas ao longo de cinco etapas. O número se refere às unidades residenciais estudadas e não aos 1.417 lotes previstos no projeto urbanístico.

Na primeira, terceira e quarta etapas, as casas têm cerca de 80 metros quadrados em lotes próximos de 230 metros quadrados. Na segunda, chegam a aproximadamente 83 metros quadrados em terrenos de 265 metros quadrados.

Sala, cozinha, área de serviço, banheiro, três quartos, quintal e abrigo para um automóvel compõem o padrão das primeiras fases.

Na quinta etapa, a escala muda. Os terrenos passam a medir 15 metros de frente por 26 de profundidade e recebem as chamadas “Special Houses”, com aproximadamente 100 metros quadrados, suíte, piscina nos fundos e garagem para dois veículos.

As plantas registram também uma transformação no modo de morar. O automóvel ganha espaço, o quintal incorpora funções de lazer e as residências aumentam.

Os moradores fazem o restante ao longo das décadas.

Muros são erguidos, ambientes ampliados, fachadas modificadas e antigas residências passam a receber comércio e serviços. Em 2019, a pesquisa da UFG já identificava diferentes padrões de alteração capazes de modificar a homogeneidade produzida pelos modelos originais.

Para Marielle, essas transformações não significam, por si só, descaracterização.

“As cidades precisam se transformar. A chegada de novos serviços, a modernização das residências e a diversificação das atividades econômicas são processos esperados ao longo de cinco décadas”, afirma.

Segundo a especialista, o comércio também não representa ruptura automática, porque atividades desse tipo já estavam previstas na concepção do conjunto.

“O projeto original do Parque das Laranjeiras já contemplava espaços destinados ao comércio local. Portanto, a presença de atividades comerciais não representa, por si só, uma ruptura com a concepção inicial”, explica.

Imagens históricas mostram o bairro ainda em implantação

Visitantes percorrem as primeiras casas do Parque das Laranjeiras durante a inauguração do conjunto, em 1976; o projeto foi implantado em cinco etapas e previa 1.417 lotes residenciais (Reprodução/YouTube – Arquivo Nacional)
Visitantes percorrem as primeiras casas do Parque das Laranjeiras durante a inauguração do conjunto, em 1976; o projeto foi implantado em cinco etapas e previa 1.417 lotes residenciais (Reprodução/YouTube – Arquivo Nacional)

A história do Parque das Laranjeiras não sobrevive apenas em plantas, leis e memoriais.

Um registro em vídeo disponível no YouTube, com identificação visual do Arquivo Nacional, mostra o conjunto ainda no período de implantação.

Nas imagens aparecem casas recém-construídas, ruas pouco ocupadas, visitantes percorrendo o empreendimento e o corte de uma fita no evento apresentado como inauguração.

O material permite comparar a paisagem das primeiras casas com o bairro posteriormente transformado pelo crescimento da vegetação, pela construção de muros, pelas ampliações e pelos novos usos dos imóveis.

Leia mais: Conheça o prédio com sete andares de estacionamento e mil vagas para carros no Centro de Goiânia

Parque das Laranjeiras muda, mas grandes áreas verdes permanecem

Avenida no Parque das Laranjeiras, em Goiânia, mostra a consolidação do comércio e do fluxo de veículos no bairro ao longo das décadas (Reprodução/TikTok)
Avenida no Parque das Laranjeiras, em Goiânia, mostra a consolidação do comércio e do fluxo de veículos no bairro ao longo das décadas (Reprodução/TikTok)

O bairro de 2026 já não cabe na fotografia das primeiras casas.

Ao longo das décadas, parte da estrutura ambiental passou a contar também com proteção legal. Em 1997, a Lei nº 7.723 criou o Parque Municipal do Parque das Laranjeiras, destinado à preservação ambiental e a atividades de esporte, educação e lazer. 

Atualmente, a relação de parques e bosques da Prefeitura de Goiânia registra na região o Parque Municipal Sabiá, com 23.448 metros quadrados; o Bosque das Laranjeiras, com 76.950 metros quadrados; e o Bosque Bougainville, com 37.413,56 metros quadrados. Juntas, as três áreas somam 137.811,56 metros quadrados, o equivalente a quase 13,8 hectares. 

Para Marielle, essa permanência constitui uma das marcas mais importantes do projeto.

“O principal legado é a permanência de espaços verdes expressivos, que ajudam a preservar a identidade paisagística do bairro”, afirma.

A especialista ressalta, porém, que a existência dos bosques não permite concluir que toda a configuração de 1976 tenha permanecido intacta. Alterações em casas, recuos e jardins exigem comparação detalhada com a planta original para determinar o grau de preservação.

A transformação já estava documentada em 2019. A pesquisa da UFG registra a consolidação da Avenida Flamboyant como corredor de comércio e serviços e aponta casos em que afastamentos anteriormente ajardinados passaram a receber pavimentação para acomodar veículos.

“O problema aparece quando as transformações comprometem elementos como a arborização, os jardins, a permeabilidade do solo e a qualidade dos espaços públicos”, afirma Marielle.

Leia mais: Parque mais antigo de Goiânia, Bosque dos Buritis reserva natureza e tranquilidade no Centro da cidade

Aos 50 anos, o conflito chega ao estacionamento

Décadas depois de o automóvel aparecer nas primeiras plantas das casas, ele volta ao centro da discussão sobre o bairro.

Em 15 de abril de 2026, o Ministério Público de Goiás recomendou ao município que não fossem realizadas intervenções capazes de suprimir áreas verdes, canteiros centrais, jardins frontais ou espaços de lazer no Parque das Laranjeiras, especialmente no trecho da Avenida Flamboyant entre a Praça das Mangueiras e a Alameda dos Rouxinóis.

O procedimento foi instaurado depois de manifestações de moradores contra um projeto de reurbanização que previa aproximadamente 190 vagas de estacionamento no modelo conhecido como “escama de peixe” ao longo da avenida.

O conflito é de 2026, mas a pressão dos automóveis sobre os espaços ajardinados já aparecia anos antes no diagnóstico acadêmico do bairro.

Para Marielle, a discussão precisa considerar mais do que o número de vagas.

“A discussão não deve se limitar à quantidade de vagas disponíveis. É necessário avaliar a circulação de pedestres, a acessibilidade, a segurança viária, a drenagem urbana e a preservação da arborização”, afirma.

O automóvel nunca esteve ausente da história do Parque das Laranjeiras. As primeiras casas já reservavam abrigo para um veículo. Na quinta etapa, alguns modelos passaram a prever dois. O plano original também destinava áreas a estacionamento.

A questão, segundo a especialista, está no limite das adaptações.

“O limite entre modernizar e descaracterizar está justamente na capacidade de atender às necessidades contemporâneas sem comprometer os atributos ambientais e paisagísticos que fundamentaram o projeto original”, diz.

O projeto foi posteriormente revisto. Em maio, a Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito informou que havia considerado os pareceres técnicos e a recomendação do MPGO e que não faria intervenções em áreas verdes, canteiros ou espaços de lazer. Segundo a pasta, permaneceu prevista apenas uma alteração pontual no sistema viário nas proximidades do Parque Sabiá.

Para Marielle, uma intervenção destinada a atender a uma necessidade imediata também precisa ser analisada pelos efeitos que produzirá no futuro.

“Uma intervenção pode atender a uma demanda imediata, mas precisa considerar também seus efeitos sobre o bairro nas próximas décadas”, afirma.

As laranjeiras desapareceram. As casas deixaram de ser iguais. O comércio chegou às antigas residências. A cidade cresceu ao redor.

Mas o Parque das Laranjeiras chega aos 50 anos ainda diante de uma questão presente desde a origem de seu desenho: quanto espaço a cidade deve ocupar — e quanto precisa deixar livre.

Para Marielle, é justamente nessa relação que está o desafio do próximo meio século.

“Os espaços verdes não são áreas residuais do planejamento, mas elementos fundamentais da qualidade de vida urbana. Preservar essa concepção, permitindo que o bairro continue evoluindo, é o desafio para seus próximos 50 anos”, afirma.

Categorias:
Cidades Goiânia
Tags:
bairros de Goiânia Goiânia história de Goiânia Parque das Laranjeiras