Sábado, 07 de Novembro de 2026
PATRIMÔNIO

Por dentro do Jóquei Clube de Goiás: veja como está o prédio 17 anos após o primeiro fechamento; vídeo

Prédio no Setor Central apresenta pontos que precisam de reparos e passa por análise das instalações e dos projetos originais. Diretoria também trabalha para regularizar licenças e estuda retomar atividades no espaço

Por - Goiânia,GO
Publicado em: • Atualizado em:
oquei

A sede do Jóquei Clube de Goiás, no Setor Central de Goiânia, precisa de intervenções de conservação antes de voltar a receber o público, mas os preparativos já estão em andamento. Após um período de cerca de 17 anos sem funcionamento, mas com atividades intermitentes, o prédio – alvo de uma disputa judicial por desapropriação – passa, desde a última quinta-feira (5), por uma avaliação conduzida pela própria diretoria para identificar as condições da estrutura, além dos reparos necessários para recuperar os espaços. O Mais Goiás teve acesso às instalações que constituem, segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU), uma das obras mais expressivas da arquitetura mordenista brasileira (acompanhe abaixo).

Trabalho acadêmico da arquiteta Sofia Fernandes Torres Lima, publicado pela PUC Goiás em 2025, aponta que o prédio surgiu em 1935 para sediar o então Automóvel Clube de Goiânia, primeiro clube
da cidade da capital. Em 1938, a estrutura foi rebatizada com o nome atual e só em 1960, após concurso que elegeu projeto modernista do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, passou por nova construção, inaugurada em 1975. Esta última intervenção, que prevalece até os dias atuais, ampliou o prédio para três pavimentos e realizou integração ao bosque, entre outras benfeitorias.

A análise inicial feita em 2026 aponta desgastes em alguns pontos, mas, segundo o arquiteto do Jóquei e coordenador do trabalho, Kildere Whikichan, não há previsão de grandes alterações na construção, como demolição ou levantamento de paredes. Ele explicou, porém, que o envelhecimento natural do imóvel exige manutenção. “A edificação, no modo geral, já tem muitos anos, mas tem habitabilidade, uma segurança estrutural muito nítida. É semelhante a um ser humano: quanto mais idade tem, mais patologias vão surgindo. Então, a gente precisa fazer alguns reparos em alguns locais, mas nada que nos impeça de já iniciarmos”, afirmou.

(Vídeo: Ageu Rosa/Mais Goiás)

Por outro lado, o coordenador ponderou que o diagnóstico ainda precisa ser aprofundado. A próxima etapa prevê a análise dos projetos originais de arquitetura, estrutura e instalações do prédio. A equipe pretende comparar as informações técnicas com a situação atual do imóvel para identificar os pontos que exigem intervenção e verificar quais autorizações serão necessárias.

Primeiro passo da recuperação

A sede também guarda parte importante da trajetória do clube. Entre os materiais preservados estão documentos administrativos, registros de associados, projetos relacionados à instituição e ao hipódromo, além de troféus. Segundo Kildere, há documentos das décadas de 1930 e 1940, que estão sendo inventariados e organizados.

A intenção é catalogar o acervo e, posteriormente, avançar no processo de digitalização. O material pode ajudar a recuperar informações sobre a história do clube e identificar famílias que tiveram ligação com a instituição ao longo das décadas.

Pedro Ludovico, fundador de Goiânia, em um baile no Jóquei Clube (Foto: reprodução)

Retomada de atividades

Além da conservação da construção, a regularização de licenças e documentos é uma das etapas para permitir a retomada das atividades. A presidente do Jóquei Clube, Nívea de Paula, explicou que o trabalho envolve tanto a recuperação física do espaço quanto a organização da instituição para uma nova fase.

“A importância é resgatar a memória, resgatar a história do Jóquei Clube, e mais que isso, é saber que nós podemos dar continuidade nessa história. Então esse movimento, ele tem resgate, ele tem preservação, ele tem organização, mas ele tem também a esperança de construção da da nova história, do novo capítulo do Jóquei Clube em Goiás”, declarou.

Área das piscinas da antiga sede do Jóquei Clube de Goiás, no Centro de Goiânia, registra sinais de abandono do complexo modernista (Foto: Eurípedes Afonso da Silva Neto)

Planos para o Carnaval 2027

Com a avaliação técnica e a regularização em andamento, a diretoria estuda formas de voltar a ocupar o espaço. Entre as possibilidades estão atividades esportivas e a realização de eventos de Carnaval em 2027. A proposta considera o uso de áreas externas, como o estacionamento, e do salão, caso as condições do espaço permitam.

A realização dessas atividades ainda depende do resultado das avaliações, dos reparos necessários e das licenças. Não há uma data definida para a reabertura da sede.

O programa Jóquei em Ação, previsto para durar 90 dias, integra as iniciativas de organização e recuperação do clube. O trabalho é coordenado por Kildere e conta com apoio de profissionais das áreas de arquitetura e engenharia, além da possibilidade de parcerias.

Processo de desapropriação

A situação do imóvel também envolve uma disputa judicial com a Prefeitura de Goiânia. O processo de desapropriação continua em andamento, com divergências sobre o valor da indenização e a forma de pagamento.

De acordo com Nívea, enquanto a ação não for concluída, a posse e a propriedade permanecem com o Jóquei Clube. A atual diretoria e o conselho seguem à frente da manutenção e das iniciativas para recuperar o espaço.

Fechamento e tentativas de reabertura

A decadência do Jóquei Clube de Goiás, documentada desde a década de 1990, foi marcada por sucessivos fechamentos e reaberturas. O primeiro e mais severo ocorreu em 2009, marco considerado oficial para o fim das atividades do clube, segundo a diretoria. Encerramento aconteceu em meio à dificuldade de manutenção de contas básicas, como água e energia elétrica. Desde então, gestões vindouras fracassaram em novas tentativas de reativar o espaço.

Em 2010, durante a presidência de Mário Ghannam, o Jóquei reabriu, mas voltou a fechar em 2016. Em artigo publicado no jornal Diário da Manhã, o ex-presidente atribuiu o novo fechamento à falta de pagamento de contas da Celg e da Saneago. “De repente agora em 2016 o nosso Jóquei fechou novamente por falta de pagamentos à CELG e SANEAGO e por outros motivos não esclarecidos”, escreveu Ghannam.

As dificuldades financeiras têm relação direta com dívidas acumuladas e anos de inadimplência. Segundo levantamento apresentado pelo município de Goiânia, os débitos fiscais atribuídos ao Jóquei Clube chegam a R$ 226,97 milhões, distribuídos em 43 processos de cobrança na Justiça. Desse total, aproximadamente R$ 219,57 milhões correspondem a débitos de IPTU acumulados entre 1997 e 2025.

Estrutura do Jóquei Clube não precisa de grandes reparos, diz arquiteto (Fotos: Reprodução/Vídeo)

Leia mais:

Categorias:
Cidades Goiânia
Tags:
Jóquei Clube Recuperação Reforma sede histórica