Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026
GLAMOUR E ABANDONO

Bailes, piscinas e a era de ouro do basquete: como era o Jóquei Clube de Goiás antes de ser abandonado

Obra de Paulo Mendes da Rocha, o Jóquei Clube marcou a vida social e esportiva de Goiânia por mais de três décadas

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Área das piscinas da antiga sede do Jóquei Clube de Goiás, no Centro de Goiânia, registra sinais de abandono do complexo modernista (Foto: Eurípedes Afonso da Silva Neto)

Entre a Avenida Anhanguera e a Rua 3, no Centro de Goiânia, um edifício de concreto guarda as lembranças de bailes de carnaval, festas de debutantes, competições esportivas e encontros da elite goiana. Projetada por Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro, a sede modernista do Jóquei Clube de Goiás foi inaugurada em 1975 e permaneceu em funcionamento até 2009. Sem uso regular e exposta à deterioração, a construção está abandonada há mais de uma década. Agora, seu destino depende de uma desapropriação contestada na Justiça e de uma negociação que envolve dívidas tributárias, indenização e preservação arquitetônica.

A Justiça manteve, em julho de 2026, a validade do decreto municipal que declarou o imóvel de utilidade pública para fins de desapropriação. A decisão rejeitou a ação apresentada pelo Jóquei Clube para anular o ato, mas não transferiu automaticamente a propriedade nem a posse para o município. Conforme esclareceu o Tribunal de Justiça de Goiás, a conclusão da desapropriação ainda depende de acordo ou processo específico para estabelecer uma indenização prévia e justa. O prédio, portanto, permanece no centro de uma disputa cujo desfecho ainda não está definido.

O clube que ensinou Goiânia a festejar

O Jóquei Clube de Goiás surgiu em 10 de março de 1938 com o nome de Automóvel Clube, quando Goiânia ainda ganhava ruas, prédios públicos e moradores. A instituição organizou um dos primeiros bailes de carnaval da nova capital, frequentado por autoridades, empresários e famílias ligadas à vida política do Estado. Confetes, serpentinas, marchinhas e lança-perfumes ocupavam o salão em uma cidade cuja população ainda se conhecia pelo nome. Nas décadas seguintes, o clube passou a representar um modelo de sociabilidade associado às festas formais, aos esportes e aos encontros da elite urbana.

Pedro Ludovico, fundador de Goiânia, em um baile no Jóquei Clube (Foto: reprodução)

Com o crescimento da capital, a antiga estrutura deixou de atender às ambições dos associados e abriu caminho para uma nova sede. Um concurso público nacional de arquitetura, realizado em 1962, escolheu o projeto dos jovens arquitetos Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro. A proposta colocou Goiânia no circuito da arquitetura moderna brasileira antes de Mendes da Rocha receber o Prêmio Pritzker, em 2006, principal reconhecimento internacional da área. A construção avançou durante anos até a inauguração oficial do complexo, em 1975, segundo pesquisa acadêmica da PUC Goiás.

O edifício foi concebido como uma estrutura contínua, na qual ambientes distribuídos em diferentes níveis permaneciam conectados sob uma cobertura de concreto. Rampas e escadas conduziam ao salão de festas, restaurante, quadras, saunas, áreas de convivência e praça das piscinas. Um bosque formado próximo a um afloramento de água ligado ao Córrego dos Buritis ajudava a integrar arquitetura e paisagem. A organização do conjunto, analisada em estudo publicado no repositório da Universidade Federal de Goiás, permitia enxergar diferentes pontos do clube sem separar completamente os espaços.

A praça das piscinas funcionava como um terraço aberto para a cidade, enquanto a grande cobertura criava áreas de sombra e circulação. O concreto armado aparente, os grandes vãos e a redução de elementos decorativos aproximavam o projeto da chamada Escola Paulista de arquitetura. O prédio também se tornou a primeira das três grandes obras de Paulo Mendes da Rocha em Goiânia, antes do Estádio Serra Dourada e de sua participação no projeto do Terminal Rodoviário. Conforme análise publicada pela revista especializada Vitruvius, a capital reúne a maior concentração de obras dessa dimensão do arquiteto fora de São Paulo.

Bailes, piscinas e a era de ouro do basquete

A nova sede converteu-se em um dos endereços sociais mais disputados de Goiânia durante as décadas de 1970 e 1980. Bailes de carnaval, festas de debutantes, casamentos, formaturas e recepções ocuparam um salão projetado para integrar os convidados às demais áreas do clube. Artistas goianos, entre eles Siron Franco, Amaury Menezes e chargistas locais, participaram da criação de cenários e decorações para festas carnavalescas. O glamour não estava apenas nas roupas ou nas listas de convidados, mas na própria arquitetura, que transformava concreto, água, jardins e luz em cenário para a vida social.

Entrada do Jóquei Clube de Goiás (Foto: Divulgação)

O Jóquei também ocupou espaço na história esportiva de Goiás, sobretudo no basquete, no vôlei, na natação e nas modalidades praticadas em quadra. Durante a década de 1970, equipes goianas conquistaram resultados nacionais e internacionais, período posteriormente chamado de era de ouro do basquete no Estado. A relevância do clube nesse ciclo aparece no documentário “Chuá”, dedicado às equipes e aos atletas que projetaram Goiás no esporte, conforme registro da Secretaria de Estado da Cultura. O prédio funcionava, dessa maneira, como clube social, centro esportivo e espaço de representação da cidade que se urbanizava.

O interesse acadêmico pela construção ultrapassa a memória dos antigos frequentadores. Artigo publicado no Docomomo Journal classifica o edifício como parte do projeto de modernidade desenvolvido pelo jovem Paulo Mendes da Rocha. Outro estudo, intitulado “Arquitetura e esquecimento”, acompanha a trajetória do conjunto do auge à decadência e defende sua reinserção na vida urbana. As pesquisas identificam valores arquitetônicos, ambientais e afetivos capazes de sustentar novos usos sem eliminar as características originais.

Como o glamour deu lugar ao abandono

O declínio começou a ficar evidente na década de 1990, quando Goiânia ganhou novas centralidades, condomínios com estruturas próprias de lazer e outros espaços para grandes eventos. A redução do número de frequentadores atingiu as receitas e limitou a capacidade de manutenção do complexo. Quadras, piscinas e áreas sociais perderam uso, enquanto as dívidas tributárias cresceram. Em 2009, a sede encerrou suas atividades regulares e passou a representar, no Centro, o contraste entre a importância histórica e a deterioração física.

Parte do imóvel havia sido entregue à Faculdade Padrão por meio de um contrato firmado em 2008, que previa gestão parcial, pagamento de passivos, manutenção e reativação das atividades sociais. O acordo terminou em uma disputa judicial iniciada após denúncias de descumprimento das obrigações. Em 2025, uma sentença rescindiu o contrato e condenou a instituição de ensino a pagar R$ 6,63 milhões, além de determinar reparos e o pagamento de obrigações relacionadas ao período, conforme mostrou o Mais Goiás. A decisão também responsabilizou a faculdade pela degradação verificada durante a vigência da parceria.

Imagem aérea do Jóquei Clube (Foto: Divulgação)

O abandono deixou marcas mensuráveis na estrutura. Uma investigação acadêmica do Instituto Federal de Goiásidentificou infiltrações, deterioração do concreto e danos que exigem diagnóstico antes de uma recuperação. Estudos também apontam corrosão das armaduras, eflorescências, alterações nas quadras e perda de parte da vegetação original. O antigo bosque foi parcialmente pavimentado para funcionar como estacionamento, rompendo a relação prevista entre o prédio, a nascente e a paisagem.

A perda de vitalidade não significa que o projeto tenha desaparecido sob as intervenções. Pesquisadores afirmam que os principais elementos espaciais ainda podem ser reconhecidos e recuperados. O desafio consiste em adaptar o complexo às normas atuais de segurança, acessibilidade e funcionamento sem apagar os elementos que justificam sua preservação. A escala da obra e o tempo de abandono também indicam que a restauração exigirá levantamento estrutural, projeto especializado e recursos ainda não detalhados.

Dívida, desapropriação e disputa na Justiça

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Piscina da antiga sede do Jóquei Clube de Goiás, no Centro de Goiânia, registra os sinais de abandono do complexo modernista (Foto: Prefeitura de Goiânia)

As tentativas de encontrar um destino para a sede atravessaram diferentes administrações municipais. Em 2024, a possibilidade de transferência do imóvel para a Prefeitura voltou à discussão como forma de compensar débitos, segundo reportagem do Mais Goiás. No ano seguinte, o município anunciou que pretendia transformar a estrutura em Palácio da Cultura, com atividades culturais, educacionais e de lazer. A administração também chegou a mencionar a criação de espaços para tecnologia, economia criativa e desenvolvimento de jogos digitais.

Em julho de 2025, a Prefeitura publicou o Decreto nº 2.807 e declarou os imóveis da sede como de utilidade pública. O ato abriu caminho para a desapropriação e autorizou medidas administrativas e judiciais, conforme informou o Mais Goiás. A gestão municipal havia estimado os débitos do clube em R$ 168 milhões e sugerido utilizar a dívida na composição financeira da transferência. O valor, entretanto, passou a ser questionado e revisto durante as negociações posteriores.

Eleita em janeiro de 2026, Nívea Cristina Ribeiro de Paula assumiu a presidência do Jóquei Clube após uma disputa decidida por 131 votos contra 115. Na ocasião, ela afirmou ao Mais Goiás que a nova direção buscaria regularizar a situação jurídica e fiscal da entidade e manter o diálogo com a Prefeitura. As discussões passaram a considerar tanto a sede social quanto o Hipódromo da Lagoinha, localizado na Cidade Jardim. Uma comissão técnica foi criada em maio para revisar dívidas e avaliações dos imóveis, como registrou o Mais Goiás.

O Jóquei Clube ajuizou uma ação para anular o decreto e alegou falta de motivação, ausência de interesse público específico, risco de confisco e violação à exigência constitucional de indenização prévia e justa. A 3ª Vara da Fazenda Pública Municipal e Registros Públicos rejeitou esses argumentos e reconheceu a legalidade da declaração de utilidade pública. A magistrada considerou que as secretarias municipais demonstraram o valor arquitetônico do prédio e seu potencial para atividades coletivas. A sentença, contudo, ressaltou que o decreto é um ato preparatório e não conclui a desapropriação.

Patrimônio reconhecido, mas sem tombamento

A importância arquitetônica do Jóquei não se converteu em tombamento formal da sede social. Em 2017, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás apresentou um pedido de proteção apoiado por parecer técnico do professor Lucas Jordano, da UFG. A universidade registrou que a edificação integra a paisagem do Centro e a memória afetiva de Goiânia, mas o pedido não recebeu decisão favorável, segundo informou posteriormente o CAU/GO. A ausência dessa proteção amplia a importância das condições que serão estabelecidas em eventual desapropriação e requalificação.

O CAU defende que qualquer intervenção preserve os valores históricos, ambientais e arquitetônicos do conjunto. A entidade considera o Jóquei uma das obras mais expressivas da arquitetura moderna brasileira existente em Goiânia. Para os especialistas, recuperar o prédio não significa apenas conservar fachadas ou estruturas de concreto. O novo uso precisa manter a integração entre os ambientes, a relação com a vegetação e a leitura espacial concebida pelos arquitetos.

A sede permanece, assim, entre duas imagens de Goiânia. Uma guarda o som das marchinhas, os vestidos dos bailes, as piscinas ocupadas e as arquibancadas dos jogos. A outra reúne concreto exposto ao tempo, dívidas, processos e projetos que ainda não saíram do papel. A decisão sobre o futuro do Jóquei determinará se a cidade transformará um símbolo do próprio passado em espaço público ou acrescentará mais um capítulo à história de abandono do Centro.

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