Tragédia fez Praça Tamandaré deixar de ser ponto de jovens que tiravam racha de carro em Goiânia, em 1980
Praça Tamandaré era ponto de encontro de jovens e apaixonados por automóveis; disputas ilegais de velocidade marcaram a região e motivaram mudanças no espaço em 1988
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A Praça Tamandaré, no Setor Oeste, em Goiânia, já foi tão conhecida pelos rachas de carros que a Prefeitura decidiu modificar seu desenho para dificultar as corridas. O que hoje é um espaço de convivência, comércio e realização da Feira da Lua foi, nas décadas de 1970 e 1980, um dos principais pontos de encontro de motoristas e motociclistas da capital. Uma pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) revela que a tradição automobilística era ainda mais antiga: a praça chegou a receber competições oficiais de automóveis.
A descoberta consta na dissertação de mestrado da pesquisadora Lyvia Caroline Pires, desenvolvida na UFG. O estudo recupera documentos do Instituto de Planejamento Municipal (Iplan), reportagens e registros históricos sobre a transformação do Setor Oeste. Segundo o memorial do projeto de reurbanização de 1988, as antigas competições ajudaram a criar uma tradição de corridas que continuou mesmo depois de as disputas nas ruas se tornarem um problema de segurança pública.
A movimentação acontecia principalmente nos fins de semana, quando jovens se reuniam para mostrar carros, motocicletas e acompanhar manobras arriscadas. O barulho dos motores, as arrancadas e os chamados cavalos de pau atraíam espectadores, mas também provocavam acidentes e reclamações. A situação levou o poder público a estudar uma solução que fosse além do policiamento: mudar a própria configuração das pistas para impedir que os veículos desenvolvessem altas velocidades.
Antes dos rachas, a praça já tinha tradição de corridas

Uma das curiosidades reveladas pela pesquisa da UFG é que a relação da Praça Tamandaré com o automobilismo não começou com os rachas clandestinos. O memorial elaborado pelo Iplan em 1988 reconhecia que o espaço havia sido utilizado oficialmente para corridas de automóveis, o que contribuiu para transformar a região em referência para os apaixonados por velocidade.
A tradição continuou ao longo dos anos. Na década de 1980, a praça já apresentava grande concentração de veículos e figurava entre os locais com problemas de acidentes e ocorrências policiais, conforme os documentos analisados pela pesquisadora. As disputas aconteciam tanto durante o dia quanto à noite, especialmente nos fins de semana.
O cenário também estava ligado à vida social da época. A Praça Tamandaré era frequentada por jovens que circulavam entre bares, boates e pontos de encontro do Setor Oeste. Para parte daquele público, os carros representavam uma forma de lazer e exibição. Para os moradores e demais frequentadores, entretanto, as manobras perigosas transformavam as ruas em locais de risco.
Tragédia com duas adolescentes marcou a história da praça
O problema ganhou ainda mais gravidade em 1987. Uma reportagem do jornal Diário da Manhã, publicada em 25 de maio de 1988, relembrou a morte de duas adolescentes que vendiam flores na região. Segundo o jornal, elas foram atropeladas em setembro do ano anterior, episódio que intensificou as discussões sobre a necessidade de impedir os rachas.
O caso expôs os riscos enfrentados não apenas por quem participava das disputas, mas também por trabalhadores, pedestres e pessoas que frequentavam os estabelecimentos próximos. A reportagem registrou que a Prefeitura havia elaborado um projeto para inviabilizar as corridas realizadas nos fins de semana.
A reforma estava inicialmente prevista para janeiro de 1988, mas não começou naquele momento por falta de recursos. O atraso prolongou uma discussão que envolvia autoridades, moradores e jovens frequentadores da praça.
Prefeitura planejou ilhas nas pistas para impedir cavalos de pau

O projeto de reurbanização de 1988 não previa apenas uma mudança estética. A proposta buscava alterar a circulação dos automóveis e dificultar fisicamente as manobras que haviam se tornado frequentes na Praça Tamandaré.
De acordo com o documento histórico recuperado pela pesquisa da UFG, técnicos do Iplan avaliaram alternativas como a instalação de quebra-molas e a ocupação de parte das pistas com estacionamentos. Essas possibilidades foram descartadas em favor de uma intervenção mais ampla.
A solução escolhida previa reduzir a área asfaltada, implantar estacionamentos em ângulo e construir ilhas nos cantos das pistas. A intenção era impedir os cavalos de pau e diminuir a velocidade dos automóveis. O projeto mencionava a expectativa de reduzir velocidades que chegavam a 80 km/h para menos de 50 km/h.
A proposta também contemplava melhorias para pedestres e atividades de lazer, com ampliação das áreas verdes, espaços de caminhada, equipamentos de ginástica e parque infantil. Em vez de manter a praça organizada principalmente em função dos veículos, o poder público pretendia favorecer a utilização do espaço pela população.
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Jovens reclamaram e disseram que os rachas mudariam de endereço

A proposta de reforma provocou resistência entre frequentadores da Praça Tamandaré. Em reportagem publicada pelo Diário da Manhã em maio de 1988, alguns jovens criticaram as mudanças e argumentaram que Goiânia oferecia poucas alternativas de lazer.
Um dos entrevistados, Carlos Henrique Bernardes, então com 20 anos, avaliou que a intervenção não acabaria com os rachas. Na opinião dele, os encontros poderiam simplesmente ser transferidos para outros pontos da cidade, como o cruzamento das avenidas T-6 e T-1.
A reportagem também ouviu o escritor Carmo Bernardes, que considerava necessárias as mudanças na praça, mas demonstrava preocupação com a ausência de alternativas de diversão para os jovens. O debate mostrava que o problema não envolvia apenas trânsito: também dizia respeito à maneira como a juventude ocupava os espaços públicos de Goiânia.
Em outubro de 1988, o Diário da Manhã voltou a tratar da reforma e informou que a Prefeitura buscava recursos e providências para executar o projeto. Esse registro é importante porque demonstra que a transformação não ocorreu de maneira imediata.
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Pesquisa da UFG explica como a Praça Tamandaré mudou

A relação entre os rachas e a transformação da praça voltou a ser examinada em uma pesquisa acadêmica divulgada pela UFG em março de 2026. O trabalho de Lyvia Caroline Pires investigou a formação do Setor Oeste a partir de espaços públicos como a Praça Tamandaré, a Praça do Sol, o Bosque dos Buritis e o Parque Lago das Rosas.
O estudo mostra que a praça se consolidou como um dos principais pontos de encontro da juventude nas décadas de 1970 e 1980 e que os rachas motivaram o projeto de reurbanização de 1988. A documentação histórica permite compreender por que a Prefeitura decidiu alterar o traçado do local, embora os registros consultados não estabeleçam uma data única para a conclusão de todas as intervenções.
Com o passar dos anos, a Praça Tamandaré ganhou novas funções. A Feira da Lua, criada no início da década de 1990, tornou-se uma de suas principais atrações. O espaço também passou a receber eventos culturais e decoração natalina, mantendo sua importância na vida dos moradores.
A história revela uma transformação pouco conhecida de Goiânia: um espaço público precisou ser redesenhado para enfrentar um comportamento perigoso que havia se tornado tradição. Décadas depois, os carros antigos e os encontros da juventude permanecem nas fotografias e nos documentos que ajudam a contar como era a capital.