Pesquisa investiga bares, cabarés e bordéis onde operários que construíram Goiânia se divertiam
Pesquisa da UFU investigou documentos de 1930 a 1955 e identificou estabelecimentos no Centro, em Campinas e no Botafogo, revelando o cotidiano pouco conhecido dos primeiros moradores da capital
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Antes de se tornar a capital dos prédios altos, das grandes avenidas e dos bairros movimentados, Goiânia já tinha bares, casas de dança, jogos de cartas, cabarés e bordéis. Na cidade que ainda estava sendo construída, trabalhadores se reuniam para beber, conversar e se divertir, enquanto algumas discussões acabavam em delegacias e tribunais. Uma dívida de apenas cinco cruzeiros por uma cerveja, por exemplo, provocou uma agressão no Centro em 1955. Dois anos antes, um esbarrão dentro de um bar de Campinas terminou em homicídio. Esses episódios foram recuperados em uma pesquisa de doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que revela uma Goiânia muito diferente daquela retratada nas fotografias oficiais de sua fundação.
O estudo é do historiador Matheus Nascimento Germano, autor da tese Notas sobre a formação de Goiânia: uma história da vida cotidiana nas primeiras décadas da capital goiana (1930-1955). Defendido em 2019, o trabalho analisou processos criminais, jornais, documentos públicos e entrevistas históricas para investigar como viviam os moradores durante a construção e a consolidação da nova capital.
A investigação identificou bares conhecidos como Bahia, Brasserie, Goiás, Ipiranga, Marabá, Araguaia, Novo Horizonte e Pão Duro. Também encontrou registros do Mercadinho Botafogo, que funcionava como comércio de produtos e bebidas, além de estabelecimentos ligados à prostituição, como o Bordel Maria Branca e a Boate Bambu.
Os documentos mostram que a história da capital não se resume aos edifícios em art déco, aos projetos urbanísticos e às decisões políticas. Os primeiros moradores também construíram relações sociais em estabelecimentos comerciais, casas de diversão, bairros populares e espaços que raramente aparecem nos registros comemorativos de Goiânia.
A pesquisa completa está disponível no Repositório Institucional da Universidade Federal de Uberlândia.
Bares funcionavam no Centro, em Campinas e no Botafogo
Ao examinar 13 processos criminais envolvendo brigas e furtos em bares, o historiador identificou estabelecimentos distribuídos por três regiões de Goiânia. No Centro estavam Bahia, Brasserie, Goiás, Ipiranga e Marabá, enquanto Campinas reunia Araguaia, Novo Horizonte e Bar do Pão Duro.
O Bar Bahia funcionava na Rua 7. Os demais estabelecimentos centrais citados nessa parte da pesquisa se concentravam na região das avenidas Goiás e Anhanguera, importantes vias comerciais da cidade desde suas primeiras décadas.
Em Campinas, o Bar do Pão Duro ficava na Praça Coronel Joaquim Lúcio, endereço ligado à história do antigo município que existia antes da construção da capital. Já o Mercadinho Botafogo reunia características de bar e armazém, permitindo que os clientes comprassem produtos e consumissem bebidas no mesmo local.
A lista não representa todos os bares existentes em Goiânia naquele período. São os estabelecimentos identificados nos processos examinados pelo pesquisador, documentação que oferece informações principalmente sobre situações que chegaram à polícia ou à Justiça.
Mesmo com essa limitação, os registros permitem conhecer aspectos da vida que dificilmente seriam encontrados nos documentos oficiais de urbanização. Neles aparecem nomes de comerciantes, profissões, endereços, hábitos de consumo e conflitos entre moradores.
Cerveja custava até 15 cruzeiros e bares tinham jogos de cartas

Os processos criminais também permitiram recuperar os preços de algumas bebidas vendidas nos anos 1940 e 1950. Em 1945, uma cerveja sem refrigeração custava 10 cruzeiros no Mercadinho Botafogo, enquanto uma dose de pinga saía por cinco cruzeiros.
No Bar Bahia, no Centro, uma cerveja gelada podia custar 15 cruzeiros. A diferença de preço é relacionada pelo historiador às dificuldades de acesso à eletricidade e à refrigeração, além do encarecimento de produtos naquele período.
Os valores estão registrados na moeda utilizada à época e não podem ser comparados diretamente com os preços atuais, sem considerar as mudanças monetárias e econômicas ocorridas desde então.
Os estabelecimentos também ofereciam outras formas de entretenimento. Era possível jogar cartas com apostas em dinheiro, participar de partidas de sinuca, tomar café e consumir salgados.
Segundo a pesquisa, os bares apareciam como espaços de convivência frequentados principalmente por homens jovens. Entre os personagens encontrados nos documentos estavam trabalhadores, comerciantes, estudantes e profissionais de diferentes atividades.
A presença de jogos e bebidas também aparecia nos relatos de conflitos. Entretanto, a documentação não significa que todos os frequentadores participassem de atividades ilegais ou situações de violência.
Dívida de cinco cruzeiros terminou em agressão no Bar Bahia

Em 30 de junho de 1955, João Lázaro Pinto da Costa, de 24 anos, entrou no Bar Bahia, localizado na Rua 7, e tomou uma cerveja. Na hora de pagar, percebeu que tinha apenas dez cruzeiros, cinco a menos do que o valor cobrado.
Segundo seu depoimento, João Lázaro explicou o engano e prometeu retornar minutos depois para quitar a diferença. O proprietário do estabelecimento, Rodolfo Pereira Bahia, exigiu que o cliente deixasse algum objeto como garantia do pagamento.
O objeto escolhido foi o chapéu de João Lázaro. Para o consumidor, a exigência representava uma ofensa à reputação, já que afirmava ser conhecido e possuir crédito em outros estabelecimentos comerciais da cidade.
A discussão terminou em agressão. João Lázaro declarou ter recebido socos e pancadas, inclusive na cabeça, depois de se recusar a entregar o chapéu.
O comerciante apresentou outra versão. Rodolfo afirmou que o cliente o havia agredido primeiro e que reagiu para se defender, negando parte das acusações feitas contra ele.
O caso chegou à Justiça e foi analisado pelo historiador como exemplo da importância da reputação pessoal nas relações comerciais daquele período. Em uma cidade onde parte das compras era realizada com pagamento posterior, a confiança entre consumidores e comerciantes tinha valor econômico e social.
O processo foi encaminhado ao Judiciário em agosto de 1955 e acabou arquivado em fevereiro de 1967, conforme os registros recuperados pela tese.
Um esbarrão no Bar do Pão Duro terminou em homicídio
Outra ocorrência registrada pelo pesquisador aconteceu em 3 de junho de 1953, no Bar do Pão Duro, na Praça Coronel Joaquim Lúcio, em Campinas.
Segundo os depoimentos reunidos no processo, um esbarrão entre frequentadores provocou uma discussão. O desentendimento aumentou e terminou em uma morte.
A documentação descreve pessoas que estavam no estabelecimento consumindo aperitivos e conversando quando o conflito começou. O episódio acabou investigado pelas autoridades, permitindo que detalhes da ocorrência fossem preservados nos arquivos judiciais.
O caso demonstra como processos criminais podem oferecer informações sobre o cotidiano de uma cidade. Além da violência investigada, os depoimentos registraram o endereço do bar, a presença dos frequentadores e as circunstâncias da convivência naquele espaço.
Entretanto, o próprio tipo de documentação exige cuidado. Processos judiciais registram conflitos e não representam, por si só, o comportamento de toda a população ou a rotina de todos os estabelecimentos da época.
A Goiânia das primeiras décadas também possuía estabelecimentos ligados à prostituição. Entre os locais identificados na pesquisa estavam o Bordel Maria Branca, em Campinas, e a Boate Bambu, que apareciam em documentos policiais e judiciais.
O Bordel Maria Branca funcionava na Avenida Marechal Floriano e era administrado por Maria de Freitas Guimarães, natural de Itumbiara. O espaço possuía ambientes de convivência e dança, além de quartos utilizados pelas mulheres que trabalhavam no estabelecimento.
Os registros ajudam a recuperar a história de mulheres que chegaram à capital de diferentes regiões do país. Algumas encontraram poucas alternativas de trabalho remunerado e passaram a exercer atividades ligadas ao comércio sexual, em condições marcadas por vulnerabilidade e relações de dependência econômica.
Em 20 de novembro de 1953, uma discussão envolvendo duas mulheres que trabalhavam no Bordel Maria Branca terminou em agressão com faca. O caso foi registrado pela polícia e analisado pelo historiador a partir dos depoimentos das envolvidas.
A documentação apresenta Cecília Oliveira Silva, de 26 anos, natural de Barreiras, na Bahia, e Luzia Barbosa de Oliveira, de 19 anos, natural de Cuiabá, no Mato Grosso. As duas trabalhavam no ambiente de prostituição e apresentaram versões diferentes sobre o início do conflito.
Cecília afirmou que a discussão começou após uma tentativa de furto e continuou na Boate Bambu. Luzia declarou que ambas haviam consumido bebidas alcoólicas e que não se lembrava claramente da origem do desentendimento.
A briga terminou quando Cecília foi atingida no peito por uma faca. Luzia alegou ter utilizado o objeto para se defender durante a agressão, enquanto a vítima apresentou outra interpretação dos acontecimentos.
Maria de Freitas Guimarães também prestou depoimento. Segundo a pesquisa, os registros mostram as relações mantidas pela proprietária com as autoridades policiais, além das estratégias adotadas pelas trabalhadoras diante dos conflitos.
O caso evidencia uma dimensão frequentemente ignorada da história de Goiânia: a presença de mulheres pobres e migrantes em atividades que não aparecem nos registros oficiais sobre a construção da capital.
Trabalhadores encontravam nos bares uma alternativa de lazer

Enquanto parte da população com maior renda frequentava clubes sociais e bailes particulares, bares e estabelecimentos populares ofereciam alternativas de convivência para trabalhadores e moradores dos bairros em expansão.
A pesquisa mostra que essas diferenças também apareciam nas possibilidades de deslocamento e no acesso aos espaços de diversão. Goiânia foi planejada para ser uma capital moderna, mas a infraestrutura não alcançava todos os moradores da mesma maneira.
Campinas, que já possuía comércio, residências e atividades comunitárias antes da fundação de Goiânia, continuou desempenhando um papel importante na vida dos trabalhadores. Muitos dependiam de suas lojas, estabelecimentos de alimentação e serviços para atender às necessidades cotidianas.
Além dos bares, os moradores participavam de festas populares, encontros familiares e outras atividades recreativas. O acesso aos clubes privados e a determinados espaços de lazer, entretanto, dependia de condições financeiras que não estavam ao alcance de todas as famílias.
O historiador investigou essa desigualdade a partir das experiências de pessoas que viveram a transformação da antiga região de Campinas e a construção da nova capital.
Os documentos revelam que a história urbana também foi produzida por trabalhadores que circulavam entre bairros, compravam fiado, encontravam amigos e criavam redes de convivência fora dos espaços frequentados pelas elites.
Processos criminais revelam a Goiânia que não aparece nas fotografias oficiais

A pesquisa de Matheus Nascimento Germano analisou a vida cotidiana de Goiânia entre 1930 e 1955, período que inclui os primeiros anos de construção da capital, o Batismo Cultural de 1942 e a consolidação de bairros e atividades econômicas.
O trabalho foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia, sob orientação do professor Deivy Ferreira Carneiro. A tese foi defendida em 28 de agosto de 2019 e possui 291 páginas.
Entre as fontes utilizadas estão processos criminais preservados no Arquivo do Fórum de Goiânia, documentos públicos sobre a construção da cidade, jornais do Arquivo Histórico de Goiás e entrevistas históricas reunidas em projetos de memória.
O objetivo foi investigar aspectos pouco explorados pelas narrativas tradicionais da fundação da capital. Em vez de concentrar a análise exclusivamente nas decisões de governantes e no planejamento urbano, a pesquisa procurou compreender como as pessoas trabalhavam, moravam, circulavam e aproveitavam o tempo livre.
Outra investigação acadêmica, desenvolvida por Simone Borges Camargo de Oliveira na Universidade Federal de Goiás (UFG), também examinou as diferenças sociais na formação da capital. A tese História das casas de Goiânia, de 1930 a 1950, defendida em 2023, analisou o contraste entre as residências planejadas e as moradias comuns dos trabalhadores.
As duas pesquisas contribuem para compreender uma cidade marcada por contrastes. Enquanto projetos urbanísticos apresentavam Goiânia como símbolo de modernidade, seus moradores enfrentavam desafios relacionados à moradia, ao trabalho, à infraestrutura e ao acesso aos espaços públicos.
História da capital vai além dos edifícios em art déco

Às vésperas dos 93 anos de Goiânia, comemorados em 24 de outubro, os registros históricos recuperados pela UFU oferecem outra maneira de olhar para o passado da cidade.
A capital não foi construída apenas por engenheiros, arquitetos e autoridades políticas. Operários, comerciantes, motoristas, mulheres, migrantes e pequenos trabalhadores também participaram de sua formação, criando estabelecimentos, ocupando bairros e desenvolvendo formas próprias de convivência.
Os bares Bahia, Brasserie, Goiás, Ipiranga, Marabá, Araguaia, Novo Horizonte e Pão Duro, assim como o Mercadinho Botafogo, o Bordel Maria Branca e a Boate Bambu, são exemplos dessa história cotidiana.
Seus nomes foram preservados porque apareceram em depoimentos e processos judiciais. Sem esses documentos, muitos episódios e personagens provavelmente teriam desaparecido da memória da capital.
O estudo não retrata uma Goiânia exclusivamente marcada pela violência. Ao contrário, ajuda a mostrar que, por trás dos conflitos registrados, existiam relações de trabalho, amizade, consumo e convivência que também faziam parte da vida dos primeiros moradores.
A cidade planejada para representar a modernidade de Goiás tinha outra história acontecendo nos balcões dos bares, nos quartos das pensões, nas ruas dos bairros populares e nos salões de dança.
Essa Goiânia, pouco presente nos cartões-postais, também ajudou a construir a capital que chega aos 93 anos.