GOIÂNIA

‘Massacre do Parque Oeste’: desocupação completa 21 anos; relembre

Ação militar despejou 3,5 mil famílias que ocuparam uma área particular em Goiânia. Duas pessoas morrerem, 14 ficaram feridas e 800 foram presas

Famílias em protesto após a desocupação - (Foto: reprodução/Documentário Parque Oeste)
Famílias em protesto após a desocupação - (Foto: reprodução/Documentário Parque Oeste)

Há 21 anos ocorria um dos episódios mais polêmicos e emblemáticos de Goiânia: a desocupação do Parque Oeste Industrial – ação que também ficou conhecida como “massacre do Parque Oeste” – responsável por despejar 3,5 mil famílias de uma área privada e por criar o hoje conhecido Setor Real Conquista. 

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A operação militar, que foi autorizada pela Justiça durante o governo Marconi Perillo, ainda segue fresca na memória dos moradores. Embora tenha ocorrido no início de 2005, a história começou cerca de ano antes, em maio de 2004, quando foram erguidas as primeiras barracas na área particular. Nove meses depois, já em fevereiro do ano seguinte, as casas se multiplicaram e deram origem a residências de alvenaria. 

O avanço e modernização dos imóveis, que eram acompanhados pela população e pela imprensa, davam indícios de que moradores caminhavam para atingir o objetivo: conquistar o espaço que poderiam chamar de seu.  Entretanto, o sonho durou pouco e logo se tornou um verdadeiro pesadelo, como descrevem as famílias ouvidas pelo Mais Goiás.

Acontece que ainda em fevereiro foi iniciada a operação da Polícia Militar (PM) para desocupar a área. As paredes das últimas casas da ocupação foram abaixo na manhã do dia 16 daquele ano, quando máquinas de demolição limparam o terreno com móveis e eletrodomésticos ainda dentro dos imóveis, conforme descreve a empreendedora Eronildes Nascimento, natural do Maranhão. 

“No dia da desocupação, eles desligaram a nossa energia e nos deixaram sem comunicação. Todos os direitos humanos foram violados naquele dia. Toda a ação foi violenta, desumana e criminosa”, conta Eronildes, que teve o marido Pedro Nascimento da Silva morto pela PM durante a investida da corporação.

Eronildes Nascimento ao lado do marido Pedro Nascimento da Silva – (Foto: arquivo pessoal)

Antes de desocupar a área à força, a PM deu indícios de que poderia usar uma abordagem mais ríspida. Conforme a empreendedora, por 15  dias, a polícia foi na ocupação pela madrugada com as sirenes ligadas, atiraram bombas para dentro da ocupação, além de realizarem disparos de arma de fogo.

O fato fez com que a população no local ficasse arisca, mas optaram por permanecer na terra por não ter para onde ir. Eronildes, que na época tinha 27 anos, por exemplo, afirma que se mudou para o local com o marido e o filho, após saírem do Setor Pedro Ludovico em busca de moradia própria, visto que não tinham mais condições de morar de aluguel. 

“Meu marido estava na Avenida Magnólia, a polícia chegou jogando bombas e atirando. Todos os moradores que estavam lá saíram correndo, se protegendo. Meu marido levou o tiro pelas costas, foi algemado e espancado pela polícia. Deixaram ele morrer, sem ninguém prestar socorro. No velório, as marcas das algemas estavam nos seus braços”, relembra. 

Além de Pedro, Wagner da Silva Moreira, de 20 anos, também foi baleado e morreu durante a ação. Os dois foram velados no dia seguinte na Catedral Metropolitana de Goiânia, mesma data em que a casa da viúva Eronildes foi demolida com tudo que havia dentro. Ao todo, 14 pessoas ficaram feridas no cumprimento das ordens judiciais, uma delas paraplégica, e 800 foram detidas.

“Fiquei mais de um ano com depressão. Cheguei a pesar 43 quilos, mas com o tempo tive que compreender que precisa continuar pelo meu filho. Também comecei a lutar pela memória e justiça pelo meu marido. Minha vida nunca mais foi a mesma”, relata, ao afirmar que nunca teve justiça pelo marido. 

Eronildes Nascimento ao lado do marido Pedro Nascimento da Silva, morto pela polícia – (Foto: arquivo pessoal)

Traumas 

Os traumas também se estendem a designer gráfica Kesya Lopes, atualmente com 33 anos. A mulher viveu na ocupação quando tinha 12 anos, ao lado do irmão, que tinha 15 anos, e da mãe, de 38, que criava a família sozinha. Assim como Eronildes, os três decidiram ir ao local em busca da casa própria.

“Ajudamos a minha mãe a montar a barraca com paus e lonas. Lembro de passarmos a primeira noite sem uma cobertura e dava pra ver o céu todo estrelado quando fomos dormir. Não tinham luzes por perto. O céu era a nossa única fonte de luz”, afirma.

No dia da tragédia, Kesya estava na casa da avó e não presenciou o embate. Porém, acompanhou de perto tudo que viria a seguir. Quando as famílias foram retiradas do local, pouco se sabia sobre que destino que teriam, visto que, para a maior parte da população, a única alternativa era permanecer ali até a desapropriação, quando seria criado o bairro Sonho Real, como se chamava a ocupação. 

Mãe com filho ferido após a desocupação – (Foto: reprodução/documentário Sonhos, Verdades e Mentiras)

O cenário, no entanto, não se concretizou e as pessoas foram abrigadas durante meses em dois ginásios de Goiânia, nos bairros Capuava e Novo Horizonte. Depois, houve a transferência, a princípio temporária, para o Acampamento Grajaú, no setor de mesmo nome, que abrigou os sem-teto durante quase dois anos. Posteriormente, foi criado o Residencial Real Conquista, em 2006, a fim de garantir o direito de moradia às famílias de forma definitiva. 

“Minha mãe adquiriu a casa, mas tivemos outras lutas depois disso que fez a minha mãe correr o risco de quase não conseguir no fim de tudo. Foi complexo todo trajeto de conquista”, destaca.

Apesar da entrega dos imóveis, só depois de quase 15 anos, no final de janeiro de 2020, 464 famílias que viveram na ocupação finalmente receberam escrituras das casas. A entrega foi feita pela Agência Goiana de Habitação (Agehab), do Governo Estadual. Ao todo, o órgão construiu mais de 2.400 unidades habitacionais no Residencial Real Conquista, no período de 2007 a 2014. A falta de infraestrutura básica dos imóveis era visível. 

“Acredito que valeu a pena a luta. Foi uma oportunidade coletiva, que cavamos com nosso esforço, não apenas por minha família, mas por outras famílias que estavam em situações iguais ou piores que a nossa. Não era uma situação de escolha, não tínhamos opção e nem uma abertura governamental para alterar a nossa situação na realidade. Com certeza passaria por tudo de novo”, conclui.

Policiais apontando armas para moradores – (Foto: reprodução/documentário Sonhos, Verdades e Mentiras)

Documentário 

A desocupação virou assunto de documentários que, inclusive, foram apresentados a nível nacional e internacional. Um dos exemplos é a produção “Sonhos, Verdades e Mentiras”, que acompanhou o drama das famílias de novembro de 2004 a fevereiro de 2005. Mais de 100 pessoas foram entrevistadas, inclusive, o ex-deputado federal por Goiás e atual Diretor de Participação Popular na Assembleia Legislativa, Elias Vaz.

O cineasta Marcus Vinas fez parte da equipe responsável pela produção e direção do documentário. Ela afirma que os profissionais souberam da ocupação e, então, decidiram cobrir e registrar o trâmite. Em um primeiro momento, ele conta que pensavam produzir um documentário sobre o nascimento de um novo bairro em Goiânia. No entanto, presenciaram o que ele chama de “campo de concentração”.

“O dia da desocupação está marcado na minha memória para sempre. Ouvir os policiais gritando faca na caveira, vou beber seu sangue e ver crianças se agarrando aos pais em estado de total terror é uma das imagens indeléveis em minha mente. O que ocorreu depois, a forma como as pessoas foram literalmente depositadas nos ginásios, sem as menores condições de higiene e privacidade, foi muito difícil”, conta.

“O processo de captura foi o mais tocante. Tivemos contato direto com a realidade das pessoas que habitavam ali e era uma realidade dura, de muita necessidade e de muita esperança. Depois da captura dos depoimentos, tivemos que agir muito rápido na parte da edição, pois queríamos exibir o doc no fórum social mundial que estava acontecendo, em Porto Alegre. Por isso há uma série de erros de edição e falhas no desenho de som”, reforça.

Marcus com o colega enquanto entrevistavam Eias Vaz sobre a desocupação – (Foto: reprodução/documentário Sonhos, Verdades e Mentiras)