Quinta-feira, 16 de Julho de 2026
URBANISMO

Revitalizar o Centro de Goiânia exige mais do que levar moradores, apontam especialistas

Urbanistas, empresários, comerciantes e Ministério Público defendem que a reocupação residencial representa apenas o primeiro passo para transformar a região central da capital.

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Vista aérea da Avenida Goiás, no Centro de Goiânia, região que concentra parte das ações previstas no debate sobre revitalização urbana e reocupação residencial da capital. Crédito: Reprodução/TikTok.

Levar moradores de volta ao Centro de Goiânia pode representar o primeiro passo para recuperar uma região que, nas últimas décadas, perdeu população, empresas, órgãos públicos e parte da sua vitalidade econômica. Mas especialistas ouvidos pelo Mais Goiás alertam que nenhuma grande cidade conseguiu revitalizar sua área central apenas ocupando imóveis vazios. Para que a transformação seja permanente, será necessário combinar habitação, mobilidade, segurança, patrimônio histórico, infraestrutura, incentivos econômicos e planejamento urbano de longo prazo.

A constatação reúne arquitetos, urbanistas, empresários, comerciantes e representantes do Ministério Público. Embora reconheçam que o Programa Morar no Centro pode impulsionar o repovoamento da região, todos defendem que a iniciativa somente produzirá resultados duradouros se estiver integrada a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento urbano.

LEIA TAMBÉM:

Esta é a segunda reportagem da série especial do Mais Goiás sobre a revitalização do Centro de Goiânia. Na primeira publicação, a reportagem mostrou como cidades como Medellín, Barcelona, Bilbao, Hamburgo, Melbourne, Curitiba e a região portuária do Rio de Janeiro conseguiram recuperar áreas centrais degradadas ao combinar políticas habitacionais, investimentos públicos e participação da iniciativa privada. Agora, o foco passa a ser outro: quais condições precisam existir para que Goiânia alcance resultados semelhantes e evite repetir experiências que fracassaram em diferentes partes do mundo.

Revitalização começa com planejamento, não com obras

O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira, integrante da equipe responsável pelo projeto urbanístico de Palmas e sócio-fundador do Grupo Quatro Arquitetura, defende que a revitalização do Centro de Goiânia deve ser baseada em um diagnóstico técnico e em uma Operação Urbana Consorciada, prevista no Estatuto da Cidade, para integrar investimentos públicos e privados e promover transformações permanentes.
Crédito: Arquivo pessoal/Divulgação.
(Foto: Divulgação)

Para o arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira, um dos integrantes da equipe responsável pelo projeto urbanístico de Palmas e sócio-fundador do Grupo Quatro Arquitetura, a principal preocupação deve anteceder qualquer intervenção física. Antes de definir incentivos, restaurar edifícios ou estimular novos moradores, é necessário compreender profundamente o funcionamento da região.

“O primeiro passo é elaborar um diagnóstico completo. É preciso entender os problemas estruturais, urbanísticos, ambientais, econômicos e sociais do Centro para, somente depois, definir um plano de ação. Sem esse diagnóstico, corre-se o risco de executar ações pontuais que melhoram aspectos específicos, mas não conseguem transformar efetivamente a região”, afirma.

Segundo o urbanista, o Brasil já possui instrumentos legais capazes de viabilizar esse processo. Um dos principais é a Operação Urbana Consorciada, prevista no Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/2001). O mecanismo permite que o poder público, proprietários de imóveis, investidores e a sociedade participem conjuntamente da requalificação de áreas estratégicas, compartilhando responsabilidades, investimentos e benefícios.

Na prática, explica Cruvinel, esse modelo permite revisar parâmetros urbanísticos, estimular o retrofit de edifícios, reorganizar o uso do solo, ampliar investimentos em infraestrutura e criar condições para atrair novos empreendimentos sem perder de vista o interesse público. “Quando a legislação é excessivamente rígida, ela dificulta a renovação urbana. A Operação Urbana Consorciada oferece instrumentos para adaptar esses parâmetros e criar um ambiente mais atrativo para investimentos, sempre associado à melhoria da qualidade urbana e ao interesse coletivo”, destaca.

Experiências mostram que revitalização depende de ações integradas

Barcelona é considerada uma das principais referências mundiais em revitalização urbana. A recuperação da região central combinou preservação do patrimônio histórico, requalificação dos espaços públicos, mobilidade, habitação e incentivo ao comércio, transformando a cidade em um dos principais exemplos de regeneração urbana integrada.
Crédito: Shutterstock/Divulgação.

A avaliação encontra respaldo em projetos implantados em diferentes países. Em Barcelona, a recuperação de áreas centrais foi acompanhada pela restauração do patrimônio histórico, requalificação dos espaços públicos e incentivo ao uso misto dos imóveis, reunindo moradia, comércio e serviços. Em Medellín, a transformação urbana ocorreu paralelamente à expansão do transporte público, implantação de bibliotecas, parques e equipamentos culturais. Já em Puerto Madero, em Buenos Aires, antigos armazéns portuários deram lugar a um novo bairro residencial e empresarial, resultado da combinação entre planejamento público e investimentos privados.

No Brasil, operações urbanas realizadas em São Paulo, como Água Branca e Faria Lima, utilizaram instrumentos previstos no Estatuto da Cidade para reorganizar o uso do solo, captar recursos para obras públicas e estimular novos empreendimentos em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento urbano. Apesar das diferenças entre essas experiências, todas apresentam um ponto em comum: a ocupação residencial foi tratada como consequência de um processo mais amplo de transformação da cidade, e não como a única solução para recuperar regiões degradadas

Especialistas defendem integração entre moradia, economia e patrimônio

Embora o Programa Morar no Centro tenha como foco inicial ampliar a ocupação residencial da região, especialistas afirmam que os resultados dependerão da capacidade do poder público de articular diferentes políticas urbanas. Segurança, mobilidade, preservação do patrimônio histórico, incentivos econômicos, infraestrutura e continuidade administrativa aparecem como fatores decisivos para consolidar a revitalização.

A promotora de Justiça Alice de Almeida Freire, titular da 7ª Promotoria de Justiça de Goiânia, responsável pelas áreas de Meio Ambiente, Patrimônio Cultural e Urbanismo, defende que a revitalização do Centro deve ser acompanhada por políticas permanentes de segurança, mobilidade, preservação do patrimônio histórico e inclusão social, além da reocupação residencial.
Crédito: MPGO/Divulgação.
(Foto: Divulgação)

Esse entendimento também é compartilhado pelo Ministério Público de Goiás (MPGO), que acompanha aspectos da revitalização da região central por meio de procedimento específico voltado à Rua do Lazer e ao seu entorno.

Segundo a promotora de Justiça Alice de Almeida Freire, da 7ª Promotoria de Justiça de Goiânia, o procedimento atualmente em andamento não analisa a legalidade do Programa Morar no Centro, mas acompanha questões diretamente relacionadas à revitalização da área, como segurança urbana, iluminação pública, videomonitoramento, preservação do patrimônio cultural, ordenamento do espaço público e atuação integrada dos órgãos municipais.

Para o MPGO, a reocupação residencial precisa ser acompanhada por políticas públicas permanentes.“A revitalização não pode se limitar à reforma física de imóveis e espaços públicos. Ela deve ser acompanhada por políticas compatíveis com o aumento da população residente e com as necessidades das pessoas que já vivem, trabalham e frequentam a região”, destaca a promotora.

Ela lembra que o Centro concentra parte importante do patrimônio histórico de Goiânia, incluindo edificações integrantes do conjunto Art Déco, reconhecido nacionalmente, além da Rua do Lazer, declarada patrimônio cultural imaterial do município pela Lei Municipal nº 11.614/2026.

Segundo o Ministério Público, qualquer intervenção deve respeitar o Plano Diretor, a legislação urbanística, a função social da propriedade e os mecanismos de proteção do patrimônio cultural previstos na Constituição Federal e no Estatuto da Cidade.

Economia permanente depende da presença de moradores

O presidente da ACIEG, FACIEG e CAP-TI, Rubens Fileti, defende que a revitalização do Centro de Goiânia deve combinar moradia, segurança, mobilidade, incentivos ao empreendedorismo e investimentos permanentes para fortalecer o comércio e impulsionar a economia da região.
Crédito: ACIEG/Divulgação.
(Foto: Divulgação)

Se do ponto de vista urbanístico a habitação representa apenas uma etapa da revitalização, sob a ótica econômica ela pode funcionar como um dos principais motores da recuperação da região.

Presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg), da Facieg e da CAP-TI, Rubens Fileti afirma que devolver moradores ao Centro significa criar uma economia permanente, diferente da dinâmica atual, concentrada praticamente no horário comercial. “A presença de moradores gera movimento durante todo o dia. Diferentemente de regiões que ficam cheias apenas no expediente, uma população residente aumenta a demanda por supermercados, farmácias, restaurantes, serviços, lazer e diversas outras atividades. Isso fortalece o comércio existente, cria oportunidades para novos negócios e torna a região mais viva e economicamente sustentável”, afirmou a equipe de reportagem ao Mais Goiás.

Segundo ele, a valorização do Centro tende a estimular novos investimentos privados, reformas de imóveis, abertura de empresas e geração de empregos. “Quando existe perspectiva de crescimento da população e valorização da região, o mercado passa a enxergar novas oportunidades de investimento. Isso incentiva reformas, novos empreendimentos imobiliários, expansão dos serviços e geração de empregos, tanto durante as obras quanto após a ocupação desses espaços’’, pontuou. 

Mesmo assim, Fileti ressalta que o sucesso da revitalização dependerá da continuidade das políticas públicas. “Não basta estimular a moradia. É fundamental investir em segurança, limpeza urbana, mobilidade, iluminação, preservação do patrimônio histórico e reduzir a burocracia para quem deseja empreender. Quando esses fatores caminham juntos, os resultados têm muito mais chance de serem permanentes”, finalizou.

Comércio espera retomada, mas alerta para desafios

A presidente do Sindilojas-GO, Marisa Carneiro, avalia que o aumento da população residente pode impulsionar o comércio no Centro de Goiânia, desde que a revitalização seja acompanhada por investimentos em segurança, mobilidade, estacionamento, iluminação e valorização dos espaços públicos.
Crédito: Sindilojas-GO/Divulgação.
(Foto: Divulgação)

Quem acompanha diariamente as transformações do Centro também enxerga oportunidades, mas faz ressalvas. Presidente do Sindilojas-GO, Marisa Carneiro afirma que a região perdeu movimento de forma gradual nas últimas décadas, cenário que pode ser percebido pela quantidade de imóveis comerciais vazios.

“Foi uma perda gradual e muito cara para os comerciantes. Hoje vemos inúmeras placas de aluguel em imóveis que antes abrigavam lojas tradicionais. A saída de órgãos públicos, a transferência de agências bancárias, problemas de segurança, deficiência na iluminação, falta de estacionamento e a degradação dos espaços públicos contribuíram para esse processo”, afirmou ao Mais Goiás.

Para ela, o retorno da população residente poderá criar uma nova dinâmica econômica, baseada no consumo cotidiano. “As pessoas valorizam cada vez mais a conveniência. Morar perto de supermercados, farmácias, padarias, restaurantes e serviços faz toda diferença. Se o Centro receber os investimentos necessários, ele reúne condições para atender essa nova demanda”, finalizou. 

Marisa pondera, entretanto, que a recuperação do comércio dependerá da consolidação do programa ao longo dos próximos anos. “É importante que essa seja uma política permanente, capaz de atravessar diferentes gestões. O ambiente de negócios precisa de estabilidade e segurança jurídica para justificar investimentos de longo prazo”, explicou.

Categorias:
Cidades Goiânia