A voz hipnotizante de Luciana Clímaco
Cantora fala sobre estrear, ao mesmo tempo, em duas bandas autorais diferentes
Ir direto pra matériaAs pessoas chegaram tímidas ao Palácio Conde dos Arcos na sexta-feira (19), na Cidade de Goiás, às 21h, ainda sem saber exatamente o que aconteceria. Foi só Luciana Clímaco alcançar um microfone, no entanto, que as cadeiras começaram a ser ocupadas. A mulher canta, e não é pouco.
Dona de uma voz que atinge dos tons mais graves aos mais agudos, Luciana saracoteou pelo palco, brincando com os músicos Zé Junqueira, Rodrigo Paladino, Bruno Rejan e Henrique Reis. Mesmo simpática, ela carrega um jeito introspectivo, que aparenta fazê-la esquecer do mundo enquanto canta. Não que atrapalhe: ninguém mais parecia lembrar.
A cantora começou a carreira em 2001, na banda Coró de Pau, como vocalista e percussionista. Já passou também pela Pedra 70 e Sertão. Agora ela lança seu primeiro álbum solo e um disco com seu marido, Gregory Carvalho, no grupo Indústria Orgânica. Enquanto ela puxa para o samba, a dupla se autodenomina “rock rural cosmopolita”.
Batemos um papo rápido com ela na correria do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) 2016. Confira a entrevista:
Mais Goiás: Por que “Ambígua”?
Luciana Clímaco: Uma amiga disse “ambígua é a cara de uma libriana”, eu não me ligo nessas coisas e não entendi muito. Acho que “ambígua” é porque eu sou uma pessoa que, ao mesmo tempo em que sou eclética, sou muito exigente nos meus gostos musicais. E acho que trago essa ambiguidade de querer atingir o público, mas ao mesmo tempo querer que prevaleça o meu gosto musical. Ter essa independência musical, para mim, é fundamental. Eu pauto minha carreira nisso. As pessoas têm me falado que meu disco não é muito acessível, é um disco difícil, e eu entendo isso, mas as pessoas têm gostado e acho que eu consigo dar o meu recado, às vezes de forma não tão direta. E ele é eclético, tem desde samba até o rock, desde a temática simples até a mais densa, que é a música Ambígua, que dá o nome ao disco. Essa música é uma parceria minha e do meu esposo, e para mim, ela é muito forte. Fala do momento que eu vivi em que eu perdi a minha filha, e quatro dias depois eu descobri que eu trazia outra filha no meu ventre. Ela fala dessa perda, e ao mesmo tempo dessa espera de uma outra criança. Talvez não tenha tanta explicação. A música fala do umbigo, a gente trouxe a palavra ambígua, e achou que ela era bastante representativa.
MG: O Indústria Orgânica também acabou de lançar seu CD de estreia. Como você concilia as duas bandas?
LC: Na verdade, conciliar as duas bandas é fácil. O difícil é conciliar as duas bandas, a família e todo o resto [risos]. A gente consegue conciliar, precisa de apoio de todo mundo para dar esse suporte, mas não é fácil por causa da rotina mesmo. Eu sou mãe de duas meninas, e o Indústria Orgânica sou eu e o meu esposo. A gente quis muito lançar esse disco e ter essas músicas. São canções todas compostas pelo meu marido, o Gregory, músicas que têm muita verdade e muito da gente. É a nossa rotina, a nossa vida, inspirada na nossa vida como pais, como família, e acho que conseguimos conciliar. Eu estou numa fase muito feliz por ter dois trabalhos autorais e que eu acho relevantes, considero a melhor fase da minha carreira. Estou conseguindo encontrar o que eu sempre busquei: a maturidade musical e o trabalho autoral. Ser intérprete é muito difícil para encontrar uma identidade, e acho que agora consegui isso que eu busco há quase 15 anos de carreira.
MG: Você e o Gregory trabalham juntos nas duas bandas. Como funciona essa parceria?
LC: O Indústria Orgânica tem músicas só do Gregory. Ele traz as músicas, já chega com elas prontas. Ele já me dá até as vozes que eu vou fazer. E é um cara exigente, eu ralo, não é brincadeira não [risos]. Então é um trabalho que é mais dele, eu diria, porque são composições dele e, claro, eu me envolvo de forma plena, mas são composições dele. Já o meu disco é meu mesmo. Traz mais a minha verdade. A Ambígua, que dá o nome ao disco, fui eu que escrevi a letra, mas como eu não sou uma compositora, não faça tantas músicas, eu pedi para ele, que foi e deu um tapa na letra adequou na melodia. Então ele tem papel fundamental. É o meu parceiro. Mesmo quando ele não está fazendo as músicas, está com as minhas filhas para que eu possa fazer. É um apoio – mais do que apoio, na verdade, é sustentação.
MG: Esse é o segundo show de divulgação do CD?
LC: É, porque, na realidade, em um som mais autoral, é muito difícil. Você não consegue transitar em qualquer espaço, e não consegue levar esse trabalho para qualquer lugar. Como não é completamente acessível, também não é comercial. Para conseguirmos mostrar esse trabalho, é muita ralação. O fato de eu ter consegui trazer esse trabalho para cá, que não é meu público alvo, mostrar meu trabalho para pessoas que não seriam as pessoas que veriam ele normalmente, e atingir esse outro público, para mim, é muito legal. Fico muito feliz de ver outras pessoas absorverem isso. Estou muito feliz com o disco e quero levar ele para outros lugares.
Veja mais: Entrevista – O rock rural cosmopolita do Indústria Orgânica